OS EFEITOS PERVERSOS DA TELEVISÃO

[+] Download deste texto como DOC

in: A criança na contemporaneidade e a psicanálise. Mentes & Mídia: diálogos interdisciplinares, Comparato C, Monteiro D., (coord.), São Paulo, Caso do Psicólogo, Vol. II, 75-86.

A escolha deste título – “Os efeitos perversos da televissão” – é uma tentativa de melhor compreender, e consequentemente avaliar, a extensão dos efeitos que, evidentemente podem ou não ser perversos, da mídia, e em particular a televisão, na constituição do psiquismo.

Etimologicamente, perversão, do latim perversio, define a “ação de perverter”, “transformar em mal”, “depravação”, “corrupção”; perversão dos costumes, do gosto artístico… Fala-se de ato perverso, de conselho perverso, máquina perversa, etc. Assim, o sentido primeiro e geral de perversão é a idéia de um desvio, uma derrapagem, do bem em mal. O paradigma é a Criação: o ato criador é bom mas o criado, não sendo Deus, implica a possibilidade do mal(2).

Logo percebemos que esta definição não resiste à uma análise mais rigorosa. Todos conhecemos situações onde uma iniciativa, uma palavra, tenha produzido efeitos opostos ao desejado; ou ainda aquelas onde o objetivo foi pervertido por aqueles a quem a referida iniciativa, ou palavra, fora dirigia. Isto coloca uma questão filosófica: “a boa intenção e a convicção interior contrabalançam os efeitos perversos não esperados da ação original?” e também uma ética: “é-se responsável pelos efeitos secundários que não se desejou?”

A análise se complicada ainda mais ao introduzirmos a dimensão psicanalítica que vai justamente querer saber mais sobre “a boa intenção e a convicção interior”.
Entendo por “perversão” toda tentativa de impor algo a um outro que não consentisse nisso ou, o que talvez seja ainda pior, impor algo a alguém que não tenha a dimensão do que lhe está sendo imposto(3). Por exemplo, impor à uma criança uma fantasia sexual; utilizar-se situações transferênciais, como na clínica, para manter uma relação falida onde, num narcisismo mortífero, o analisando, com a cumplicidade do analista, entrega-se de corpo e alma ao gozo suposto do Outro que o analista encarna.

Em alguns casos, este raciocínio pode ser transposto para a televisão: esta última – seja na programação ou nos comerciais – pode utilizar de seu poder de persuasão para incentivar comportamentos e sugerir “valores sociais de felicidade” absolutamente inalcansáveis, se não para todos, para a grande maioria da sociedade. Em nome do consumo (o telespectador é, antes de mais nada, um consumidor) certas emissoras não medem esforços para manter os pontos da audiência. O perigo é que isto leve à criação de referências “ético-morais” divergentes daquelas necessários para a construção de uma estrutura social calcada no respeito e no direito do cidadão.

Um outro ponto importante: o mundo está, como sempre esteve, em constante mudança. Para avaliar tais mudanças é necessário manter, dentro do possível, uma certa neutralidade. Não podemos nos esquecer que nossa leitura não é imune à nossa própria organização identificatória, ao nosso referencial de valores ético-morais, e que, tampouco, está ao abrigo de nossos complexos inconscientes infantis que a transferência atualiza. A meu ver, nada pode atrapalhar mais qualquer tentativa de compreensão da atualidade, do que a insistência em manter a todo custo antigas posições narcísicas que se traduzem por expressões como: “antigamente as coisas não eram assim”… “naquela época”… e assim por diante. Se quisermos ter uma compreensão psicológica da criança na era digital devemos ter o cuidado, justamente para não cairmos em posições nostálgicas que, que qualquer forma, não voltarão jamais, de não avaliar as mudanças deste final de milênio como se estivéssemos caminhado para um algo necessariamente pior; onde alguma coisa foi irremediavelmente perdida. Qualquer mudança gera angústia pois implica no desinvestimento libidinal de antigas posições em favor de novas.

