MAL-ESTAR NA IDENTIFICAÇÃO

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in Boletim de Novidades da Livraria Pulsional, São Paulo, ano X, 93, 37-46, jan. 1997.


“Conheceram-me logo por quem não era e eu não desmenti, e perdi-me.” (1)


Introdução

O trabalho que venho desenvolvido nos últimos anos com transexuais(2), operados ou não, levou-me a interessar-me cada vez mais pelas relações entre o sexo anatômico do sujeito e a construção do sentimento de identidade sexual.

Sem dúvida, o transexualismo é a manifestação da sexualidade cuja compreensão representa maiores desafios teórico-clínico para a psicanálise.

Na origem do sofrimento psíquico do transexual se encontra o sentimento de uma total inadequação entre a anatomia do sujeito e seu sentimento de identidade sexual. Estas pessoas manifestam uma exigência compulsiva, imperativa e inflexível de “mudança de sexo”; como se elas, face a esta convicção de incompatibilidade entre aquilo que são anatomicamente e aquilo que se sentem ser, se encontrassem num corpo disforme, doente e monstruoso. Um tal sentimento pode chegar ao ponto de levar o sujeito à auto-emasculação e até mesmo ao suicídio.

Na tentativa de elucidar como o transexual constrói um sentimento de identidade sexual em desacordo com seu sexo anatômico, ou seja, de precisar as relações entre o corpo anátomo-biológico e a identidade sexual, a primeira questão que se impôs foi a de apreender por quais mecanismos a criança se dá conta que ela é menino ou menina. Como o corpo com o qual o bebê vem ao mundo tornar-se-à corpo sexuado? As características anátomo-biológicas bastam para que um sujeito se “sinta” homem ou mulher? Ou, para colocar a questão de uma forma provocativa, de onde vem “convicção delirante” que consiste em acreditar que se é do sexo anatômico que se tem? Ou seja, como se dá a passagem das identificações à identidade?

O que leva uma criança a dizer que ela é menino ou menina, é a consolidação de uma crença. Essa última começa pela designação do sexo, e do gênero, do recém-nascido, feita pela pessoa que presenciou o nascimento e, mais tarde, pela inscrição no Cartório Civil. Uma tal designação se baseia, tradicionalmente, nos dados anatômicos do bebê. Em seguida, este último começará a ser tratado de acordo com os atributos do gênero que lhe foi designado. É nessa referência que lhe será dito – através de palavras, do discurso dos pais sobre a criança e para com a criança, discurso este baseado nos desejos dos pais, nos fantasmas e crenças desses últimos, pelos presentes que serão dados ao recém-nascido, pelo lugar que ele ocupa na família e na sociedade, etc – que ele é um menino ou uma menina. Tal crença, lhe será confirmada durante toda sua vida pelo seu corpo, pela sua psicossexualidade assim que pela opinião comum. Aos poucos, a criança será informada do lugar do qual ela deverá responder segundo o gênero ao qual ela pertence. (Quando isto não acontece, a inquietude dos pais é facilmente observável.) É inicialmente através dos pais e do grupo primário, que a criança vai adquirir os elementos de informação sobre o sistema simbólico relativo a sociedade na qual ela está inserida, assim como os códigos aos quais, como menina ou menino, ela deverá se submeter, códigos esses que lhes prescreverão o registro no interior do qual ela – a criança – deverá inserir seus comportamentos e condutas.

O peso das representações simbólicas na construção do sentimento de identidade, assim como a força do imaginário dos pais é amplamente confirmado no estudo dos chamados “estados intersexuais”(3). Tratam-se de crianças que, ao nascerem, apresentam uma má formação anatômica, ou uma formação ambígua, dos orgãos sexuais. Pode acontecer que o sexo que se atribui à criança (masculino/feminino), não corresponda ao seu verdadeiro sexo biológico (XY,ou XX). A criança é, então, criada com convicção e continuidade no sexo que lhe foi atribuído, e o sentimento de identidade sexual que ela construirá, concordará com o sexo de atribuição, e não com seu sexo biológico: em caso de conflito entre forças biológicas e forças psicológicas, são as últimas que ganham no que diz respeito a construção do sentimento de identidade sexual. Isto significa que, as características anátomo-biológicas não oferecem, em si mesmas, nenhuma base sólida para a categoria cultural do gênero.


O que é identidade?

