[novo] SOBRE A VIRTUALIZAÇÃO DO SEXUAL

in: Lopes, A; Barberi, C; Ramos M; Barreto, R. (Org) Conexões virtuais: diálogos com a psicanálise. São Paulo: Escuta, p. 157-175, 2017.

 

Paulo Roberto Ceccarelli

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Despertou em mim a descoberta intuitiva de que a masturbação é o grande hábito, o “vício primário”, e que é apenas como substitutos e sucedâneos dela que outros vícios – álcool, morfina, o fumo e coisas parecidas – adquirem existência.

                                                        ( Sigmund Freud, 1897)

 

Introdução

O tema do XXI Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise, I Congresso Internacional de Psicanálise, Conexões Virtuais: Diálogos com a Psicanálise, evoca uma questão que há muito vem sendo discutida em todos os setores da sociedade: a onipresença cada vez maior do mundo virtual no nosso cotidiano. Nesse trabalho, gostaria de compartilhar minhas reflexões sobre um dos aspectos desse debate: a sexualidade na internet, ou melhor, a virtualização do sexual. Uma primeira pergunta pode ser coloca nesses termos: os inúmeros recursos oferecidos pelo mundo virtual, que não param de crescer devido ao espantoso avanço da tecnologia, expressam, de fato, algo novo no que diz respeito às modalidades de satisfação das moções pulsionais inconscientes ligadas às representações do sexual ou, ao contrário, estamos apenas repetindo estratégias, aparentemente novas, de antigas dinâmicas pulsionais na tentativa de mascarar o mal-estar (Unbehagen) inerente à cultura? Se for assim, os chamados “novos sintomas” não têm nada de novo: eles apenas reatualizam as dinâmicas pulsionais constitutivas do Eu, a partir do que a atualidade oferece para estabelecer formações de compromisso.

Com bases nessas considerações, gostaria de avançar a reflexão sobre as conexões virtuais, e perguntar se, e de que forma, a utilização do virtual como suporte do sexual difere de outras? Tenho por hipótese de que as representações fantasmáticas oferecidas por um dado momento sócio-histórico – na atualidade as conexões virtuais – repetem antigas dinâmicas pulsionais, atestando o conservadorismo da pulsão. Cada momento histórico gera sua própria configuração de angústia devido ao desamparo (Hilflosigkeit), ou como prefiro, à “insocorrubilidade”, antropológico do ser humano. O que nos leva a sentir que as soluções sociais do inconsciente na atualidade são mais angustiantes que outrora, são questões eminentemente narcísicas: nos sentimos implicados agora, pois é agora que vivemos.

Como nos lembra Freud (1930),

Por certo que não nos sentimos confortáveis na civilização atual, mas é muito difícil formar uma opinião sobre se, e em que grau, os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes, e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam nessa questão (p. 108).

A favor do conservadorismo pulsional, encontramos respaldo na antropologia. Uma consulta sobre a História das Práticas sexuais (Gregersen, 1983) nos revela um cenário curioso, e mostra o quanto essa história é repetitiva, para não dizer monótona: em todas as culturas encontramos as mesmas dinâmicas pulsionais que subjazem às mais diversas manifestações do sexual. Ponto esse já fora mencionado por Freud na conferência A vida sexual dos seres humanos (Freud, 1916-1917). O que a cultura ocidental denomina de “desvios sexuais” sempre esteve presente nos grupamentos humanos e, alguns deles, em espécies animais, embora nem sempre sejam considerados desvios. Essas expressões do sexual receberam explicações e justificativas de acordo com a ideologia que sustenta a visão da sexualidade da cultura observada, ideologia essa que guarda estreitas relações com os mitos fundadores.

O “novo” são as formas discursivas, sobretudo as que apareceram no final do século XIX, que sustentam as nomenclaturas que nomeiam e classificam as sexualidades que escapavam ao que era tido como “normal”. Foi assim que surgiu, em uma perspectiva higienista, termos, que mais tarde tornar-se-iam clássicos em psicopatologia: perversão (1882), narcisismo (1888), auto-erotismo (1899) homossexualismo (1869), sadismo e masoquismo (1890).

Desde os seus primórdios, a cultura ocidental criou discursos sobre sexualidade na tentativa de gerenciar sobre as práticas sexuais aceitáveis ou não, de acordo com os padrões da época, pois o controle da via social e política só poderiam ser alcançados pelo controle do corpo e da sexualidade (Foucault, 1985).