A mídia não é um fato isolado da modernidade. Seria no mínimo ingênuo acreditar que as mudanças de valores, comportamentos e atitudes da contemporaneidade devem-se exclusivamente à mídia: ela só chegou onde está devido à condições sócio-econômicas favoráveis num contexto histórico preciso em uma sociedade capitalista. E como acreditamos, em direta filiação freudiana, que a “psicologia individual (…) é ao mesmo tempo, também psicologia social”(4), uma análise completa da situação requereria também uma análise do social pois a constituição do sujeito não pode prescindir dos movimentos sociais onde este sujeito é engendrado. Entretanto tal empreitada por demais ampla, foge ao objetivo do presente trabalho.

Minha proposta, bem mais modesta, é de tentar compreender a participação das novas configurações da contemporaneidade, em particular a da TV, na construção da subjetividade. A mídia, a internet o sexo virtual, os video-games os computadores, que fazem parte da paisagem pós-moderna, são dados objetivos ao alcance da criança: é com esta realidade que temos que lidar.

A pergunta então seria: como o instrumental psicanalítico pode ajudar-nos a analisar estas novas configurações? como estas últimas tomam parte na construção da subjetividade na atualidade e, finalmente, quando esta participação pode gerar efeitos perversos?

Segundo o Aurélio: «”mídia” vem do inglês (mass) media, ‘meios de comunicação (de massa)’; o inglês media, por sua vez, advém do neutro plural do latim medium, ‘meio’, ‘centro’; é a forma substantiva do adjetivo latino medius, a um, ‘que está no meio’, inicialmente usado na acepção geral de ‘meio’, ‘meio termo’.»

“Mídia” significa «”o conjunto dos meios de comunicação, e que inclui, indistintamente, diferentes veículos, recursos e técnicas, como, p. ex., jornal, rádio, televisão, cinema, outdoor, página impressa, propaganda, mala-direta, balão inflável, anúncio em site da Internet, etc. “Mídia” significa também “O conjunto de meios de comunicação selecionados para a veiculação de mensagem ou de campanha publicitária.”»

Temos aqui um ponto de choque, um divisor de águas, entre o discurso midiatizado e o discurso psicanalítico: enquanto o primeiro, apoiado num conjunto de recursos regidos pelas leis de mercado visa influenciar pelos meios mais variados – sugestão, persuasão, condicionamento… – o consumo, o segundo, o discurso psicanalítico, apoia-se no desejo, no particular de cada um; enquanto o primeiro, em nome de uma ideologia, defende a massificação, a padronização, o segundo propõe resgatar a experiência do subjetivo, o “pathos”, no sentido de paixão, sofrimento, para transformá-lo em experiência.

Para a psicanálise, o começo da vida do ser humano é marcado por uma relação de indiferenciação com o mundo externo. Neste estado de narcisismo primário, aquilo que poderíamos chamar de “eu-real” original, sem corte, sem borda e sem temporalidade, seria capaz de satisfazer as exigências pulsionais. Entretanto, esta satisfação auto-erótica é logo perturbada tanto pelas excitações oriundas do mundo externo quanto por aquelas de origem interna que as necessidades vitais suscitam.

Em seguida um primeiro conflito, que deixa claro as tendências antagonistas do ser humano, surge: por um lado, a condição primeira para que o bebê do homem se transforme em sujeito é a renuncia ao narcisismo – ou, se preferirmos, ao gozo narcísico – ou seja, a entrada no mundo do limite da castração e da morte. Por outro lado, uma tal renúncia nunca é completa, e a convicção de que, logo no início da vida, algo foi-nos roubado, que nada, nenhuma gratificação será uma indenização à altura do “objeto primordial” perdido, é uma constatação que se traduz pela reivindicação universal, que pode ser patológica em alguns casos, de que a comunidade nunca nos dá aquilo que nos é de direito. A própria civilização é, em seu cerne, marcada por aquilo que afeta o sujeito do desejo: o recalque.

Este conflito inerente à condição humana pode também ser expresso da seguinte forma: ser “um”, ou seja, unir-se na comunidade constituindo-se mais um membro desta e, por outro lado, manter os privilégios de ser “UM”, “ÚNICO”, quer dizer, ocupar o lugar do filho predileto, no mito de Totem e Tabu. A perspectiva que se segue é pouco alentadora: os homens não podem nem suportar a civilização, nem viver sem ela; eles têm que viver juntos… separadamente.

