JOYCE MCDOUGALL – UMA APRESENTAÇÃO

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in Percurso, São Paulo, Vol.18, p.1O4-1O6, 1997.


“Para um psicanalista, publicar um livro dito de Psicanálise é também de certa forma se publicar, revelar um fragmento de si.”

A melhor maneira de apresentar Joyce McDougall é convidando o leitor a visitar sua obra. Autora de 5 livros , traduzidos em mais de dez línguas, dentre as quais o japonês e o hebreu, e de inúmeros artigos, solicitada à dar conferências no mundo inteiro, até mesmo na India, convidada pelo Dalai-Lama interessado na importância de Freud na cultura ocidental, Joyce McDougall soube tirar partido dos conflitos nas Sociedades anglo-saxônicas e francesas, para construir uma obra pessoal ao abrigo de todo sectarismo.

O compromisso para com a sua própria verdade, torna a obra de Joyce McDougall um trabalho de referência, onde o leitor é constantemente remetido às suas próprias questões, num continuo movimento de confrontação com seus aspectos neuróticos, psicóticos, perversos e normopatas.

Joyce McDougall nasceu em Dunedin, na Nova Zelândia para onde seu avô, um inglês chamado Carrington, emigrou após a falência da Estrada de Ferro Canadense do Pacífico. Os Carrington são provavelmente de origem francesa oriundos da Normandia. De grande talento para a pintura, Carrington tornou-se inicialmente instrutor em uma pequena escola do interior onde, além de professor, organizava e dirigia pequenos espetáculos teatrais com os alunos. Foi por ocasião de uma apresentação que ele encontra Jane Martin com quem se casa e tem 6 filhos, 5 dos quais são homens. O pai de Joyce, Harold, foi o quarto. Quando o mais novo dos filhos chega aos 18 anos, Carrington pode enfim realizar seu sonho: voltar a pintar. Em 1993, ano de seu centenário, a cidade de Dunedin presta homenagem a seu talento organizando uma importante exposição de seus quatros.

Harold é mobilizado para a guerra de 14-18 e quando, após a guerra, retorna à Nova Zelândia traz consigo Lilian uma jovem inglesa, com quem se casa e tem duas filhas; Joyce é a mais velha.

O interesse de Joyce McDougall pela psicanálise começa aos 17 anos quando lê apaixonadamente a “Psicopatologia de vida cotidiana” de Freud. A partir desse encontro decisivo, Joyce decide estudar psicologia em vez de medicina, como era o desejo da família. Ela se inscreve então na Universidade de Otago onde lê todas as obras de psicanálise alí disponíveis, ao mesmo tempo em que sente crescer o desejo de fazer uma análise pessoal e o de tornar-se analista. Foi no Clube de Teatro dessa universidade que, como atriz na peça Night must fall de Dylan Thomas, Joyce encontra seu marido, Jimmy McDougall.

Em 195O o jovem casal parte para a Inglaterra, acompanhado pelos dois filhos Martin e Rohan. Jimmy, que trabalha na área educacional, espera encontrar emprego na Inglaterra; para Joyce é a ocasião sonhada para fazer uma análise e seguir uma formação.

Logo após sua chegada a Inglaterra, Joyce escreve aos analistas que conhecia através de seus livros, dentro os quais Anna Freud e Winnicott, para perguntar-lhes sobre as possibilidades de formação. O encontro com Winnicott, que a convida a seguir seus seminários, foi marcante tanto pela personalidade do mestre como pela criatividade e originalidade de seu pensamento. Do encontro com Anna Freud, Joyce sai vivamente impressionada. A filha de Freud a aceita para fazer formação em psicoterapia de crianças na Clínica de Hampstead; Joyce volta para casa contente com as prespectivas que se anunciam, e esquece suas luvas na casa de Anna.

Em 1953, Jimmy McDougall recebe uma oferta de trabalho irrecusável junto a Unesco em Paris, o que obriga Joyce a interromper sua análise, sua formação e a deixar seu trabalho como psicóloga no Hospital Maudsley. Sob os protestos de Anna Freud, Joyce parte para Paris levando uma carta de recomendação à Marie Bonaparte que a recebe calorosamente e a apresenta ao Instituto de Psicanálise.

