SEXO, ETERNO ENIGMA

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Entrevista concedida à Revista Troppo, do Jornal “O Liberal”, de Belém do Pará – http://www.oliberal.com.br/troppo/entrevista.html

Texto: Ronald Junqueiro
Fotos: Flavya Mutran

O homem vive dramas profundos de identidade, a mulher se depara com novas formas de se expressar no papel feminino e a sociedade se escandaliza e reage chocada ao descobrir o que é classificado como perversão sexual. Todos esses são temas presentes na história do cotidiano e, mesmo com a “liberação” da prática sexual que encontra facilidades no mapeamento das cidades grandes, onde as pessoas sabem onde comprar drogas e onde encontrar garotos e garotas de programa para uma noite de prazer, há tabus que permanecem e que jogam os homens ao fundo do poço dos conflitos quando sexo é tema de discussão. Problemas como esses foram debatidos pelo psicólogo, psicanalista e doutor em Psicologia Fundamental pela Universidade de Paris VII, Paulo Roberto Ceccarelli, no curso de mestrado organizado pelo Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Pará e em entrevista à Troppo.

Que mudanças marcam as manifestações da sexualidade, hoje, no que diz respeito a categorias identitárias?

É preciso voltar um pouco no tempo para falar de mudanças ao abordar a sexualidade. Tudo começou em meados do século passado quando, numa tentativa de retirar do domínio jurídico certas manifestações da sexualidade ditas perversas, e transferi-las para a ordem médica a fim de que fossem “tratadas”, os sujeitos passaram a ser identificados por suas práticas sexuais. Por exemplo, no século passado, o sodomita era aquele que praticava atos jurídicos proibidos; a partir da segunda metade do século XIX, temos o homossexual que é “transformado” em um personagem, do qual se tenta precisar um passado, uma história e uma infância, enfim, uma morfologia: nada de seu todo escapa à sexualidade… “O homossexual transforma-se numa espécie”. Estão aqui lançadas, as bases para aquilo que em nosso século será acentuado: os comportamentos sexuais são transformados em identidades sexuais. Quanto às mudanças, se houve mudanças, acho que devem ser entendidas muito mais no campo da globalização, das “demandas” do capitalismo, do que em verdadeiras mudanças de posições e preconceitos. Ou seja, quando uma determinada classe social passa a representar um potencial de consumo, quando detêm o poder, passa a ser “aceita”.

Cada sujeito, então, faz sua criação particular?

Você atribui isso ao que chama de sobrevivência psíquica. Essa reflexão tem a ver com a questão anterior. Trata-se do absurdo de se tentar reduzir o sujeito à sua prática sexual. No entanto, cada sujeito tem que lidar, a partir de seu nascimento, com a particularidade do contexto sócio-familiar que é único para cada um. Esses são os elementos dados a cada um de nós para nos constituirmos como sujeito. Nessa perspectiva, se não nos tornamos psicóticos, se “sobrevivemos” psiquicamente, cada forma de sexualidade que cada ser humano apresenta – por mais que, aparentemente esta sexualidade se encaixe, ou não, na “norma” ditada pelos costumes da sociedade na qual ele está inserido – é uma criação única, para certos autores uma obra de arte. Entretanto, o porquê de tal forma de sexualidade é que pode ser explicada pelo mito que cada um de nós constrói: “sou assim porque mamãe fez isto ou aquilo; por que meu pai… etc, etc. Neste sentido, o sujeito cria uma ficção para construir sua autobiografia, pois nunca se tem acesso como, de fato, as coisas aconteceram.

O discurso é o que limita a prática sexual do sujeito?

Acho que esta questão está definida na primeira pergunta. O discurso limita, sim, o sujeito à sua prática sexual. Por exemplo: para muitos, é mais chocante descobrir que determinado sujeito, que até então tem tido uma conduta ético-social acima de qualquer suspeita, apresenta práticas sexuais ditas desviantes, do que descobrir que este mesmo sujeito cuja prática sexual enquadra-se no que dita a norma, é um perverso em outras esferas da vida social. No entanto, a forma como o sujeito vive sua sexualidade, não constitui nenhuma garantia de normalidade sob outros aspectos. Assim, é comum ouvir-se dizer: “fulano de tal é sádico”, “aquele outro fetichista”, “descobriu-se que aquele sujeito tão correto, honesto e trabalhador, casado e pai de três filhos, tinha práticas sadomasoquistas com uma prostituta!”, e assim por diante, esquecendo-se que o sujeito vai além disso, e que limitá-lo à sua prática sexual é uma atitude perversa.

Que tabus foram derrubados se sexo e sexualidade ainda são assuntos de difícil abordagem nas discussões entre pais e filhos?
O grande problema é que se as práticas sexuais hoje estão bem mais “liberadas”, a sexualidade continua sendo um eterno problema. Basta ver a ineficácia das companhas do uso do preservativo e da gravidez na adolescência: “falar de sexo”, e isto em qualquer nível que se queira abordar a questão, tem necessariamente que levar em conta a dimensão fantasmática da sexualidade; a informação objetiva pouco altera os aspectos afetivos do problema.
Que tipos de conflitos dos papéis sexuais estão mais evidentes hoje a partir da sua experiência como analista? A questão da sexualidade continua levando muita gente ao divã?

