A CONSTRUÇÃO DA MASCULINIDADE

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in Percurso, São Paulo, Vol. 19, p.49-56, 1998.


“A proporção em que masculino e feminino se misturam num indivíduo, está sujeita a flutuações muito amplas. (…) e aquilo que constitui a masculinidade ou a feminilidade é uma característica desconhecida que foge do alcance da anatomia.”
Freud, “A feminilidade”


Introdução

O modelo biológico do masculino e do feminino é válido para a definição celular; mas seria ilusório pensar que a identidade sexuada poderia ser definida a partir do biológico, a despeito das esperanças daqueles que nele quisessem encontrar uma solução para os problemas de identidade: isso seria ignorar que o essencial da sexualidade humana reside em sua dimensão inconsciente.

Quando tentamos definir em bases “sólidas” os termos masculino e feminino, encontramo-nos numa situação bastante incômoda. De fato, poucas palavras condensam conteúdos tão pesados e tão difíceis de precisar quanto masculino e feminino. Falar, como se faz freqüentemente, em “características femininas”, como a graça, ou “masculinas”, como a coragem, é ater-se a definições tautológicas, limitadas a um sistema binário que repete indefinidamente, ainda que de formas variadas, as mesmas cópias. Com efeito, as mulheres da idade da pedra possuíam a graça e o recato daquelas que Cervantes descreve em seu Don Quixote?

A coragem era um atributo particular aos homens da pré-história, ou um a priori comum a todos e a todas sem o qual não seria possível a sobrevivência individual e coletiva? Provavelmente, foi somente a partir de um momento histórico difícil de precisar que atributos tais como a “graça”, a “coragem” e muitos outros foram “sexualizados” sem que exista nenhuma relação natural entre essas categorias e o masculino/feminino.


Identidade: estado de crise permanente

Ao longo da história tem-se podido constatar, ainda que socialmente limitadas, o que poderíamos chamar de “crises de identidade” relativas ao masculino e ao feminino. Enquanto o final do século XIX foi marcado por uma série de textos que podem ser qualificados como difamatórios para o sexo feminino, no início do século XX observou-se uma crise generalizada da masculinidade, sobretudo em Viena. Por exemplo, quase concomitantemente à publicação dos Três Ensaios de Freud, Otto Weininger publica uma obra bastante interessante e original, Sexo e caráter, numa tentativa de precisar, através dos termos mais simples (chegando ao ponto de utilizar fórmulas matemáticas), as diferenças entre homens e mulheres.

A hipótese de um hermafroditismo fundamental, ou seja a noção de bissexualidade, é tão bem exposta por este autor, que alguns pesquisadores da época lhe atribuíram a autoria desta noção. Em uma nota acrescentada aos Três Ensaios em 1924, Freud se apressa a esclarecer o equívoco.

O polêmico trabalho de Weininger, extremamente importante do ponto de vista histórico, teve numerosas reedições e influenciou toda uma geração. Ainda que do ponto de vista ideológico comporte várias críticas – sobretudo no que diz respeito às mulheres – algumas das hipóteses ali apresentadas merecem ser consideradas como avançadas para a época, pois constituem uma das primeiras tentativas de sintetizar, de maneira global, um saber psico-biológico sobre o feminino e o masculino.

No fundo, o que se apreende da obra de Weininger é que o tornar-se mulher é muito mais fácil do que a aquisição da virilidade: esta última nunca é definitivamente adquirida, e deve ser constantemente (re)conquistada, sob pena de ver a feminilidade recuperar o terreno.

Outras crises de identidade já haviam ocorrido nos séculos XVII e XVIII. Embora fossem conseqüência da necessidade de mudar os valores dominantes e tenham acontecido em países nos quais as mulheres gozavam de maior liberdade, tais crises tiveram o mérito de questionar valores que, na época, eram considerados como evidências.