Em Paris Joyce retoma sua formação e começa sua análise com Marc Schlumberger seguida mais tarde de uma segunda análise com Michel Renard. Segue os seminários de Maurice Benassy, com quem faz também supervisão, e participa grupo de terapia de adolescente sob a direção de René Diatkine. Nessa ocasião, ela começa a divulgar na França as obras de autores anglo-saxões.

Na cisão que opõe Nacht e Lacan, Joyce procura um e outro separadamente para melhor se posicionar em relação ao que está acontecendo. Dos dois encontros, Joyce sai decepcionada ao constatar o pouco de coerencia dos argumentos apresentados por ambas as partes (fora as questões puramente narcísicas), e a falta de interesse pelas verdadeiras questões psicanalíticas. Tal constatação só veio a reforçar sua aversão a todo dogmatismo em psicanálise. Ao mesmo tempo que Joyce continua sua formação no Instituto, ela segue regularmente os Seminários de Lacan, o que a permite de confrontar as idéias desse último àquelas de Winnicott. (Outros autores importantes influenciaram seu pensamento: Melaine Klein, Margaret Mahler, Bion, mas sobretudo sua grande amiga de mais de 3O anos Piera Aulagnier)

Graças a seus conhecimentos de inglês recebe, encaminhado por Serge Lebovici, uma criança psicótica de origem americana. A história desse encontro – Un cas de psychose infantile (196O), e em inglês Dialogue with Sammy (1966) – foi a primeira grande publicação de Joyce McDougall. Nesse trabalho, onde lança as bases de sua obra futura, Joyce elabora sua percepção do universo psicótico reconhecendo, ao mesmo tempo, a núcleo psicótico presente em cada cura analítica. Para a autora, todos os sintomas, neuróticos, psicóticos, perversos ou psicossomáticos, são criações infantis numa tentativa de auto-cura.

A originalidade do “método McDougall” reside na constante prática de uma “teorização flutuante” indissociável de movimentos transferências e contra-transferências. Afirmando não haver diferenças nítidas entre a teoria e a clínica psicanalítica, Joyce McDougall sustenta que os casos clínicos em si nada provam, servindo apenas para ilustrar uma concepção teórica. Nesse sentido, o perigo é que as teorias se transformem em dogmas ao ponto de, na tentativa de prová-las, a escuta clínica seja comprometida.

A metáfora do Teatro como local dos conflitos psíquicos é central em sua obra. (Teatros do eu, Teatros do corpo) Nesse espaço Joyce cria seus conceitos originais tais como os de atos-sintomas, de neo-sexualidades, adicção, sexo-adicto, ou ainda termos chaves como os de anti-analisando, normopatia e desafectação. Partindo da força criativa de Eros, o trabalho psicanalítico oferece a possibilidade de criar novos cenários mais adaptados a uma vida psíquica harmoniosa evitando a repetição de cenários infantis dominados por angústias imaginárias ou reais.

Muito solicitada internacionalmente, sobretudo entre os anglo-saxões, Joyce faz uma espécie de ponte entre a escola inglesa, americana e francesa tentando, sem nenhum sectarismo, sublinhar a riqueza e a particularidade de cada escola. Joyce McDougall é membro honorária de várias associações e instituições psicanalíticas. Sua vida pessoal também mudou: seus filhos se casaram e retornaram para a Inglaterra. Em meados da década de 5O, Joyce conhece aquele que seria seu segundo marido, Sidney Stewart, um americano psicanalista e pintor residente em Paris.

O lugar de destaque que ocupa Joyce McDougall na psicanálise contemporânea é indiscutível. Fiel à sua posição de analista, seu contínuo movimento de questionamento faz com que ela forje suas próprias respostas quando não encontra as que julga adequadas. Ainda que se possa não concordar com todas as suas posições teórico-clinicas, não se pode negar a força de persuasão de seu trabalho clínico assim como o seu imenso talento para traduzir em palavras os sentimentos, as paixões, enfim, todos os movimentos do funcionamento psíquico.


Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).


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