Embora a noção de identidade não seja um conceito psicanalítico, este termo é frequentemente usado na clínica onde se fala de problemas de identidade, sentimento de identidade, perda de identidade, etc. Entretanto, toda tentativa de tratar a questão identitária trará consigo, invariavelmente, contradições e impasses e deverá necessariamente levar em conta a noção de identificação. Para a psicanálise, a noção de identidade é um tanto marginal pois ela só pode ser pensada de forma dinâmica por ser dependente dos processos identificatórios: por falta de identidade, o ser humano é “condenado” à identificação.

A identidade é o “resultado consciente” dos processos inconscientes de identificação e se traduz pelo fantasma de uma síntese pontual que o sujeito é obrigado a fazer quando ele diz “eu”. Ela é uma espécie de pano de fundo cuja base é formada pelos conteúdos do recalcado que dão, a cada sujeito, o sentimento de ser sempre a mesma pessoa. A identidade se estabelece a cada instante num movimento ao mesmo tempo particular e paradoxal que se repete continuamente. Ela repousa sobre uma linha imaginária demarcada pelos fantasmas que permitem ao sujeito de resolver o paradoxo entre aquilo que o assemelha e aquilo que o distingue. Referindo-se ao conjunto dos seres, a todos os “eus” ela é uma repetição pois sublinha a identidade dos termos; mas ela é também o que é único quando designa um conjunto particular de características que são, estas características, também identificadas pelo “eu”.

Assim, quando falamos de identidade sexual, só podemos falar de sentimento, o de pertencer ao gênero masculino ou ao gênero feminino, e jamais de certeza. Além disto, para falar de sentimento de identidade, devemos seguir os passos de Freud quando ele descreve o “sentimento oceânico”(4), ainda que este último não se confunda com o primeiro. Contudo, nos dois casos, estamos lidando com representações percebidas pelo Eu cujos conteúdos não podem ser objetivamente verificáveis por serem subordinados ao universo fantasmático: o sentimento de identidade sexual é intimamente ligado aos conteúdos do recalcado próprio a cada ser humano. O recalcado, que contém a singularidade da história de cada um, representa, neste sentido, a verdadeira identidade do sujeito, o que faz que cada ser humano seja único: é no recalcado que se encontra a história das escolhas de objeto, a das pulsões, a das vagabundagens da libido, assim como os caminhos do desejo em suas tentativas de realização alucinatória. Quando um sujeito evoca, sem hesitar, seu sentimento de identidade sexual, os recalcamentos presentes deste o início de sua vida, impedem o acesso aos cenários fantasmáticos que formam o alicerce daquilo que ele está nos comunicando. Enfim, tratar da questão identitária é tratar de variáveis tais como o complexo de Édipo, os avatares identificatórios, o inconsciente parental assim como o lugar que o sujeito ocupa na economia libidinal da família e do grupo ao qual ele pertence.

Nasce-se menino ou menina, ou torna-se menino ou menina?
As questões sobre a construção do sentimento de identidade sexual sempre provocaram os mais vivos debates da história da psicanálise. De fato, a maneira pela qual, à partir de Freud, cada corrente psicanalítica elabora seu referencial teórico diverge bastante se se considera que existe uma masculinidade, e uma feminilidade inata segundo a anatomia de cada um(5) ou se, ao contrário, a masculinidade, e a feminilidade, são adquiridas e isto independentemente do sexo anatômico.

Esta reflexão obriga-nos a enfrentar uma questão inevitável: as crianças reagem diferentemente ao complexo de castração porque elas já são meninos e meninas ou, ao contrário, é o complexo de castração que as diferencia? No primeiro caso, todos os avatares dos processos identificatórios, incluindo a questão edípica, a patologia, enfim a psicossexualidade, estão sujeitas ao constitucional, e a identificação ao genitor do mesmo sexo é o resultado de um desenvolvimento normal devido a diferença dos sexos: a anatomia é o destino. No segundo caso, embora a anatomia desempenhe um papel importante no desenrolar do complexo de castração, esta última não será jamais uma garantia, a priori , para a representação psíquica da diferenças dos sexos: deve-se primeiramente se “posicionar” como menino ou menina para, então, se identificar (identificações secundárias) ao pai ou a mãe. Em minha opinião, toda tentativa de conceituar a questão da diferença dos sexos à partir de um sujeito que já é, a priori, menino ou menina, à quem se acrescentaria uma masculinidade, ou uma feminilidade, corre o risco de invalidar todo esforço de Freud para separar o biológico do psicológico. Nesta perspectiva, é possível imaginar que, devido as variáveis que o sujeito deverá enfrentar na construção de sua psicossexualidade, a feminilidade, assim que a masculinidade, adquiriam uma certa independência em relação a anatomia do sujeito: feminilidade e masculinidade são duas representações do falus.