De algum tempo para cá, têm-se observado algumas posições em relação ao masculino e ao feminino que podem ser qualificadas como extremistas. É o caso, por exemplo, de algumas teorias socio-biológicas, mais conhecidas nos países de língua inglesa, e também do diferencialismo feminista. As primeiras, partindo do princípio que a essência do feminino e do masculino é biologicamente determinada, explicam todos os comportamentos humanos em termo de hereditariedade genética, conseqüência da necessidade de adaptação.

Desse ponto de vista, a dominação da mulher pelo homem é compreendida como efeito natural de uma agressividade resultante da competição, entre os homens, para a posse das mulheres. As segundas – diferencialismo feminista – insistindo nas diferenças corporais, preconizam a separação dos sexos, propondo mesmo um inconsciente feminino. De qualquer forma, as duas tendências valorizam um sexo em detrimento do outro.

Uma importante tentativa de dar o justo peso ao complexo processo do “tornar-se homem” foi feita por Stoller. Mesmo que alguns pressupostos deste autor se oponham a certas premissas freudianas, as questões levantadas por ele nos levam a refletir sobre a dificuldade de chegar à dita “posição masculina”.


Masculino/Feminino : uma primeira dificuldade

O modelo freudiano do masculino e do feminino, lacunar e fechado num sistema simétrico binário, reflete a dificuldade de Freud para falar destas noções. Além disso, as posições teóricas de Freud revelam que sua escuta não era imune a seus próprios complexos inconscientes, à sua própria organização identificatória e ao discurso social de sua época. Assim, ao expressar-se sobre a questão do masculino e do feminino, fala de “conceitos”, de “noções” e até mesmo de “qualidade psíquicas”. Em determinados momentos, refere-se ao masculino e ao feminino em termos de atividade e passividade; em outros observa que, tratando-se de seres humanos, esta relação é insuficiente.

Se a psicanálise se utiliza estes conceitos, diz Freud, ela não pode elucidar a sua essência. O conteúdo dessas noções não comporta nenhuma distinção psicológica. Seja como for, a posição de Freud ao chamar a atenção para a dificuldade de definir masculino e feminino é revolucionária, na medida em que não se submete à realidade anatômica, subordinando assim a significação dessas noções a resultados de processos bem mais complexos que as determinações instintuais. Finalmente, cabe lembrar que as teorias sexuais infantis descritas por Freud se baseiam essencialmente no menino, e seguem a lógica pênis-castrado; na menina, Freud confessa não conhecer “os processos correspondentes” .

A dificuldade de um paralelo entre masculino/ativo e feminino/passivo foi bem cedo percebida por Freud. Um exemplo: no famoso Rascunho K sobre as neuroses de defesa, carinhosamente apelidado de Um Conto de Fadas para o Natal, Freud faz uma ligação direta entre o feminino e passividade; em Novos comentários sobre as neuropsicoses de defesa, publicado no mesmo ano em que é redigido o Rascunho K, relaciona o masculino à atividade, e a neurose obsessiva ao sexo masculino.

Embora o peso atribuído às experiências sexuais na etiologia da neurose obsessiva seja o mesmo que na histeria, Freud observa que na primeira, em vez de passividade, ocorre uma atividade sexual a partir de “atos de agressão executados com prazer”. Entretanto, logo adiante no texto as coisas se complicam: Freud diz existir um “substrato de sintomas histéricos” ligado à uma cena de passividade, a qual é anterior à ação geradora de prazer.

Conclusão: por trás da atividade masculina, deparamo-nos com a passividade feminina; e o substrato de sintomas histéricos do obsessivo contém os mesmos conflitos desejo/angústia que Freud elucidou na histérica, o que nos obriga a repensar a pertinência do par masculino/ativo, feminino/passivo. Os rituais obsessivos de um menino, descritos por Freud numa nota de pé de página um pouco mais adiante neste mesmo texto, podem então ser compreendidos como defesa contra o desejo de ser seduzido, logo de ser passivo.

Da mesma forma, um leitura mais atenta da questão edipiana mostra que as coisas são muito mais complicadas do que parecem. Num primeiro momento, o desenrolar do complexo de Édipo apresenta, no menino e na menina, uma certa simetria, o que sugere a existência subjacente de uma atração heterossexual natural e normativa. É isto que Freud descreve ao redigir o Caso Dora: na maioria das crianças observa-se uma inclinação precoce da filha em relação ao pai, e do filho em relação à mãe.