Se, por um lado, é a civilização que constitui o homem e o protege, por outro, ela exige deste último, para que a vida em comum seja possível, o recalque, ao menos parcial, da sexualidade (a lei do incesto organiza as práticas sexuais) e da agressividade (não se pode dar livre vazão às pulsões; os direitos têm que ser respeitados). A energia das pulsões recalcadas é transformada, através do processo sublimatório, e (re)utilizada para a construção da civilização. Ao mesmo tempo, cabe à civilização oferecer satisfações substitutivas às pulsões recalcadas. Dito de outra forma: o processo civilizatório, o Outro, é aquilo que transforma o gozo em desejo; mas a ele cabe também garantir ao sujeito o acesso e a continuidade, por mínimas que sejam, às satisfações substitutivas sem o quê ocorreria um recrudescimento da frustração causada pela renúncia narcísica.

Encontram-se aqui postulados os germes do Mal-estar na Civilização pois as satisfações que o processo civilizatórios oferece serão sempre parciais deixando na alma humana um sofrimento, um mal-estar, difícil de acalmar.

O Édipo, etapa derradeira do longo processo ao final do qual o sujeito estará integrado à comunidade, implica em um pacto(5) onde a criança perde mas também ganha. Se, por um lado, ela deve aprender a adiar uma satisfação, ou até mesmo a renunciá-la, por outro ela recebe em troca um nome, uma filiação. Ou seja, um lugar na estrutura social e o acesso a ordem simbólica. Ao mesmo tempo, a sociedade também ganha: após o Édipo, a criança iniciará um processo de socialização ao final do qual ela estará em condições de oferecer o seu trabalho para a construção e transformação da sociedade.

Pois bem. Parece que uma das características mais marcante de nossa época é aquilo que se chama de “cultura do narcisismo(6)”: uma cultura marcada pela descrença generalizada nos valores tradicionais, e por uma intensa busca do prazer pessoal, do individualismo, em detrimento dos ideais coletivos.

O sistema de produção e consumo apoiado no massacrante modelo de “sucesso” imposto pelo capitalismo sustenta e aproveita desta organização psico-social. O slogan segundo o qual consumindo, possuindo, você “chega lá”, marcando assim a Sua diferença e impondo a Sua marca individual, revela um aspecto perverso do sistema pois acena para a possibilidade de realização do Desejo e, consequentemente, de eliminação da falta, ou seja, da volta ao paraíso perdido do narcisismo primário. Mas a perversão não pára por aí: ao ditar os códigos a serem seguidos para que o reconhecimento narcísico seja sustentado – pois, afinal, é o outro, o espelho, que nos reconhece – o sistema substitui, quando não elimina, os ideais pessoais que não se enquadram na cultura “objetiva” globalizante, o que pode levar à um empobrecimento, por vezes radical, da subjetividade.

Se, por um lado, a proposta globalizante oferece a “vantagem” de eliminar a angústia do recalque ao criar ilusões identitárias baseadas em modelos coletivos uniformizantes, por outro, as referências identificatórias e os Ideais constitutivos do sujeito (suas origens, a particularidade de sua cultura, suas crenças e sistema de valores ético-morais) perdem seu lugar. Não havendo mais lugar para a circulação do desejo, o sujeito é transformado em objeto e perde a sua história.

Cada aqui uma reflexão que, sem dúvida, merece uma elaboração mais detida. Talvez uma das razões do crescente sucesso, principalmente nas classes menos favorecidas, de seitas religiosas seja o fato destas última cumprirem uma função social: dar espaço para que o sujeito se manifeste e, consequentemente, sinta-se reconhecido e, ao mesmo tempo, acolherem a angústia de seus membros ao propor-lhes a Verdade. Mas a chamada “classe intelectual” não está ao abrigo deste tipo de proposta: há aqueles que aferram-se à uma teoria como à uma Verdade transformando, desta forma, seus pressupostos em dogmas, o que impossibilita todo e qualquer trabalho crítico e criativo. (A este respeito ver o artigo “Identidade e instituição psicanalítica”. Conf., Ceccarelli, P.R., “Identidade e instituição psicanalítica”, in Boletim de Novidades da Livraria Pulsional, São Paulo, ano XII, 125, 49-56, set. 1999)

Votando ao tema. Um dos meios de divulgação desta “filosofia”, desta ideologia – sobre a proposta globalizante – é a TV.