O sexual e a sexualidade

Como sabemos, o sexual foi uma das descobertas mais importantes de Freud; um dos pilares da teoria psicanalítica. É o tema central do texto de referência sobre o assunto: o famoso Drei Abhandlungen zur Sexualtheorie traduzido por Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (Freud, 1905a). Trata-se, de fato, de uma teoria sobre o sexual (Sexualtheorie), e não de uma teoria da sexualidade – Geschlecht. No segundo dos três ensaios, Freud discorre sobre as vicissitudes do sexual infantil, na qual a procriação está ausente, em sua busca anárquica, incessante e amoral de prazer, sendo o objeto aquilo que menos importa. Tudo serve, embora nada satisfaça, para que a tensão diminua: a pulsão é uma força constante. O sexual é polimorfo, múltiplo e perverso; é o recalcado por excelência; é o próprio inconsciente que se manifesta nas fantasias e nos devaneios, nos atos falhos e nas ocasiões quando somos surpreendidos pelo estranho (Das Unheimlich). Além da descoberta que o sexual está presente desde o nascimento, Freud provoca outro escândalo que, para alguns, cria uma ferida narcísica ainda mais insuportável: ele nos lembra de que somos animais de horda que nos agrupamos em torno de um líder, que pode ser uma pessoa, uma causa, uma teoria, enfim, em torno daquilo que nos dá a ilusão de sermos amparados. Quanto às pulsões, conceito que condensa o biológico e o psíquico, elas traduzem a vida do corpo no psiquismo. Elas constituem o motor da vida psíquica, aquilo que a anima. No animal humano, os representantes ideativos dão vozes às pulsões transformando o sexual em psicossexual.

Desde sempre, o sexual constituiu-se como o grande enigma do ser humano. Todas as culturas são interpeladas por ele e criem, a sua maneira, dispositivos para lidar com as demandas pulsionais: são os discursos sobre a sexualidade os quais constituem artefatos culturais tributários do momento sócio-histórico no qual emergem, e se apresentam como tentativas de normatizar e, ao mesmo tempo, patologizar a alteridade interna que desconhecemos (Ceccarelli & Salles, 2011). A impressionante produção que há séculos vem sendo construída no ocidente sobre a sexualidade retrata as tentativas e as dificuldades de lidar com o sexual, elemento fundante do humano. Parece improvável que a profusão de discursos sobre a sexualidade, o que inclui a psicanálise, a sexologia, a medicina, a pornografia dentre outros, tivesse surgido em uma cultura na qual a moral cultural não fosse produtora de doença nervosa. No entanto, tais discursos sempre falharam, pois, o sexual resiste a qualquer forma de normatização ou controle: os discursos sobre a sexualidade, oriundos da moral sexual, são produtos dos processos secundários que jamais darão conta de regulamentar o primário.

