A MASCULINIDADE E SEUS AVATARES

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in Catharsis”, São Paulo, ano IV, 19, 1O-11, maio/junho 1998.

Embora muito tenha sido dito e debatido sobre a masculinidade neste final de milênio, a história nos traz exemplos, ainda que socialmente limitados, daquilo que de uma maneira global pode ser qualificado como “crises de identidade”. Tais crises, como as ocorridas nos séculos XVII e XVIII, refletiam a necessidade de mudar os valores dominantes. Aconteceram, é verdade, em países onde as mulheres gozavam de maior liberdade mas tiveram, mesmo assim, o mérito de questionar aquilo que, na época, era considerado como evidências.

O início do século XX, por sua vez, foi marcado por uma crise generalizada da masculinidade, sobretudo em Viena. Um exemplo, é obra bastante interessante e original de Otto Weininger, Sexo e caráter, onde o autor precisa, através dos termos mais simples (chegando ao ponto de utilizar fórmulas matemáticas), as diferenças entre homens e mulheres.

O polêmico trabalho de Weininger, extremamente importante do ponto de vista histórico, teve numerosas reedições e influenciou toda uma geração. Um século mais tarde, várias críticas podem ser feitas à esta obra; entretanto, algumas hipóteses ali apresentadas merecem ser consideradas como vanguardistas para a época constituindo, ademais, uma das primeiras tentativas de sintetizar um saber psico-biológico sobre o feminino e o masculino. O que se apreende da obra de Weininger é que a aquisição da virilidade nunca é definitivamente adquirida, e deve ser constantemente (re)conquistada, sob pena de ver a feminilidade recuperar o terreno.

As tentativas de se estabelecer uma base sólida a partir da qual pudéssemos nos apoiar para definir, ainda que com segurança relativa, a masculinidade e seus avatares, se revelam ainda mais ilusória quando recorremos à antropologia. Como tive a oportunidade de discutir em outro lugar (1), masculinidade e feminilidade, longe de serem realidades objetivas e muito menos fenômenos naturais calcados em elementos anátomo-biológicos são, antes, noções dependentes das formas culturais dentro das quais tais noções emergem. Há sociedades onde possuir um pênis não constitui acesso à masculinidade: esta última, que não é natural e muito menos inata, deve ser adquirida através de rituais de felação, rigidamente controlados pelas leis do incesto, onde os meninos devem, para tornar-se homens, guerreiros, ingerir esperma dos mais velhos.

Em outras sociedades, a noção de masculinidade é diametralmente oposta. Nestas, cultiva-se qualidades não-competitivas sendo a agressividade considerada coisa intolerável. Em qual das duas os homens são mais virís?

Mais perto de nós encontramos situações no mínimo curiosas. É o caso do artigo publicado em julho de 1993 no jornal The Observatory, de Nova Iorque, cujo título é Female like me (Mulher como eu). Propõe-se aí os serviços de uma Escola particular onde se ensina aos homens como passar por mulheres. Em grandes letras se lê: “Ao longo dos últimos dezoito meses mais de 100 nova-iorquinos – na sua grande maioria executivos casados – frequentaram a Escola de Aperfeiçoamento (gênero Socila) da Senhorita Vera para Rapazes desejosos de tornarem-se senhoritas.”

No outro extremo, encontramos rituais para, desta vez, “livrar” os homens do perigo da contaminação feminina. A “filosofia” dos Marines americanos é bastante alusiva: “Para se criar um grupo de homens, mate a mulher que está neles”.

O que se depreende de tudo isto, é que a masculinidade é construída num espaço social e político e que sua “natureza”, assim como seus rituais iniciáticos, só podem ser compreendidos dentro dos suportes simbólicos do masculino e do feminino próprios a cada sociedade.

Nesta perspectiva, aquilo que habitualmente se chama de crise da masculinidade – revisão dos comportamentos ditos masculinos, tais como: “homem não chora”, “homem que é homem não tem medo”, “homem tem que transar com todas as mulheres senão é bicha”, e outros tantos que dizem respeito ao modo como, desde o início da vida, meninos e meninas são tratados de forma diferente e as conseqüências daí oriundas – deve ser pensado de outra maneira.