É neste ponto que a distinção sexo/gênero é muito útil, e a expressão “identidade de gênero” apresenta a vantagem de dissipar toda idéia de um possível predeterminismo identitário ligado aos caracteres sexuais anatômicos, que deixa entender a fórmula clássica de “identidade sexual”.

Se Freud não utiliza o termo “gênero” – em alemão uma só palavra designa sexo e gênero : Geschlecht – ele vai falar de uma classificação segundo o gênero que começa numa etapa anterior a castração. Bem cedo, segundo Freud, a criança é capaz de distinguir, “graças aos signos mais exteriores”, pai e mãe e se posicionar de um lado ou de outro.(6) Nesta etapa, a criança não faz a correspondência entre sexo e gênero: a apreensão dos gêneros se faz sem levar em conta o orgão sexual e não implica o pulsional; talvez por isto que não se encontre, em Freud, uma “teoria de gênero”. Por outro lado, a investigação sexual que levará ao reconhecimento da diferença dos sexos, é motivada “por pulsões egoístas”(7), que dizer, por uma fonte pulsional.(8)

Entretanto, a maneira que Freud usa os termos masculino e feminino pode se prestar a algumas confusões. Freud utiliza a distinção masculino/feminino tanto como sinônimo de homem/mulher(09), quanto para distinguir masculinidade/feminilidade, que é uma distinção bem mais complexa e que só será adquirida após a puberdade(10).

Distinguir pai e mãe se colocando de um lado ou de outro é, sem dúvida alguma, uma forma de identificação ainda que este termo não seja utilizado. Esta questão evoca uma das raras passagens em Freud onde ele fala de uma forma de identificação independente dos conflitos edipianos.(11) Uma identificação que “tem um importante papel na prehistória do complexo de Édipo” e cujo destino “se perde facilmente de vista em seguida”.

Essa mesma idéia, um tanto mais elaborada, é retomada dois anos mais tarde em “O Ego e o Id” quando Freud fala da identificação primária(12). Numa nota de rodapé nesta mesma página ele acrescenta que seria mais prudente falar de identificações com os pais: “antes de uma criança ter chegado do conhecimento definitivo da diferença entre os sexos, a falta de um pênis, ela não faz distinção de valor entre pai e mãe”.

Embora a noção de identificação primária tenha sido interpretada de várias maneiras, ela continua sendo reconhecida como o momento fundador da constituição do sujeito. Entretanto, não se pode separar a constituição do sujeito das produções do inconsciente dos pais. Assim, a “identificação primária” trará com ela, potencialmente, os elementos que permitirão a criança de se posicionar do lado dos meninos, ou das meninas. Esta tomada de posição será reforçada pelas identificações oriundas das escolhas de objeto – identificações secundárias – responsáveis pelas relações que o sujeito estabelecerá com a masculinidade e a feminilidade.

Temos aqui duas modalidades identificatórias cuja distinção fará emergir duas problemáticas que frequentemente se superpõem, mais que devem ser tratadas separadamente: de um lado, o sentimento imutável que se estabelece bem cedo e que constitui o núcleo mesmo da identidade de gênero.(13) Tal sentimento se traduz por: “Eu sou menino” ou “eu sou menina”. Do outro lado, o sentimento que se traduz por “eu sou masculino” ou “eu sou feminina”, que se refere a masculinidade e a feminilidade, resultado dos investimentos num corpo suporte de fantasmas marcando assim suas funções e seus desejos. A construção desse sentimento, bastante complexo e sutil, é dependente da situação edipiana cuja dinâmica só se completará na adolescência.

É nessa perspectiva que se deve distinguir o gênero no qual o sujeito se situa e sua “orientação sexual”: a escolha de objeto heterossexual ou homossexual (identificações secundárias) não tem nada a ver com o fato de se sentir homem ou mulher. A partir daí, pode-se compreender, por exemplo, o desejo, e ao mesmo tempo a angústia, que um menino pode sentir frente ao desejo de ter um bebê, de possuir seios, enfim, de se identificar às prerrogativas femininas, sem que isto signifique que ele se estime uma menina.(14) Da mesma forma, algumas crises pelas quais passam alguns adolescentes quanto a sua orientação sexual, não põem em dúvida a identidade de sexual do sujeito. (A situação seria completamente diferente se, na adolescência, o sujeito duvidasse se ele é um homem ou uma mulher.)