Graças ao plano Real e, com ele, o acesso a planos de financiamento(7), o número de aparelhos de televisão aumentou drasticamente. Segundo uma estimativa de 1998, das 92,6% das moradias com energia elétrica no país possuem aparelhos de TV dos quais 82,4% são em cores. Aumentou também o número de residências com mais de um aparelho de TV: 85% das classes A e B têm dois ou mais aparelhos em casa, além de videocassete e TV a cabo. Na classe C, o índice de lares com TV subiu para 47% (contra 25% antes do Real); este índice passou de 3% para 8% nas classes D e E juntas.

Juntamente com isto, aumentou também a produção dos chamados “programas de baixo nível”. Entretanto, é curioso constatar que a adesão da população a estes programas não é um fenômeno localizado, centrado nas classes menos favorecidas e típico da realidade brasileira(8). Em países desenvolvidos, naturalmente dentro de suas realidades – por exemplo o Japão dito “o pais da classe média por excelência” ou ainda a França onde o estudo secundário é invejável – observa-se um elevado índice de audiência dos programas populares, o que sugere que a qualidade da programação não é um reflexo do grau de instrução ou do nível sócio-econômico da população. Isto parece confirmar uma das leis básicas da teoria da informação: “quanto maior a audiência, menor a taxa de informação da mensagem veiculada, o que significa menor qualidade dessa mensagem”. Mais uma vez, a velha tese parece confirmar-se: a televisão foi feita para o divertimento e não para espelhar, e menos ainda para fazer que se reflita, sobre o contexto sócio-político de uma nação.

Mais ainda, por vezes o apresentador, que tem sua origem nas “classes menos favorecidas”, tende, como todo mundo, a tomar suas próprias referências de consumo, de sucesso, como referência geral, criando desta forma uma “cultura da massa”, e não uma “cultura para a massa”(9). Muitos deles tornam-se referências identificatórias, verdadeiros heróis, “intelectuais”, para outras pessoas que têm a mesma origem. Porém, enquanto cultura é o que nos fala da diferença tirando-nos do mesmo, da repetição, o entretenimento, quando massificado e unificado, tende à igualdade, à mesmice, o que atende muito bem os objetivos da mídia em termos de consumo.

Se uma primeira constatação é óbvia: todas as classes passaram a ter mais acesso ao entretenimento, à informação, àquilo que se poderia chamar de “consumo cultural”, uma segunda, merece reflexão: as conseqüências diferem. Diferem não apenas pela classe sócio-econômica mas, talvez e sobretudo, pela organização psíquica do sujeito exposto à informação.

Sabemos que o potencial bio-psíquico que o bebê traz ao nascer será desenvolvido a partir das relações estabelecidas entre este último e seus pais e, num segundo momento, pelo grupo primário, o grupo familial, primeiro representante sócio-cultural ao qual a criança terá acesso. Através deste grupo, a criança vai adquirir os elementos de informação sobre o sistema simbólico relativo a sociedade à qual pertence e ao qual, como menina ou menino, ela deverá submeter-se e inserir seus comportamentos e condutas. Isto significa que a passagem do psicológico para o psicossocial não pode ser feita sem levar em conta a dimensão do grupo primário, “espaço transicional”, limite e borda do sujeito.

Dentre os inúmeras discussões que podem ser feitas a partir do que foi dito, gostaria de centrar o debate naquelas situações onde um abismo separa a “realidade” mostrada na TV da realidade do contexto sócio-econômico – do grupo primário – onde o sujeito encontra-se inserido.

Embora o fantasiar seja necessário para a manutenção do equilíbrio psíquico – uma compensação às “exigências da sociedade”(10) – este mesmo fantasiar pode dar origem a importantes distúrbios psíquicos quando esta forma de satisfação pulsional constitui a única ao alcance do sujeito: o fantasiar transforma-se num ditame do imaginário.

Ora, ao propor padrões identificatórias e de comportamento como insígnias de sucesso, a TV trabalha exatamente no veio da satisfação pulsional e do narcisismo: quando perguntado porque servia de “aviãozinho”, porque levava drogas da favela para os consumidores, um interno da FEBEM de 12 anos respondeu: “assim eu posso comprar um tênis Nike, e ser igual a todo mundo (leia-se: “posso existir”), e ajudar minha família”. O que a TV exibe (e qualquer novela de audiência máxima é repleta de exemplos) é, então, transformado em valor social de felicidade. Porém, nos lembra Freud(11), a felicidade é um problema de economia da libido e representa “a realização retardada de um desejo pré-histórico”(12).