Dito de outra forma: abordar a crise da masculinidade a partir de parâmetros de comportamento que variam, como vimos, segundo as diferentes culturas, é uma posição reducionista e em nada nos informa sobre o fundo da questão.

Para compreendermos a aquisição da masculinidade, e consequentemente sua crise, temos que entender por quais meios o menino se dá conta que pertence ao gênero masculino, ou seja, como, a partir da inscrição na função fálica, ele se posiciona no simbólico como homem para, então, construir, ou não, sua masculinidade.

A clínica nos informa que é essencialmente através da relação do menino com seu próprio pai ou com aquele que assume este papel, através dos processos identificatórios, que ele – o menino – construirá sua masculinidade dentro das particularidades do sistema social no qual está inserido.

Ao mesmo tempo, a construção da masculinidade é profundamente dependente da maneira como o pai investe o filho: na relação pai/filho se reatualizam os conflitos que marcaram a relação deste pai com seu próprio pai, o que faz que a relação pai/filho seja, tanto de um lado quanto de outro, marcada pela ambivalência.

Ora, se o pai não cumpre sua função de objeto identificatório – o pai que castra mas que também protege – o filho terá dificuldade de lidar com as angústias geradas na situação edipiana. Isto terá conseqüências, por vezes catastróficas, não apenas na construção de masculinidade, mas também na maneira que o sujeito vive “concretamente” sua sexualidade assim como na aquisição do sentimento de identidade sexual. Vale lembrar ainda, que é na relação da criança com o seu pai, que se constituirá o protótipo das relações do sujeito com outros homens.

É crescente o número de crianças, principalmente de meninos, que são encaminhados para terapia por apresentarem “problemas” de identidade. Desde os primeiros encontros fica claro aquilo que pode-se chamar de “qualidade” da relação destas crianças com a figura masculina e, consequentemente, a possibilidade da imago paterna de servir, ou não, de suporte identificatório. Estas crianças exibem, por vezes, comportamentos e preferências ditos “femininos”.

Entretanto não se tratam de crianças que apresentariam uma orientação homossexual embora esta situação também se apresente. Seriam, antes, meninos que, devido à particularidade de suas constelações familiares, identificaram-se às referências simbólicas que, na nossa sociedade, são atribuidas às meninas. Isto pode ser gerador de angústia nos pais, principalmente nas mães que “cobram” dos maridos aquilo que eles não podem dar.

Digno de nota é o fato que, em muitos destes casos que tenho acompanhado pessoalmente ou em supervisão, os pais destes meninos estão em crise em relação às referências sociais da masculinidades às quais eles não conseguem corresponder, o que gera angústia.

Uma exploração dos elementos, principalmente os inconscientes, presentes no trajeto identificatório destes pais revela, em muitos casos, uma problemática bastante próxima à apresentada pela criança, relativisada pela diferença de gerações e pelas mudanças no contexto social.

A palavra “crise” em algumas línguas tem uma conotação positiva pois traduz uma mudança, uma abertura para uma nova concepção da questão. Qualquer mudança, entretanto, gera angústia pois implica no desinvestissimento libidinal de antigas posições em detrimento de novas. A crise da masculinidade não escapa à regra. O futuro nos dirá se a “masculinidade do século XXI” será menos carregada de pressões e de pré-conceitos ou se, ao contrário, assistiremos a um recrusdecimento de valores e posições tidos como superados.

Notas

(1) P. R. Ceccarelli, “Le transsexualisme : Nature ou contre-nature?”, Topique, 55, 1994; Ceccarelli, P. R. “Mal-estar na identificação”, in: Boletim de Novidades da Livraria Pulsional, ano X, 93, 37-46, Jan., 1997; Ceccarelli, P. R. “A construção da Masculinidade”, in Percurso, Vol. 19, p. 49-56, 1998.


Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).


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