Um sujeito pode hesitar, devido à resolução do complexo de Édipo, entre o desejo de penetrar sua mãe, ou de ser penetrado pelo seu pai, sem se colocar a questão se será como homem que ele será penetrado por um homem ou que ele penetrará uma mulher. O travesti, ainda que ele possa ter a ilusão de que usando roupas de mulher ele ficará muito feminino, sabe muito bem que ele é um homem. Quando ao transexual M->H (mulher->homem), ele se sente homem, e é como homem que ele sente atração por uma mulher.

Antes de apresentar um caso clínico para ilustrar minhas hipóteses, cabe lembrar que os processos de identificação, cujo mecanismo de base é a introjeção, se dão pela interiorização dos objetos do mundo exterior, que se opera em um vai-e-vem entre o modo narcísico e o objetal.(15) Evidentemente, a identificação não se limita apenas a objetos e a imagens idealizadas: ela atinge também aquilo que a censura familiar acredita poder manter em silêncio. Por um “misterioso” processo de comunicação entre inconscientes, são transmitidos os elementos recalcados da fantasmática familiar: os segredos de família, as histórias indizíveis de incesto, de suicídio, de crimes, enfim, tudo aquilo que não pode, sob pretexto algum, passar à posteridade. Entretanto, estes segredos recalcados, verdadeiro “capital transgeneracional”, podem retornar, sob formas de sintomas, de delírios, de somatizações variadas, para assombrar toda uma descendência que se encontra, às vezes, a várias gerações de distância: é neste sentido que o sujeito pode representar o sintoma de uma construção dos pais.

Pode então acontecer que para se constituir como sujeito, a criança deverá seguir referências identificatórios precisas e rígidas que o levarão a ocupar um lugar na economia libidinal da família em ressonância com uma problemática transgeneracional.(16)


Caso Clínico

Nada na aparência de Mark, este “jovem” de 27 anos, fazia lembrar a jovem que ele tinha sido. Sua voz, sua maneira de assentar-se, seus gestos, eram os de um homem de sua idade. Oriundo de uma vila às margens do mar no norte de Inglaterra, Mark sempre se sentiu, desde a mais tenra infância, um menino. Ele se dava muito bem com os outros meninos de sua região e sempre foi aceito por eles. Por outro lado, Mark sempre se sentiu muito pouco à vontade como menina e em companhia de meninas e, cedo, começou a considerá-las como “do sexo oposto”. Segundo Mark, é como homem que ele sente atração pelas mulheres: ele recusa peremptoriamente a idéia de ser considerado homossexual. No período da adolescência, ele atravessou os problemas clássicos dos transexuais M->H quando as mudanças típicas da puberdade começaram.

O transexualismo de Mark foi logo percebido pela família. Passado o primeiro impacto, seus pais teriam, segundo ele, se adaptado razoavelmente bem a situação e, quando chegou a hora, ajudaram-lhe no seu projeto de mudar de sexo.

Segundo Mark, seus pais, mas em particular o pai, sempre o tratou como um filho, encorajando-o a fazer “coisas de menino”: jogar futebol, atividades que requerem força física… Mark diz que nunca se sentiu obrigado, de fato, a não usar roupas de meninos, coisa que ele começou a fazer bem cedo. Da mesma forma, seus pais passaram, sem a menor hesitação, a lhe dar brinquedos de meninos logo que perceberam que Mark os preferia.

Filho único, Mark sempre ouviu seus pais dizerem a que ponto eles ficaram decepcionados quando ele nasceu pois queriam um menino. Ele e seu pai desde cedo foram excelentes amigos “ligados por uma profunda amizade”, e Mark o acompanhava por toda parte, ajudando-o sempre no seu trabalho. Quando veio me ver, ele trabalhava com seu pai num barco de transporte de carga. Na ocasião, ele estava acabando de completar a séria de intervenções cirúrgicas de correção sexual, as quais começara aos 19 anos.