Como “a realização retardada de um desejo pré-histórico” é inerente ao ser humano, os valores-ideais superinvestidos pela TV – que aqui se confundem com aquilo que anteriormente chamamos de “satisfações substitutivas ao narcisismo” – jamais servirão para a realização do desejo e isto independente da classe social do sujeito. Aliás, é exatamente deste postulado – a impossibilidade de realização do desejo – que as campanhas de publicidade tiram o seu sustento.

Naturalmente, a intensidade da frustração é proporcional às “satisfações substitutivas” às quais o sujeito tem acesso. Quando a distância entre o Eu e os “valores-Ideais” torna-se intransponível, a capacidade de fantasiar do sujeito se vê comprometida. Não é raro, nestas situações, que o sujeito lance mão de comportamentos anti-sociais em suas múltiplas vertentes, como uma forma de dar vazão os componentes agressivos da pulsão gerados pela frustração; para muitos tal expediente constitui a única maneira de se manter o mínimo de “saúde” psíquica.

Muitas vezes os pais vítimas, mas também algozes, deste sistema perverso tornam-se incapazes de referendar os filhos à uma posição crítica: acreditar que o “certo” – em termos de valores, de condutas, de consumo, etc – é aquilo que a TV mostra, equivale à trocar seus sentimentos e intuições pela imagem de pais “ideais” segundo modelos estereotipados, o que pode gerar profunda frustração que se traduz pelo sentimento de “não saber” agir como pai.

Na tentativa, sempre frustrada, de compensar as perdas narcísicas daí advindas, os pais transformam os filhos em espelho de seus narcisismos onde é projetado o status social do momento – o uso de determinado objeto, os cursos, aulas de inglês, natação, psicólogo, etc – criando, entre pais e filhos, um circuito perverso de retroalimentação. Esta violência mortífera traduz a negação da diferença: ver no filho apenas uma imagem idealizada de si mesmo é não reconhecê-lo como outro; é pedir a este filho que seja aquilo que eles – os pais – não foram. Na crença imaginária de ser o objeto exclusivo do amor dos pais, e ao abrigo de toda e qualquer frustração, os filhos vivem a ilusão de um narcisismo ilimitado. O risco é a criação de uma imagem narcísica infantil super-valorizada que impede a construção de limites e de respeito aos direitos dos outros. Exemplo disso, são os comportamentos marginais e violentos, muitos dos quais referendados pela TV, cada vez mais comuns, embora pouco noticiados, nos condomínios de alto luxo onde, ironicamente, a segurança é máxima justamente para não deixar entrar a violência do mundo externo. Quando, mais cedo ou mais tarde, as sanções sociais e atos de autoridade são impostos, estes terão um elevado ônus psíquico, sendo vivenciados como atentados ao narcisismo.

A participação dos pais na construção do mundo interno dos filhos é um postulado de base. Na constituição da psicossexualidade, os investimentos libidinais, que traduzem movimentos pulsionais, se dirigem aos genitores. Quando estes se sentem incapacitados de servir de suporte identificatório dos filhos – pois a distância entre o que são e o imaginário do que deveriam ser é ameaçadora – estes últimos buscarão modelos fora do âmbito familiar para as projeções dos impulsos afetuosos e dos hostis indispensáveis à constituição do psiquismo. É também o grupo primário que dará à criança as primeiras referências para a construção de seu sistema de valor ético-moral. Na falta destas referências, ou quando as tradições e costumes familiares não se encaixam nos modelos padrões, a criança pode tomar aquilo que a televisão mostra como coordenadas de base. Cenas que evocam violência, agressividade, aquelas que sugerem relações baseadas na desconfiança, na falta de solidariedade e outras tantas, podem incentivar comportamentos e propor “valores éticos” divergentes daqueles necessários para a construção de uma estrutura social calcada no respeito e no direito do cidadão.

