POTENCIALIDADES DE PERVERSÃO

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in Boletim de Novidades da Livraria Pulsional, São Paulo, ano XI, 113, 79-82, set. 1998.

É comum acontecer que um ato, uma palavra, uma iniciativa, tenha um resultado oposto ao desejado: visava-se um determinado objetivo; entretanto tal objetivo foi subvertido por aqueles a quem a palavra, o ato, a iniciativa foi dirigido. O princípio segundo o qual não se deve mentir pode acarretar um mal maior do que o efeito da mentira.

Daí a questão: deve-se mentir quando dizer a verdade pode levar aqueles, a quem esta verdade é dirigida, a um estado de angústia e desespero capazes de provocar atos perigosos contra si próprio e contra outros?

Mais ainda: a boa intenção e a convicção interior contrabalançam os efeitos perversos não esperados da ação original? Tais perguntas evocam uma antiga questão ética: é-se responsável pelos efeitos secundários que não se desejou?
O trágico da existência nos remete ao sentido primeiro e geral da perversão: desvio, derrapagem, do bem em mal, cujo paradigma é a Criação: o ato criador é bom mas o criado, não sendo Deus, implica a possibilidade do mal .

Perversão da Sexualidade

Perversão, do latim perversio, define a “ação de perverter”, “transformar em mal”, “depravação”, “corrupção”; perversão dos costumes, do gosto artístico… Fala-se de ato perverso, de conselho perverso, máquina perversa, etc.

Psicologicamente, a perversão define um desvio de tendências devido a problemas psíquicos. Na esfera do sexual, o substantivo se aplica para qualificar alguns atos: na medida em que uma finalidade é dada à sexualidade humana, toda pratica sexual que desvia desta finalidade é dita perversa.

Na base deste julgamento encontra-se a noção de uma sexualidade normal, segundo a natureza, cujo desvio, a depravação (pravus) é definido como “contra a natureza”. Um tal discurso se baseia na concepção teológica de uma Natureza (physis), herdeira do pensamento grego, em particular de Aristóteles. Sustenta-se que existem inclinações naturais nas coisas, e que tudo que é natural apraza a Deus, logo é bom. É nesta perspectiva que São Tomas de Aquino qualifica certas práticas sexuais como “contra a natureza” alegando uma natureza comum aos homens e aos animais. Assim, toda vez que a sexualidade desvia da finalidade primeira que a referência animal nos mostra – união de dois orgãos sexuais diferentes para a preservação da espécie – estamos diante de uma perversão: pedofilia, necrofilia, masturbação, heterossexualismo separado da procriação, homossexualismo, sodomia…
Este discurso teológico leva a certas ações jurídicas destinadas a reprimir todo ato perverso. É assim que determinados atos ditos “contra a natureza”, logo violentos pois são considerados um atentado ao pudor ou à opinião pública, acarretam severas sanções.

No século XIX nasce o discurso psiquiátrico que, à sua maneira, retoma a definição de perversão em função de uma finalidade natural e universal, dando uma continuidade às posições teológicas e jurídicas: o que é penal passa a ser da ordem médica. Algumas práticas sexuais são então qualificadas de “patológicas”, o que faz surgir novas formas de perversões onde o outro é usado para obtenção de prazer e, mais uma vez, a finalidade natural é subvertida. Voierismo, exibicionismo, sadismo, masoquismo, vêm juntar-se à infindável nosografia psiquiátrica da época.
A ruptura psicanalítica

É no ambiente moralista da Viena do principio do século que Sigmund Freud lança, em 19O5, um ensaio de 4O páginas que constitui, na época, apenas mais uma publicação dentre muitas outras. Os Três ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, fez de Freud uma figura extremamente impopular. Freud recebe insultos e injúrias; é taxado de imoral, obsceno e não é mais cumprimentado na rua.

Enquanto seus predecessores se empenharam minuciosamente em classificar, etiquetar, enfim, a traçar o inventário das perversões sexuais, Freud realiza uma virada fundamental e profundamente inovadora. A contribuição de Freud para a compreensão da perversões não vem do tipo de material clínico observado, mas da afirmação escandalosa de que as tendências perversas catalogadas pelos seus colegas como aberrações humanas assombram o espíritos de todos os homens, inclusive daqueles que as catalogaram estando também presentes nas crianças: “a criança é um perverso polimorfo”.

Freud afirma que o inconsciente dos homens é animado pelos desejos que os perversos põem em cena. Na perversão, as pulsões inconscientes aparecem “a céu aberto”; no neurótico as pulsões agem na clandestinidade, disfarçadas de várias maneiras, através dos sintomas: “a neurose é o negativo da perversão”. As perversões sexuais deixam então de ser uma prática que só eles – os perversos – exibem e passam a ser entendidas como algo presente, ainda que no inconsciente, em todos os seres humanos. Como diz Hamlet no final do segundo ato: “a se tratar cada homem segundo seu merecimento, quem escapará do açoite?”