Vício e masturbação

A ideia da masturbação como vício e pecado está presente nas origens da cultura judaico-cristã. Juntamente com o sexo com animais, com cadáveres e com pessoas do mesmo sexo, a masturbação era tida como um pecado contra a natureza, além de constituir-se um grave atentado à castidade. A partir do séc. XVIII a medicina substitui a religião como a guardiã dos bons costumes, e a masturbação passou a ser vista como um vício, uma doença a ser curada (Valleur; Matysiak, 2003). No livro Histoire d’une grande peur, la masturbation (História de um grande medo, a masturbação), Stengers e Van Neck (1998) mostram que no sec. XIX a masturbação era considerada, em toda Europa, um vicio terrível que decimava a juventude. Os efeitos nefastos que lhe eram atribuídos eram de tal monta que alguns a consideravam como uma forma de autodestruição, além de provocar vertigens, melancolia, demência, raquitismo, impotência, emagrecimento, o crescimento pelos nas mãos, e até a morte. A origem desse temor remonta ao séc. XVIII com a publicação, em 1715, de uma obra anônima intitulada Onania. É a primeira vez que o termo onanismo aparece em referência ao personagem bíblico Onan que, ao invés de cumprir seu dever de paternidade em relação à sua cunhada, “derramava o sêmen na terra, para não dar descendência a seu irmão” (Gen., 38-9). O crime de Onan teria sido o coïtus interruptus, ou a masturbação. O autor de Onania era um charlatão que descrevia as terríveis consequência da masturbação com o objetivo de vender medicamentos para curá-la, cuja fórmula ele detinha o segredo. O grande sucesso do Onania deveu-se ao fato de se ter acrescentado, a cada reedição, cartas e depoimentos falsos de leitores fictícios sobre a eficácia dos medicamentos propostos para curar esse grande mal (Valleur & Matysiak, 2003). Em 1761 o famoso médico suíço Samuel-Auguste Tissot publicou um livro que marcou data intitulado Avis au peuple sur la santé (Conselhos ao povo sobre a saúde). Utilizando-se dos depoimentos (falsos) apresentados em Onania, Tissot (1761) sistematizou a ideia segundo a qual a masturbação era responsável por grande parte dos problemas físicos e mentais, sendo a morte a consequência mais frequente desse vício terrível (Valleur & Matysiak, 2003). Não foi senão a partir de 1875-1881 que essas crenças começaram a perder força. O livro de Stengers e Van Neck (1998) trata não apenas das posições incorretas da medicina sobre o assunto, mas, igualmente, do sofrimento daqueles que se viam incapazes de se libertarem dessa prática abominável. Entretanto, para Foucault (1984), o temor dos perigos engendrados pela masturbação remonta à Antiguidade, e os termos utilizados por Tissot são bem próximos de escritos médicos da Grécia antiga.

Seja como for, esses posicionamentos em relação à masturbação fazem parte do imaginário da cultura ocidental e servem como referências identificatórias na constituição do superego, o que não será sem consequências na vida sexual do sujeito.

 

Freud, a masturbação e as adicções

Embora Freud não tenha elaborado uma teoria sobre as adicções, encontramos em sua obra algumas referências ao alcoolismo e às toxicomanias, como atesta o termo alemão sucht (em francês addiction, e em português adicção), que remete à “dependência”, no sentido amplo (Silva Bento, 2007). E em um de seus últimos textos, o Esboço de Psicanálise (Freud, 1940 [1938]), ao comentar sobre os resultados, por vezes decepcionantes, do trabalho analítico, Freud faz uma observação premonitória sobre a importância das substâncias químicas no apaziguamento pulsional: “O futuro pode ensinar-nos a exercer influência direta, através de substâncias químicas específicas, nas quantidades de energia e na sua distribuição no aparelho mental” (Freud, 1938, 210).

Em Tratamento Psíquico (ou mental), Freud (1905b)(2) adverte do perigo do paciente adquirir “o hábito da hipnose e da dependência em relação ao médico, o que não está entre as finalidades do processo terapêutico” (p. 312). E mais adiante: “são também esses os casos [de tratamento hipnótico prolongado] em que costumam instalar-se no doente a dependência do médico e uma espécie de vício na hipnose” (p. 315).

O tema da masturbação, o “vício primário”, está presente ao longo da obra freudiana como uma posição masculina, o que confere à “atividade sexual da menina um caráter masculino, sendo necessária uma vaga de repressão nos anos da puberdade para que desapareça essa sexualidade masculina e surja a mulher” (Freud, 1908a, 220). Dos chamados “textos pré-psicanalíticos”, até o Esboço de Psicanálise (Freud, 1938), a masturbação é amplamente discutida e analisada sob diferentes perspectivas. Destacamos algumas: como origem da angústia, pois o sistema nervoso dos neurastênicos: “não consegue tolerar um acumulo de tensão física, já que a masturbação implica acostumar-se a uma ausência frequente e completa de tensão” (Masson, 1986, 82); como um fator importante no desenvolvimento da melancolia (p. 98); como vício primário (p. 288). Em A sexualidade na etiologia das neuroses, lemos que “quebrar no paciente o hábito da masturbação é apenas uma das novas tarefas terapêuticas impostas ao médico que leva em conta a etiologia sexual dessa neurose” (Freud, 1898, 302). Na frase seguinte Freud faz uma observação que esclarece porque a masturbação pode transforma-se em vício: “abandonado a si mesmo, o masturbador se acostuma, sempre que acontece alguma coisa que o deprime, a retornar à sua cômoda forma de satisfação”. E é aí que entram os narcóticos, por servirem, direta ou indiretamente, “como substitutivo para uma falta de satisfação sexual” (p. 302). Temos aqui, acreditamos, a base das adicções em geral (Ceccarelli, 2011).