A situação complica-se ainda mais na adolescência quando a busca de modelos externos é uma necessidade para a separação e luto dos modelos familiares. Para que este tempo de transição se complete é indispensável um trabalho autobiográfico de reinvestimento e de historização ao final do qual um tempo passado e, consequentemente para sempre perdido, continuará a existir psiquicamente. É a elaboração deste luto – que é também o luto da criança e de seu corpo infantil – que permitirá o investimento no tempo futuro que, por hora, só existe em termos de potencialidade, de virtualidade(13). Aqueles carentes de referências que suportem esta passagem podem recorrer a expedientes tais como a delinqüência, o recurso às drogas, a violência, a sexualidade compulsiva e a outros tantos, para encontrar respostas lá onde os pais, e em seguida a sociedade, nada lhes propõem. Mais uma vez, a televisão pode oferecer “soluções” a conflitos internos assegurando ao sujeito a ilusão de pertencer a um grupo e propiciando-lhe, ao mesmo tempo, uma defesa contra o perigo de se entrar em contato com representações inconscientes de conteúdos depressivos.

Mas os adultos tampouco estão ao abrigo do uso da televisão como uma válvula de escape para moções pulsionais (perversas) recalcadas: a atração que determinados programas exercem e aos quais assistimos num misto de horror e fascínio, testemunha a força dos elementos recalcados da sexualidade infantil em busca de satisfação.

* *
*

A televisão não pode ignorar a sua participação na construção social, na formação de mentalidades e no desenvolvimento psicossocial da criança e do adolescente. Na atual situação sócio-econômica do Brasil onde a falta de perspectiva e de confiança no futuro, o crescimento do desemprego, a ausência de lideranças confiáveis, enfim, a desesperança social generalizada, leva a sociedade, mas sobretudo a juventude, a uma tensão psíquica cada vez maior, a responsabilidade da televisão com aquilo que ela exibe não pode ser minimizada.

Isto se potencializa quando lembramos que boa parte daqueles que a televisão atinge passa mais tempo em frente ao aparelho de TV do que nas salas de aula. A participação ativa da população na programação das TVs, e em particular a nossa como analistas para, no mínimo, refletir sobre esta situação, mais que um direito é um dever, uma responsabilidade.

NOTAS
__________________________________________________________________________

1- Trabalho apresentado no Seminário “Mentes e mídia: a criança na era digital”, no Dep. de Psicanálise da Criança do Instituto Sedes Sapientiæ, São Paulo, 16 e 17 de junho de 2000. Publicado com o título de “Televisão, mídia e seus efeitos perversos”, in Comparato C, Monteiro D., (coord.), A criança na contemporaneidade e a psicanálise. Mentes & Mídia: diálogos interdisciplinares, São Paulo, Caso do Psicólogo, Vol. II, 75-86.

2 – Sobre este tema, ver o trabalho do teólogo Eugen Drewermann, “Le mensonge et le suicide”, Paris, Cerf, 1992.

3 – Esta idéia é bem proxima da de Joyce McDougall quando esta autora debate as “neo-sexualidades”. Conf. McDOUGALL, J., “As múltiplas faces de Eros”, Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1997, p. 192.

4 – FREUD, S., (1915), “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”, E.S.B., 1976, XVIII, p. 91.

5 – Expressão utilizada por Hélio Pellegrino. Conf. PELLEGRINO, H., “Pacte Œdipien et Pacte Social”, in Le Psychanalyste sous la Terreur, Paris, Rocinante, 1986, pp. 16-22.

6 – LASCH, C., “A cultura do Narcisismo”, Rio de Janeiro, Imago, 1983.

7- Matéria publicada no caderno MAIS!, da Folha de São Paulo, em 12/O4/98, por Suzana Barelli.

8 -Teixeira Coelho, caderno MAIS!, da Folha de São Paulo, em 12/O4/98.

9 — Teixeira Coelho, Op. Cit.

10 – FREUD, S., (1910), “Cinco lições de psicanálise “, E.S.B., 1970, XI, p.50.

11 – F REUD, S., (1929) “O mal-estar na Civilização”, Edição Standard brasileira, Imago, 1974, XXI, 97.

12 – J., MASSON, J, A correspondência completa Freud-Fliess, 1887-1904, Rio de Janeiro, Imago, 1986, p. 295.
13 – Aulagnier, P., Congresso de Mônaco, 1988. (comunicação pessoal)


Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).


voltar ao topo