Contudo, as notas de pé de página mais tarde acrescentadas ao texto revelam outra história: além da atração de Dora por seu pai, encontramos também uma identificação a este último que se manifesta no amor homossexual de Dora pela Sra. K. A identificação masculina de Dora mostra que, na pulsão, não há nada naturalmente heterossexual.

A partir daí, Freud se encontra numa posição bastante desconfortável, ou até contraditória: se por um lado o Édipo sugere uma heterossexualidade normal, por outro os fatos clínicos indicam o contrário. (Não é por acaso que Freud acrescenta em 1915 uma série de notas aos Três Ensaios na tentativa de precisar melhor o sentido dos termos “masculino” e “feminino”.) Se a atração heterossexual não tem nada de natural, e ainda menos de inato, não faz sentido pensar em uma masculinidade, ou uma feminilidade, que viriam ao mundo com o bebê: feminilidade e masculinidade são subjetividades adquiridas independentemente do sexo anatômico do sujeito.


O papel do pai real
 

Sem reabrir o debate – absolutamente legítimo – sobre a pertinência da posição falocêntrica defendida por Freud, cabe lembrar que para ele a questão fundamental é saber como se opera, na menina, a passagem da fase “masculina” à “feminilidade normal” .

Embora as teorias de Freud sobre a feminilidade tenham sido objeto de inúmeros debates e controvérsias, pouco se diz sobre a masculinidade. Sobre esta questão, observa-se um inquietante silêncio, como se o fato de possuir um pênis constituísse em si uma garantia, espécie de salvo-conduto, permitindo a passagem “natural” da fase masculina à masculinidade. Ainda que o menino deva passar pelas fases do desenvolvimento com seus diversos percalços, a questão do “tornar-se menino” nunca foi objeto de grande altercações. Entretanto, este processo é bastante complexo.

Não se pode compreender a aquisição da masculinidade sem analisar a relação do filho com seu pai real, ou seja, com o personagem que permite ao sujeito – menino ou menina – de dizer (ou não) num segundo tempo, que ele de fato teve um pai. Não nos referimos aqui, evidentemente, ao pai como função, ao Nome-do-Pai, que certamente esteve presente, pois o sujeito se constituiu; o problema tampouco é compreender em que medida a realidade da presença física do pai implica na sua presença simbólica. Se feminino e masculino são as duas vertentes do falo, nos referimos àqueles que, a partir da inscrição na função fálica, se posicionaram no simbólico como homem.

A referência ao pai real é central em Freud: a relação pessoal que cada um tem com Deus reflete a “relação com o pai em carne e osso” ; da mesma forma, o protótipo do demônio forjado pelo sujeito se origina na relação com o pai ; o superego sádico de Dostoievski é atribuído a um pai na realidade particularmente cruel e violento.

Ao pai cumpre também a tarefa de substituir a mãe na proteção da criança pelo resto da infância contra os perigos de mundo externo como lemos em O Futuro de uma Ilusão. Do pai protetor da infância – o onipotente “pai herói” profundamente admirado, por vezes idolatrado, mas também temido – ficará a “nostalgia do pai”, sentimento que coincide com a necessidade de proteção ligada ao desamparo humano; e a origem do pai como protetor se encontra no pai da horda primária.

Ou seja, o pai que protege a criança no início da vida reatualiza o pai que, na aurora da humanidade, protegia os membros da horda contra os perigos do mundo exterior. No entanto, a partir de um determinado momento – ao longo da era glacial, continua Freud – quando as mudanças do meio ambiente superara a capacidade protetora do pai e este último não cumpria mais seu papel, o pai protetor passou a configurar o alvo por excelência da angústia do grupo: foi a interiorização do medo do real como “angústia do pai” que possibilitou a maturação do desejo de morte contra ele conferindo-lhe, ao mesmo tempo, sua função simbólica.