Mark descreve sua mãe como uma pessoa muito depressiva, alguem que nunca cuidou da própria aparência. Ele não guarda nenhuma lembrança dela como uma mulher bem arrumada, penteada, maquiada, enfim, como alguém que se sentia bem como mulher. Segundo Mark, sua mãe sempre lamentou o fato de ser mulher e dizia ter tido uma infância muito triste pois na casa dela “só os meninos tinham direito as coisas. Ah, como eu gostaria de ser homem!” As relações de Mark com sua mãe sempre foram muito difíceis e tensas. Nestes momentos, Mark se dirigia ao pai que sempre o compreendia. Segundo Mark, sua mãe o rejeitava profundamente, e nunca ligou para ele pois ele era uma menina. De sua parte, Mark também a desprezava, a rejeitava e nunca tentou de fato nenhuma forma de relação com ela.


Discussão

A importância da mãe nas fantasias de sedução na pré-história pré-edipiana da menina é bem conhecida: é a mãe quem desperta, através dos cuidados corporais, as sensações de prazer nos orgãos genitais.(17) Mas para que estes orgãos sejam investidos como fonte de prazer, é necessário que a mãe indique à criança que ela também possui um corpo; que este corpo, tal como ele é e com os orgãos que possui, é um corpo desejado e que lhe dá prazer: só assim a criança do sexo feminino poderá tomar a mãe, e tudo aquilo que ela representa como figura feminina, como objeto identificatório. A mãe de Mark, não se aceitando como mulher – o que sugere uma profunda problemática identitária ligada à não integração de pulsões homossexuais – não permitiu que Mark se identificasse a ela, e através dela, às prerrogativas femininas. Desde o início de sua vida, toda possibilidade de identificar-se com as representações simbólicas, assim como aos significantes preverbais, relativos ao seu sexo anatômico lhe foi vedada pois esse acesso estava bloqueado pelos conflitos identificatórios de sua mãe. Consequentemente, Mark não pode construir seu núcleo de identidade de gênero, ou seja o sentimento “eu sou menina”, em acordo seu sexo anatômico.

Não tendo seu corpo investido por sua mãe, Mark retirou todo seu investimento narcísico das prerrogativas femininas, transferindo-o para seu pai afim de ser narcisicamente reconhecido. O lugar privilegiado da figura masculina – a mãe de Mark sempre quis ser um homem – só veio reforçar a identificação à seu pai – “eu sou um homem” – e mais tarde as representações simbólicas e as prerrogativas masculinas – “eu sou masculino”. Essas são, talvez, as referências para a construção de uma psicossexualidade em desacordo com a anatomia e, ao mesmo tempo, as bases para a futura demanda de intervenção cirúrgica.

Provavelmente, desde o momento que a mãe de Mark soube que estava grávida, talvez mesmo antes, a criança que viria ao mundo já tinha um lugar reservado, na economia libidinal da família, para reparar as feridas narcísicas sempre presentes no inconsciente dos pais(18) : no imaginário dos pais Mark estava “destinado” a ser um menino. Dentro desta perspectiva, percebe-se que, de certa forma, os pais de Mark impediram-lhe o acesso as representações identificatórias referentes ao seu sexo anatômico. Por exemplo, as reações dos pais face aos primeiros travestimentos de Mark, sempre mostraram uma conivência apesar dos protestos aparentes, conivência essa que traduz uma cumplicidade subjacente e inconsciente sobre a qual Mark pôde sempre se apoiar, e se apoiará sempre, para manter o lugar que lhe foi originalmente designado.


Conclusão

Se o sentimento de identidade sexual é dependente dos efeitos do inconsciente, a posição do sujeito quanto ao fato de poder dizer, com relativa segurança, que ele é um homem ou uma mulher, está em relação direta com a questão da atribuição fálica, e é independente da anatomia: de um lado temos o real da anatomia e, de outro lado, a elaboração psíquica feita à partir desse real, cujo resultado será justamente o sentimento de identidade sexual.

Enraigada desde suas origens numa cartografia imaginária, a busca identitária não é uma tarefa simples. Na ausência de predeterminação biológica e na impossibilidade da pulsão em encontrar o objeto de seu desejo, a noção de “identidade”, no sentido de uma certeza, pertence ao domínio do fantasma e a possibilidade que exista uma inadequação entre a anatomia e identidade sexual do sujeito é concebível, produzindo os mais diversos discursos.Os “arranjos” pulsionais do transexual podem nos impressionar por seu radicalismo. Mas sua especificidade mostra a particularidade de seu trajeto identificatório. Destinado a ocupar um lugar na economia libidinal da família em eco com uma problemática transgeneracional a qual, por assim dizer, determina a sexuação de seu corpo e em seguida sua identidade sexual, o transexual não tem outra saída a não ser ocupar esse lugar para existir psiquicamente. Ele responde inconscientemente ao que se espera dele. Aqui as palavras citadas por Freud(19) no fim do “Esboço de psicanálise” ganham todo seu valor: “Was Du ererbt von Deinen Vätern hast, Erwirb es, um es zu besitzen.” Ou seja:”Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu” Ou, numa tradução mais libre : “Pegue sua herança e faça dela algo seu.”