A tudo isto acrescenta-se um outro escândalo que contraria a visão que a biologia, a moral, a religião e a opinião popular têm da natureza da sexualidade: o objetivo da sexualidade humana não é a procriação; ela escapa à ordem da natureza, agindo a serviço próprio: ela é contra a natureza.

A visão freudiana da pulsão sexual diversificada, anárquica, plural e parcial – oral, anal, escopofílica, vocal, sádica, masoquista e tantas outras roupagens que ela pode tomar – abre uma nova dimensão para se pensar a perversão que ultrapassa as fronteiras da sexualidade genital.

É assim que certas posturas teóricas que se reivindicam detentoras da Verdade e cuja preocupação central é de encaixar o sujeito numa categoria de diagnóstico, as práticas clínicas daí advindas com conseqüências por vezes catastróficas na relação transferencial, determinadas atitudes dos discípulos de seitas psicanalíticas que traduzem um embotamento de qualquer atividade crítica e outros tantos fatos de observação cotidiana, tudo isto conforta a idéia dos efeitos hipnóticos perversos que as identificações aos ideais podem provocar.

Gostaria de centrar o debate em um dos espaços onde as potencialidades de perversão podem ser observadas de forma privilegiada: a televisão. Como já foi dito, as pulsões constituem os elementos de base do psiquismo humano. Estes elementos recalcados, sempre prontos a fazerem irrupções brutais nos mais variados lugares para a obtenção de prazer imediato e ao menor preço possível, utilizam-se de representações oferecidas pelo mundo externo na busca de descarga que produza satisfação.
Os efeitos perversos de televisão

Existe no imaginário popular uma tendência a circunscrever a perversão unicamente ao sexual. Tal posição, reducionista e perigosa, reflete um moralismo que insiste em discutir problemas de alcova, deixando fora do debate as verdadeiras questões éticas. É assim, por exemplo, que muitos se chocam com cenas de sexo na televisão, mas toleram com naturalidade constrangedora situações onde a violência, que podem incluir o estupro, e o desrespeito ao outro (mulheres, crianças, minorias) são exibidas de forma perversa.

No caso de crianças o efeito desta situação é particularmente preocupante. Sabemos da importância dos pais na estruturação do mundo interno destas últimas. Na constituição da psicossexualidade, os investimentos libidinais, que traduzem movimentos pulsionais, se dirigem aos genitores. Ora, quando estes não servem de suporte identificatório a criança buscará modelos fora do âmbito familiar. Igualmente, para construir seu sistema de valor ético-moral a criança pode tomar, quando faltam-lhe referências no ambiente onde está inserida, aquilo que a televisão mostra como coordenadas de base.

Cenas que evocam violência, agressividade, aquelas que sugerem relações baseadas na desconfiança, na falta de solidariedade e outras tantas, podem incentivar comportamentos e propor “valores éticos” divergentes daqueles necessários para a construção de uma estrutura social calcada no respeito e no direito do cidadão.

Quanto aos adolescentes, a situação tampouco é simples: estes buscam modelos externos durante o período de separação e luto dos modelos familiares. Um exemplo das múltiplas derrapagens é o recurso à droga – ou à violência, à uma sexualidade compulsiva etc. Aqueles carentes de referências encontram nestes expedientes respostas lá onde os pais, e em seguida a sociedade, nada lhes propõem, “assegurando” ao sujeito a ilusão de pertencer a um grupo e propiciando-lhes, ao mesmo tempo, uma defesa contra o perigo de se entrar em contato com representações inconscientes, cujos conteúdos são potencialmente depressivos.

Alguns movimentos anti-sociais dos adolescentes traduzem bem esta configuração. Em ambos os casos – crianças e adolescentes – quando o mundo interno se encontra mal estruturado e pobre em imagos identificatórias, a televisão pode oferecer “soluções” a conflitos internos.

Mas os adultos não estão ao abrigo do retorno de elementos da sexualidade infantil: a atração que produzem determinados programas reatualizam complexos inconscientes. A televisão passa a ser então uma válvula de escape para moções pulsionais recalcadas: é o caso de alguns programas, filmes, ou barbaridades descritas pelos jornais e revistas, às quais assistimos, ou lemos, num misto de horror e fascínio.

Toda leitura do mundo que se defina como única e verdadeira produz necessariamente uma perversão pois representa apenas uma das possíveis traduções do real. Muitas vezes a realidade criada pela televisão, seja na publicidade ou nos programas, pode exibir, ainda que camuflada, um grau de perversão altamente sofisticado na medida em que, seguindo normas rígidas do mercado em acordo com interesses econômicos dos patrocinadores propõe, sobretudo às crianças e aos adolescentes, referências de comportamento e de consumo por vezes em completa contradição com suas realidades sócio-econômicas.

As potencialidades de perversão são inúmeras e certas programações da televisão podem ser altamente nefastas para a sociedade mesmo quando a intensão inicial não foi perversa. Trata-se, então, menos de saber se determinada cena mostrada na TV é EM SI perversa mas antes, em que circunstância, em que contexto, tal cena pode produzir efeitos perversos.

Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).


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