Para Freud, o complexo paterno que culmina com o assassinato do pai – “o crime principal e primevo da humanidade” – constitui o ponto onde se unem ontogênese e filogênese, a história de cada um e a História da humanidade: a morte do pai que cada criança tem que levar a cabo nada mais é que a reatualização da morte do pai primevo pelas “crianças” da horda primária. Na história de cada sujeito, o desejo de morte do pai se origina bem antes da situação edipiana, no momento em que ele aparece na cena do real fazendo “do desprazar uma experiência da qual ninguém está ao abrigo. “


Identificação e masculinidade

A relação do menino com o pai é, como se sabe, marcada pela ambivalência. No complexo de Édipo em sua forma mais completa, positiva e negativa, sob a égide da bissexualidade constitucional, duas vertentes se opõem e se conjugam: de um lado, uma atitude afetuosa para com o pai; de outro, uma hostilidade igualmente intensa em relação a ele, que se quer eliminar como rival. Ao final do complexo, estas tendências – que deverão ser recalcadas – se agruparão para produzir uma identificação: para aspirar a ser como o pai, é necessário parar de temê-lo.

Entretanto, no caso do recalcamento falhar, as tendências pulsionais afetuosas retornam como moções intoleráveis para o ego, exatamente por reatualizar a “atitude afetuosa feminina para com o pai”, reativando no mesmo movimento, a ameaça de castração. É isto que nos relata Freud através dos casos do Homem dos lobos, do Homem dos ratos, de Schreber e de Pequeno Hans: boa parte dos problemas psíquicos apresentados por estes sujeitos se devia ao retorno de elementos recalcados percebidos pelo ego do sujeito como “femininos”. Talvez por esta mesma razão, a paranóia, assim como algumas formas de perversão, exibem uma “preferência” pelo sexo masculino: a projeção de moções homossexuais não-integradas permite ao sujeito tratar um perigo pulsional interno como se fosse externo.

A angústia de castração, “no interesse de preservar sua masculinidade” , levará o menino a recalcar o hostilidade dirigida ao pai. Pode acontecer que o deslocamento para um objeto substitutivo constitua a única possibilidade encontrada para lidar com a hostilidade. É o que acontece na fobia: graças ao objeto fóbico, a criança pode dar livre vazão à hostilidade nascida da rivalidade com o pai, mas também à afeição dirigida ao pai, pois o objeto temido é também procurado.

Pode acontecer também, quando o pai não se torna o alvo da angústia da criança, que o mundo seja percebido como uma ameaça. Na origem da angústia de algumas pessoas, que se traduz por um “medo de tudo”, um desamparo estrutural, encontra-se uma imagem de pai que nunca foi percebida como sendo, por um lado, o pai que proibe – sabe-se de onde o perigo vem – e, por outro lado, o pai que protege: nestes sujeitos, a “nostalgia do pai” não se constituiu.

Outro elemento a considerar na construção da masculinidade é o modo como o pai investe o filho, e o desejo do pai por ele. Tornar-se pai é correr o risco de pressentir, tal como Laios, aquele que vai desejar sua morte; aceitar que seu filho seja seu sucessor, legar-lhe sua função, pressupõe que o pai saiba que o lugar que ele ocupa foi ocupado anteriormente por outro, e que seu filho, assim como ele, só o ocupará de modo transitório.

Ser apenas um elo na cadeia de gerações significa não apenas descobrir-se mortal, mas também compreender sua morte como conseqüência de uma lei universal, e não como uma punição retardada por desejos edipianos proibidos. Isso que dizer que na relação pai/filho se reatualizam também as ambivalências que marcaram a relação deste pai com seu próprio pai. Finalmente, a relação com o pai será, de alguma forma, o protótipo das relações do sujeito com outros homens.