Notas Bibliográficas

1 – PESSOA, F., “Tabacaria”, in Obra Poética, Rio de Janeiro, Aguilar Editora, 1965, 365.
2 – CECCARELLI, Paulo Roberto, “A formação do sentimento de identidade sexual no transsexual”, tese de ” Doctorat de psychanalyse”, Paris VII, 1995.
3 – KREISLER, L., “Les intersexuels avec ambiguïté génitale”, in Psychiatrie de l’enfant, 13, 1, 1970.
4 – FREUD, S., (1930) “Mal-estar na Civilização”, Edição Standard brasileira, Imago, 1974, XXI, 81.
5 – Por exemplo, Melanie Klein : quando ela defende a existência de uma “feminilidade primária”, a referência ao anatômico continua, correndo o risco travestir o verdadeiro debate – o que faz a diferença dos sexos? – para tentar explicar quais seriam as características específicas de cada sexo.Cf. KLEIN, M., “The effects of early anxiety-situations on the sexual development of the girl”, in The psycho-analysis of children, London, Hogarth Press, 1959, 268-325.
6 – FREUD, S., (1908), “Sobre as teorias sexuais das crianças”, Edição Standard brasileira, Imago, 1976, IX, 215.
7 – Ibid.
8 – É verdade, como observam Roiphe e Galeson, que meninos e meninas reagem diferentemente à tomada de consciência da diferença entre os sexos. Mas não se pode esquecer que as observações desses autores se baseiam em crianças cujos pais não hesitaram quando da designação do sexo da crianaças. Assim, as diferentes reações entre meninas e meninos se produzem em crianças cujo sentimento de pertencer a um ou a outro sexo já está bem definido. Cf. ROIPHE, H., GALENSON, E., “La naissance de l’identité sexuelle”, P.U.F., 1987.
9 – FREUD, S,. (1933), “Feminilidade”, in Novas conferências introdutórias sobre Psicanálise, Edição Standard brasileira, Imago, 1976, XXII, 140.
10 – FREUD, S., (1905) “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Edição Standard brasileira, Imago,1972, VII, 204.e FREUD, S., (1923) “A organização genital inf Edição Standard brasileira, Imago, 1976, XIX,184.
11 – FREUD, S., (1921), “Psicologia de grupo e a análise do Ego”, Edição Standard brasileira, Imago,1976, XVII, 133 e seg.
12 – “… uma identificação direta e imediata, e se efetua mais primitivamente do que qualquer catexia do objeto”. Cf. FREUD, S., (1923), “O Ego e o Id” , Edição Standard brasileira, Imago,1976, XIX, 45.
13 – Stoller propõe que se distinga entre “núcleo da identidade de gênero” – sou um menino, sou uma menina – e “identidade de gênero – sou viril, sou feminina. STOLLER, R., “Recherche sur l’identité sexuelle”, Paris, Gallimard, 1978, 61.
14 – É neste sentido que se pode interpretar algumas passagens do Petit Hans, como o diálogo entre Hans e seu pai. – Cf. FREUD, S., (1909), “Análise de uma fobia em um menino de cinco anos”, 1976, X, 95 – ou ainda mais gritante, quando Hans responde à pergunta de seu pai a respeito de “seus filhos” : “Por quê? Porque eu gostaria tanto de ter filhos; mas eu nunca quero; eu não deveria gostar de tê-los.” Ibid., p. 101.
15 – FERENCZIi, S., (1912), “Le concept d’introjection”, Œuvres Complètes, Tome 1, Paris, Payot, 196.
16 – CECCARELLI, P. R., ., “Le transsexualisme : Nature ou contre-nature?”, in Topique, 55, 1994.
17 – FREUD, S., (1933) “Feminilidade”, Op. cit., 149.
18 – FREUD, S., (1914) “Sobre o narcisismo: uma introdução” , Edição Standard brasileira, Imago,1974, XIV.
19 – FREUD, S., (1938), “Esboço de psicanálise”, Edição Standard brasileira, Imago, 1975, XXIII, 237.

Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).


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