MANIFESTO PSICANALÍTICO

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no site dos Estados Gerais da Psicanálise de São Paulo

Nossos encontros de sábado têm tido uma aderência cada vez maior de pessoas interessadas em participar dos debates sobre os Estados Gerais da Psicanálise. O que chama a atenção é que, se a proposição primeira era de se falar da possível participação dos brasileiros no “Grand Débat” do ano 2OOO, o que temos de fato discutido, refere-se aos Estados Gerais da Psicanálise NO BRASIL, mesmo se isto ainda não tenha sido dito com todas as letras: aos poucos vem se delineando esta outra dimensão da questão que encontrou, neste espaço, possibilidade de cidadania.

Porque não levarmos isto mais a sério? Quem sabe poderíamos pensar em um encontro nacional onde participariam todas as pessoas que trabalham e se interessam por este tema? Esta poderia ser uma forma interessante de posicionarmo-nos para, eventualmente, fazermos uma intervenção em Paris no novo Século. Ademais, seria também uma tomada de posição no (e do) Brasil que explicitaria muito do que temos debatido sobre à “colonização psicanalítica” à qual, e esta parece ser a opinião geral, estamos subjugados.

Falou-se da posição do Melman, e de outros tantos, ao preconizarem sobre o destino – “Um destino tão funesto” – dos países colonizados; como se não houvesse nada da fazer sobre isto: uma vez colônia, sempre colônia; falou-se também da função paterna, ou de sua falta; do jeitinho brasileiro; da “produção” no Brasil, vista de maneira pejorativa quando esta é relacionada à música, etc, etc…

Ora, mas do que estamos falando aqui senão da transferência e, como tal, de uma relação imaginária? Existiria um “fim” para este processo ao mesmo título que se fala em fim de análise? Pensar nos Estados Gerais da Psicanálise no Brasil seria um começo para compreender-se, e quem sabe até mesmo reverter, este quadro. Fica a proposta para ser discutida no nosso próximo encontro.


Caros colegas,

Como prometido, envio-lhes o tema que me interessaria aprofundar dentro dos Estados Gerais da Psicanálise.

Dentro os assuntos das rodas de discussão dos psicanalistas, o tema da “crise da psicanálise” tem tido um lugar privilegiado. Geralmente, esta questão é debatida “por fora”, ou seja, fala-se da debandada dos consultórios, da ascendência da neuro-ciências e da neuro-farmacologia, etc, etc…

De minha parte gostaria, ao contrário, de debatê-la “por dentro”. Vários seriam os caminhos. O que me interessa particularmente passa pela questão da perversão no setting analítico e na instituição psicanalítica. Apenas para indicar a direção: a partir das colocações de Freud em “Psicologia de Grupo e análise do eu” sobre o laço libidinal que une os membros do grupo entre si e ao líder, pode-se pensar sobre os efeitos perversos da, e na, transferência.

Transferência aqui, não apenas na situação clínica – no divã – mas também na instituição. Esta última, apoiada na transferência, pode “utilizar” (perversamente) elementos recalcados da sexualidade infantil, sempre presente em todos nós, para manter a via da satisfação em direção a um outro – líder, tirano, mestre, teoria que se transforma em dogma – sempre aberta. Ou seja, meu interesse é o de debater a força da transferência e os efeitos hipnóticos perversos que as identificações aos ideais podem provocar.

Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).


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