Uma falha do pai em sua função de objeto identificatório – provavelmente devido a conflitos identificatórios deste pai com o seu próprio pai, um conflito transgeneracional – impede que o filho experiencie o complexo de Édipo em sua forma completa, o que terá conseqüências na construção de sua masculinidade. A clínica nos informa destas vicissitudes. Trata-se de pessoas que, embora sempre tenham tido uma prática heterossexual, apresentam, sob as mais diversas formas, fantasias homossexuais que podem ser definidas como ego-distônicas: embora as pulsões homossexuais tenham acesso à consciência, são experimentadas como totalmente insuportáveis, e a realização destas fantasias seria simplesmente inconcebível.

Quase sempre a procura de análise se deve ao medo desta “homossexualidade” vivida como um sintoma. A análise revela que em muitos destes casos a homossexualidade em questão é a mesma do período edipiano, que não pôde ser “vivida” com o pai. Se estas fantasias – que traduzem uma busca de masculinidade – são tão insuportáveis para o sujeito, é por serem vivenciadas como na relação edipiana, logo proibida, não com a mãe mas com o pai. (Deixaremos para outra ocasião a discussão mais detalhada deste ponto.)

De maneira geral, alguns fantasmas não-integrados ao ego e que podem ser percebidos como passivos, logo ligados à feminilidade, devem ser compreendidos como o retorno da corrente afetuosa em relação ao pai, que reativaria uma vez mais a ameaça de castração: é por isto que a posição masculina é tão freqüentemente ameaçada e que a feminina, segundo Freud biologicamente destinada às crianças do sexo feminino, é tão temida pelos homens.

Isto se torna particularmente claro nos adolescentes: entre os meninos é comum a fantasia de que se um deles tem na relação homossexual o papel passivo, é “mulher”; entre as meninas, a homossexual não é comparada a um homem. A distinção entre duas modalidades identificatórias que freqüentemente aparecem superpostas pode ajudar na compreensão desta dinâmica: de um lado, o sentimento que se estabelece bem cedo e que se traduz por: “eu sou menino” ou “eu sou menina”; de outro lado, o sentimento, bem mais complexo, cuja dinâmica só se completará na adolescência, que se traduz por “eu sou masculino” ou “eu sou feminina”.


Algumas considerações antropológicas

A antropologia é rica em observações e conclusões que mostram que o trajeto em direção à masculinidade deve ser construído, o que é feito através de rituais próprios a cada cultura, e também que o risco de perder esta masculinidade está sempre presente. As observações de Herdt sobre a “evolução” dos meninos em direção a masculinidade entre Sambia da Nova Guiné vão neste sentido.

Durante os dois primeiros anos de vida, meninos e meninas vivem exclusivamente com suas mães, até que progressivamente o pai aparece no universo da criança. A primeira etapa do longo percurso iniciático do menino, que culminará com a aquisição da masculinidade, começa em torno dos sete anos de idade, através de um ato concreto de separação. A certa altura, de maneira radical e abrupta, o menino é separado – por vezes literalmente arrancado – da mãe e, sob a pressão de severas sanções, impedido de dirigir-lhe a palavra, de tocá-la e até mesmo de olhá-la: é por este e outros expedientes que os rituais – e isto vale para toda e qualquer cultura – realizam aquilo que os pais não conseguem, ou não podem, fazer.

Para os Sambia, o modelo masculino identificatório é o do guerreiro capaz de matar, e a masculinidade, que nada tem a ver com a possessão do pênis, não é natural, muito menos inata: não se acredita, que os indivíduos do sexo masculino possuam os mecanismos endógenos necessários para a produção de esperma, o que constitui, para os Sambia, a base mesma do desenvolvimento masculino. Os meninos devem então, para tornar-se homens, ingerir esperma. Isto é feito através de rituais de felação precisos, rigidamente controlados pelas leis do incesto.

Tais rituais constituem verdadeiros segredos, e devem imperativamente ser escondidos das mulheres e das crianças. Os rituais de iniciação-aquisição da masculinidade, que se praticam entre os dez e os quinze anos, são divididos em várias etapas até que, no início da idade adulta, aquele que recebia o esperma se torne por sua vez doador. Quanto às meninas, por possuírem os orgãos capazes de produzir o sangue menstrual, a “aquisição” da feminilidade é tida pelos Sambia como um processo contínuo que começa no nascimento e se completa na maternidade, sem que isto coloque maiores problemas. Tudo que as meninas têm a fazer é passar alguns dias num universo feminino e, mais tarde, frequentar a família de seus futuros sogros.