Sexualidade tem, é importante lembrar, que ser entendida no sentido amplo. Ou seja, não apenas a sexualidade genital. Em psicanálise, sexualidade é tudo que dá prazer: comer, dormir, as necessidades fisiológicas, etc. Nessa perspectiva mais ampla, a sexualidade continua, e continuará sempre, a levar as pessoas ao divã. Mesmo antes da psicanálise, tínhamos os confessionários que faziam este papel. A partir da primeira metade deste século, e mais tarde graças aos movimentos feministas, os papéis sociais, que são culturalmente determinados sem nenhuma âncora na realidade anátomo-fisiológica, têm sido reavaliados. Apenas um exemplo: hoje a mulher pode engravidar sem a participação do homem. Isto tem trazido grandes mudanças que são, necessariamente, acompanhadas de conflitos: o novo é ameaçador.

Nesse rol de conflitos, a bissexualidade é um tema recorrente ao conceito de perversão e muito presente até no papo de mesa de bar. Qual a contribuição de Freud para rediscutir a perversão sexual?

Em 1915, Freud escreve:”Do ponto de vista da psicanálise, o interesse sexual exclusivo por homens ou por mulheres também constitui um problema que precisa ser elucidado, pois não é fato evidente em si mesmo”. De fato, na origem somos todos bissexuais. Mas uma tal afirmação deve ser bem entendida: não somos todos bi por que nascemos assim. No começo, no período da constituição do psiquismo, nos identificamos com as referências simbólicas do masculino e do feminino. A monossexualidade, o sentir-se homem ou mulher – o que nada tem a ver com a chamada “escolha” de objeto – é talvez a maior ferida narcísica que o ser humano tem a enfrentar.

Freud provocou uma reviravolta nos debates sobre as perversões sexuais. O problema vai ser discutido para além do novo milênio…

Enquanto seus predecessores se empenharam em classificar, etiquetar, a traçar um inventário das perversões sexuais, Freud realizou uma virada fundamental e profundamente inovadora. A contribuição de Freud para a compreensão das perversões não vem do tipo de material clínico observado, mas da afirmação escandalosa de que as tendências perversas catalogadas pelos seus colegas como aberrações humanas assombram o espírito de todos os homens, inclusive daqueles que as catalogaram, estando também presente nas crianças: “a criança é um perverso polimorfo”. A visão freudiana da pulsão sexual diversificada, anárquica, plural e parcial – oral, anal, vocal, sádica, masoquista e tantas outras roupagens que ela pode tomar – abre uma nova dimensão para se pensar a perversão que ultrapassa as fronteiras da sexualidade genital.

Que tipo de crise está enfrentando o homem contemporâneo e que é mais evidente a partir de uma ótica psicanalítica?
As noções de “masculino” e de “feminino”, assim como as relações que tais noções mantêm entre si, têm sido repensadas na atualidade. Uma das conseqüências disto é que os papéis “classicamente” masculinos não se sustentam mais. A antropologia nos informa que a masculinidade, assim como a feminilidade, longe de serem realidades objetivas e muito menos fenômenos naturais calcados em elementos anátomo-biológicos são, antes, noções dependentes das formas culturais dentro das quais tais noções emergem. Os rituais para tornar-se homem não encontram equivalentes para o torna-se mulher. A masculinidade é construída num espaço social e político. Assim, as mudanças nessas referências têm provocado aqui o que se chama crise da masculinidade. Sabe-se que um número importante de homens não suporta a vida após a separação. Nos consultórios somos procurados por pais que nos perguntam como devem agir com os filhos e assim por diante.

Como os pais devem se conduzir ao enfrentar, por exemplo, a descoberta de que o filho ou filha apresentam um “desvio” de conduta sexual?

Não há receita para isto. O “choque” depende de como os pais lidam com a própria sexualidade. Basicamente, diria que não se deve reagir com a sexualidade dos filhos segundo normas morais que nada nos informam da particularidade de cada um.
A mulher que enfrenta em pé de igualdade com os homens as sucessivas crises econômicas e defende suas liberdades ainda cultua sonhos de Cinderela?

Embora ainda existam aquelas que esperam o príncipe, os movimentos feministas trouxeram conquistas que, por outro lado, impuseram deveres. Creio que, de maneira geral, a mulher tem disputado mais o mercado de trabalho. No capitalismo, é a produção que conta, e não o sexo de quem controla a produção. Entretanto, nas camadas menos favorecidas, as mulheres pouco mudaram suas posições.

O psicanalista Eduardo Mascarenhas vislumbrava que no ano 2000 a liberdade erótica traria como conseqüência o empanturramento erótico. Vendo por esse ângulo, o sujeito está fadado ao tédio da sexualidade provocado pelo excesso de consumo do erotismo?

Se é verdade que as grandes cidades são hoje inteiramente mapeadas em termos de prazer – sabe-se onde comprar drogas, onde se localiza a prostituição feminina, a masculina, os travestis e até, dolorosamente, a prostituição infantil – isto indica que a sexualidade foi banalizada. No entanto, como já disse, tal atitude pouco afetou o “enigma” da sexualidade. E hoje, observa-se um grande erotismo, ou pornografia, que, no fundo, serve para evitar relacionamentos mais profundos. Mas acho que isto é algo que está acontecendo. Temos que ter o cuidado para não sermos moralistas e acreditarmos que as coisas estão piorando. Isso é outra conversa.

Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).


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