Para que a atividade masturbatória seja autoerótica é necessário que a obtenção do prazer se faça a partir de uma determinada parte do corpo. Nessa perspectiva, a masturbação acompanhada de imagens e de fantasias não é autoerótica (Les premiers psychanalystes I, 1976, 140). A dificuldade de abandonar a atividade masturbatória se deve ao fato de que o universo fantasmático evocado na masturbação dificilmente encontra equivalente nos objetos do mundo externo (Les premiers psychanalystes II, 1978; Freud, 1908b). Quando existe culpa em relação à masturbação ela se deve não ao ato em si, mas “à fantasia que, embora inconsciente, está na sua raiz – ou seja, o complexo de Édipo” (Freud, 1919a, 243). Seja com for, as “primeiras fantasias masturbatórias geralmente abrem caminho no futuro ego e desempenham um papel na formação do caráter [da criança]” (Freud, 1938, 219).

Em Dostoievski e o parricídio, Freud (1928) faz um esclarecimento importante sobre o problema de masturbação ao dizer que a paixão pelo jogo é um substituto do “vício da masturbação (…) ‘brincar’ é a palavra real utilizada no quarto das crianças para descrever a atividade das mãos sobre os órgãos genitais” (Freud, 1928, 222).

Todas essas observações de Freud podem ser transpostas para o universo virtual. Estão aqui lançadas as bases de nossa hipótese: as práticas sexuais na internet nada mais são do que técnicas masturbatórias contemporâneas.

Conexões virtuais e ciberadicção

Foi na Europa que o termo adicção apareceu em transposição à utilização anglo-saxã. O termo engloba, além da toxicomania e do alcoolismo, as chamadas “adicções sem drogas”: jogos, sexo, transtornos alimentares, compra compulsiva. Trata-se, enfim, de toda atitude, comportamento e ação que vai além de um querer consciente do sujeito que, em muitos casos, reconhece seu assujeitamento: ele se vê escravo de uma dependência (Freitas, 2013).

Das “adicções sem droga”, às quais podemos acrescentar as dependências afetivas (adicção ao outro), as emoções que levam ao limite (esportes radicais), as que desafiam o destino (roleta russa, sexo grupal, ou individual, com uma pessoa soropositiva), o trabalho compulsivo, o sexo compulsivo, dentre outras, faz parte a ciberadicção.

Há anos a ciberadicção, geradora de ciberdependências, tem sido objeto de pesquisa em diferentes áreas do conhecimento. Como ilustração, vale citar o primeiro centro de estudos que se dedica ao tema. Trata-se do Center for Internet Addiction (Centro para Adicções em Internet) fundado em 1995 pela Dra. Kimberly Young. Apoiada pela Terapia Cognitiva Comportamental (CBT-IA: Cognitive Behavioral Therapy–Internet addiction), a Dra. Young oferece tratamento especializado para dependência de Internet. O programa de “desintoxicação” para se livrar do vício à internet – Netaddiction.com – inclui um teste para saber se a pessoa é adiccta. O Centro oferece sessões particulares de tratamento, workshops, treina terapeutas e faz avaliações forenses. Tudo online. Além disso, os livros e artigos científicos do Centro propõem recursos educacionais para escolas e empresas.

Segundo a Revista Americana de Psiquiatria(3), os dados sobre as ciberadicções são alarmantes: nos USA, não há um estudo confiável, mas os viciados em internet são diagnosticados como portadores de transtorno emocional; na Coreia do Sul, um adolescente gasta, em média, 23 horas por semana na internet; na China, cerca de 10 milhões de jovens, ou seja 13,7% dos adolescentes, se encaixam no diagnóstico de adicção. Dentre os inúmeros sintomas utilizados no diagnóstico de dependência à internet elencados pela Revista dois em particular nos chamam a atenção: a perda da noção de tempo, depressão quando o computador não está acessível. Não reconhecemos nesses sintomas alguns dos pontos mencionados por Freud quando às consequências da masturbação, assim como a síndrome de abstinência?

Quando o objeto da ciberadicção é a sexualidade, o tema obtém contornos dramáticos. O acesso a conteúdos pornográficos na internet tem despertado uma inquietação que atinge pais, professores, psicólogos, médicos, e escolas.