“Adquirir” a masculinidade implica o risco de perdê-la. Para que isto não aconteça, inúmeros rituais e tabus – por exemplo, não tocar as excreções da mulher, respeitar os espaços exclusivamente femininos, etc. – são observados. Os contatos com as mulheres são a tal ponto temidos (justamente pelo medo de perder a masculinidade) que a simples possibilidade deles provoca verdadeiras crises de pânico.

A sociedade Semai, na Malásia central apresenta características diametralmente opostas. Embora os estudos de R. Dentan sobre esta sociedade merecessem ser longamente mencionados, para nossos propósitos nos ateremos somente a dois aspectos:

1 – a sociedade Semai cultiva qualidades não-competitivas, e a agressividade é considerada coisa intolerável;

2 – os Semai não fazem nenhuma pressão para que os meninos se tornem mais duros que as meninas.

A partir destes dados, a questão da “natureza” da masculinidade não mais se coloca; e saber quem é mais viril, o guerreiro Sambia ou o homem Semai, não faz nenhum sentido. Da mesma forma, os recalcamentos que cada um destes sujeitos serão obrigados a fazer devem ser compreendidos a partir dos suportes simbólicos do masculino e do feminino próprios a cada sociedade.

Na Grécia antiga, encontramos rituais de “aquisição” da masculinidade pelos quais esta última é transmitida corpo-a-corpo. Sob a forma de pedagogia, verdade e sexo se uniam a fim de transmitir um “saber precioso”: o sexo servia de suporte iniciático ao conhecimento. Entretanto, esta pedagogia só se aplicava aos meninos, que deviam, quando o momento chegava, tornar-se cidadãos: nada de similar existia para as meninas.

Em nossos dias, os “rituais” reservados pelo exército aos recrutas nada deixam a desejar aos antigos rituais iniciáticos quando à dureza e a crueldade da disciplina imposta. Isto é particularmente verdadeiro nos Marines americanos, entre os quais, para se ter acesso ao grupo dos homens, dos “verdadeiros”, é necessário despojar-se de toda contaminação feminina. A “filosofia” dos Marines é suficientemente clara: “Para se criar um grupo de homens, mate a mulher que está neles”.

A tudo isto, muitos outros dados podem ser acrescentados – o modo como deste o início da vida meninos e meninas são tratados de maneira diferente e as conseqüências daí oriundas – embora não se possam negar as mudanças evidentes que se vêm operando na sociedade contemporânea no que diz respeito às relações masculino/feminino.


Masculinidade: uma constante construção

O trajeto que leva o menino da posição masculina à masculinidade -resultado de um longo percurso que se constrói em um espaço político e social, através de diversos rituais e provas de iniciação – é extremamente complexo, e o fantasma de não a alcançar é uma presença constante. Por esta razão, é frágil e constantemente ameaçada: tem de se “forçar”, de alguma forma, seu desenvolvimento, sob pena de que ela não se manifeste. Não é por acaso que tantos tabus, proibições e expedientes são necessários para salvaguardar a masculinidade do perigo de contaminação pela feminilidade.

A relação do sujeito com seu próprio pai, ou com aquele que assume este papel, será decisivo para o modo como ele terá acesso as representações simbólicas do masculino: a identificação ao pai nos dá a chave para a compreensão da masculinidade. É no encontro com o pai, seja qual for o registro em que este se encontre – através dos avatares dos processos identificatórios do filho, dos investimentos do pai em relação ao filho, das particularidades do sistema social no qual o sujeito se encontra inserido – que se deve procurar compreender a aquisição da masculinidade bem como suas diferenças “qualitativas”.

A construção da masculinidade é um trabalho constante e a presença do pênis – central na formação imaginária do Eu e determinante para o trajeto identificatório assim como para a construção dos ideais – não constitui nenhuma garantia tangível contra o fantasma de castração.

Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).


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