No Reino Unido, Universidade de Plymouth(4) publicou um estudo que mostra que crianças a partir dos 11 anos estão se viciando em pornografia na internet, o que levaria a uma antecipação da sexualidade, podendo causar problemas na vida adulta. Segundo a pesquisa, acessar conteúdos eróticos nessa idade criaria expectativas sexuais irreais, afastando as crianças da realidade da vida sexual. Como solução para o problema, propôs-se a criação de uma disciplina de orientação sexual para alunos do ensino fundamental já que eles estão crescendo em um “mundo sexualizado”, e devem aprender a lidar com o conteúdo adulto disponível na internet. Entretanto, tal proposição criou polêmica, pois alguns sustentam que uma tal disciplina poderia incentivar as crianças à internet. Há quem acredite que falar de sexualidade no ensino fundamental é um “campo minado”, pois muitos não saberiam o que dizer à criança. E cita um exemplo: uma mãe solteira pode saber como conversar com seus filhos adolescentes, já um pai solteiro pode não saber como falar do assunto com sua filha(5). (Não temos aqui o retorno do sexual recalcado?)

Nosso interesse em citar, ainda que suscintamente, essas passagens foi mostrar que a abordagem de questões ligadas ao sexual sempre cria dificuldade por produzirem o retorno do recalcado. Outras vezes, o sexual é simplesmente negado, e o problema permanece centrado no consciente quando se fala de “educação sexual”. Mas, o que é o sexual para que seja educado? As posições moralistas à respeito da sexualidade na net não estariam dando continuidade à moral ocidental, baseada em como o imaginário judaico-cristão trata o sexual?

A internet não cria, por si, comportamentos adictivos. Ela é apenas um suporte. Um meio contemporâneo utilizado para os mais diversos fins, e não há quem nunca tenha recorrido a este disposto por diferentes motivos. Se, em alguns casos, o uso da internet se transforma em adicções é por atingirem o estatuto de sintoma, reproduzindo dinâmicas psíquicas pré-existentes (Lowenstein, 2005). A rede criada pela ciberdependência reúne em suas malhas depressivos, psicóticos, neuróticos graves, moderados, obsessivos que querem sempre saber mais, paranoicos que querem entrar em sistemas para ver o que se passa lá, os “downloaders compulsivos”, que baixam tudo para ler depois, pessoas solitárias, algumas em busca de parceiros com os mais variados objetivos, outras vivenciando momentos da vida particularmente estressantes, assim como aquelas a procura de um grupo que lhes forneça alguma referência identitária. Tudo isso nos leva a concluir, que as ciberdependências não são necessariamente dependências à internet. Mas, antes, traduzem dependências afetivas, sexuais, compradores compulsivos e outros tantos, que encontram, na net, modos de apaziguamento de suas angústias. Neste sentido, podemos dizer que a net oferece, graças à tecnologia moderna, meios para aplacar o mal-estar inerente ao ser humano, pois a civilização se constitui muito mais como uma fonte de sofrimento, do que de felicidade, devido à renúncia pulsional que ela exige (Freud, 1930).

A polimorfia do sexual infantil perverso resignificada pelo virtual

A internet virtualizou o sexual, aumentando significativamente suas modalidades de expressão que vão desde a sexualidade “tradicional”, até as voyeuristas-exibicionistas, passando pelas pedófilas, sadomasoquistas, escatológicas, necrófilas… enfim, por todo dispositivo potencialmente capaz aplacar as demandas pulsionais, tanto as “normais” quando as “desviantes”. O recurso a objetos capazes de apoiar os arranjos inconscientes do sexual existem desde o momento em que o recalque fundou o inconsciente, e varia de acordo com o momento sócio-histórico: manuais de anatomia, desenhos e arte eróticas, revistas pornográficas, as diversas formas de literatura, filmes eróticos e pornográficos em cinema pornô, em fita VSH, depois em DVD… Por outro lado, a internet trouxe alguns elementos novos: o anonimato, a possibilidade de acesso instantâneo independentemente do local onde o sujeito se encontre, e a diversidade dos gadgets utilizados para esse fim. Não existe mais o constrangimento de se ir a um local especializado, muitas vezes clandestino, para adquirir o material necessário para que a excitação sexual se produza: as salas de bate-papos, as redes sociais, whatsapp e outros tantos meios, podem ser acessados a qualquer hora e de qualquer lugar – casa, trabalho, deslocamentos, hotel – e pelos meios os mais variados: computador de mesa, laptop, smartphone, tablets, relógios e outros que estão por vir. Concomitantemente à proliferação do sexual na net ocorreu um fenômeno que merece reflexão por revelar outras faces do sexual: os aparatos policiais e jurídicos desenvolvidos para caçar certos utilizadores da net. Recentemente, a Organização Não Governamental holandesa Terre des Hommes apresentou um software denominado A Menina virtual(6). Sweetie, como é chamada, tem nacionalidade filipina, e foi criada graças à técnicas de animação avançadas, que captura os movimentos e a voz de uma pessoa real, e os reproduz em uma imagem na tela. Sweetie é capaz de manter uma conversa com um pedófilo online pelo tempo necessário para que o IP do computador do usuário seja rastreado e o perverso apreendido. Em apenas 10 semanas, ela atraiu à rede 20 mil adultos, de 71 nacionalidades, interessados em envolvimentos sexuais com ela. Ora, do ponto de vista do sexual, não podemos nos furtar de questionar sobre as fantasias que os criadores se serviram para criar Sweetie, e sobre as motivações pedófilas que os habitam. Essa outra dimensão do sexual(7), pode ser frequentemente observado em situações nas quais os sujeitos são interpelados pelo recalcado: foi o que aconteceu no famoso “caso de Outreau”, nome de uma pequena cidade na região de Boulogne-sur-Mer no norte da França, onde ocorreu um dos maiores enganos judiciários da história francesa (Ceccarelli, 2010). Ou, ainda, no enredo do filme A caça, no qual toda uma cidade é mobilizada (seduzida?) por um abuso sexual, de um professor em relação a sua aluna, que nunca ocorreu.

Como toda forma de adicção, as ligadas ao sexual geram conflito, pois impõem ao sujeito uma luta interna bem próxima dos problemas compulsivos. Na grande maioria das vezes, o acesso a conteúdos sexuais na internet termina por uma masturbação. E nas inúmeras discussões sobre as adicções sexuais via internet, inclusive no meio psicanalítico, parece existir uma atração à respeito dos conteúdos acessados, da mesma forma que, outrora, o interesse voltava-se para as fantasias masturbatórias. O incômodo que isso provoca, a dificuldade para se falar do assunto, deve-se ao sentimento de estranheza (Das Unheimlich) que ele evoca por reativar “complexos infantis que haviam sido recalcados” (Freud, 1919b, p. 266). As conexões virtuais oferecem material para a atualização do recalcado, incluindo as moções pulsionais perversas. E como sabemos, trata-se de um potencial que todos temos:

sem dúvida há algo inato na base das perversões, mas esse algo é inato em todos os seres humanos, embora, enquanto disposição, possa variar de intensidade e ser acentuado pelas influências da vida. Trata-se, pois, das raízes inatas da pulsão sexual dadas pela constituição” (Freud, 1905a, 174).

Acredito que boa parte da polêmica causada pela virtualização do sexual deve-se ao fato do retorno de conteúdos recalcados que ela possibilita. Conteúdos esses carregados de culpa, devido às suas conexões incestuosas, e por atingir de frente a repressão da sexualidade (e a palavra é repressão e não recalque) da qual nos fala Freud (1908b) em Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna. Quando mais se reprime as expressões do sexual, mais ela faz retorno no sintoma, no caso na perversão, como bem o atesta as ciberadicções.

Considerações finais

O que se depreende do que foi dito, é que a internet é apenas o suporte atual de fantasias masturbatórias tal como, no passado, o foram os manuais de anatomia, as revistas de pornografia, os filmes X, os clubes de vídeo, etc. Do ponto de vista da economia psíquica, a dinâmica pulsional é a mesma. Os perigos que Freud via na atividade masturbatórias se assemelham muito aos temores atuais em relação as conexões virtuais, e boa parte dos problemas relacionados à masturbação foi transferida para as adicções sexuais. A presença compulsiva do sexual na existência do sujeito é, na grande maioria das vezes, masturbatória embora o meio utilizado possa variar. O que continua a incomodar não é o ato masturbatório que, na atualidade, foi deslocado para o virtual, mas as fantasias que o sustentam, pois, como nos mostrou Freud (Freud, 1919a), elas são geradoras de culpa devido a seus conteúdos e desejos incestuosos(8).

Na clínica, exemplos não faltam nos quais uma atividade sexual objetal deficitária é compensada por uma sexualidade masturbatória, por vezes compulsiva, carregada de culpa, apoiadas por sites de conteúdos sexuais

Algumas adicções sexuais podem representar o expediente encontrado pelo sujeito para se entregar, graças à fantasia, a atividades que, conscientemente, lhe seriam insuportáveis: pedofilia, estrupo, assassinato, dentre outras. Nesse sentido, a hiperatividade sexual pode revelar-se uma defesa para que a concretização desses atos seja evitada. E é, justamente, quando esse recurso começa a falhar que o sujeito procura ajuda.

Embora as teorizações de Freud tenham sido ambíguas em relação à masturbação – fixação em puma posição infantil, dificuldades para a obtenção de uma relação objetal satisfatórias –, suas posições foram revolucionárias ao resgatar uma dimensão da sexualidade humana até então tida como pecaminosa, errada, doentia e destrutiva. Enfim, algo a ser extirpado da vida do sujeito.

Acredito que esta mesma posição deva nos guiar na compreensão das conexões virtuais sob pena de repetirmos posições reacionárias e moralistas, na tentativa de afastar nossa própria sexualidade perversa polimorfa que está sempre pronta a emergir lá onde menos se espera.

Notas:

(1) Trabalho apresentado no XXI Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise, I Congresso Internacional de Psicanálise: Conexões Virtuais: Diálogos com a Psicanálise. Porto Alegre, 24/7/2015.

(2) Durante muito tempo, acreditou-se que esse texto fora publicado pela primeira vez em 1905. Contudo, o texto pertence as publicações pré-psicanalíticas tendo sido originalmente publicado em 1890. Conf. Silva Bento, 2007.

(3)http://www.portalnatural.com.br/saude-mental/personalidade-e-comportamento/existe-adiccao-ou-vicio-de-internet/#ixzz3W18ysWXA Acesso em: 10 jun. 2015

(4) <http://adrenaline.uol.com.br/2012/10/29/13518/pornografi a-na-internet-viciacrian-as-a-partir-dos-11-anos-revela-pesquisa>. Acesso em: 12 jun. 2015

(5) Disponível em: <http://www.netmums.com>. Acesso em: 12 jun. 2015.

(6) Disponível em: <http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=3515307>. Acesso em: 22 jun. 2015.

(7) Em 2004, publiquei um trabalho – A perversão do outro lado do divã – que aborda esta mesma questão dentro de um outro contexto. (Cf. Ceccarelli, 2004.)

(8) Para os teólogos da Idade Média, a polução noturna não era considerada pecado por tratar-se de um ato involuntário. Entretanto, o pecado da masturbação era acrescido da luxúria quando a fantasia era uma parceria ilegítima. O pior dos pecados, a profanação imperdoável era se masturbar pensando na Virgem Maria (Conf. Valleur; Matysiak, 2003). Ora, existe algo mais insuportável de ter como objeto da fantasia a mãe? “Igualar a mãe à prostituta, traz a mulher inatingível para um alcance fácil” (Freud, 1928, p. 222).

BIBLIOGRAFIA

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Sobre o autor

Paulo Roberto Ceccarelli

Psicólogo; Psicanalista; Doutor em Psicopatologia fundamental e Psicanálise – Universidade de Paris 7 – Diderot; Pós-doutor – Universidade de Paris 7; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Sócio do Circulo Psicanalítico de Minas Gerais; ; Sócio do Circulo Psicanalítico do Pará (CPPA); Membro da Société de Psychanalyse Freudienne – Paris, França; Professor da PUC- MG; Professor e orientador de pesquisas na Pós-Graduação em Psicologia/UFPA; Professor e orientador de pesquisas do Mestrado de Promoção de Saúde e Prevenção da Violência/MP, da Faculdade de Medicina da UFMG; Diretor científico do Centro de Atenção à Saúde Mental (CESAME: www.cesamebh.com.br); Coordenador o Instituto Mineiro de Sexualidade (IMSEX: www.imsex.com.br); Pesquisador do CNPq.

E-mail: paulorcbh@mac.com

Homepage: www.ceccarelli.psc.br

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