HISTERIA E MASCULINIDADE EM FREUD E NA CONTEMPORANEIDADE

in Estudos de Psicanálise – Belo Horizonte, 45, 101-110, julho, 2016

 

Luan Sampaio Silva
Paulo Roberto Ceccarelli

 

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A ideia de refletir sobre a histeria masculina sempre encontrou resistências por parte tanto da Sociedade de Medicina de Viena na época de Freud e posteriormente quanto da teoria psicanalítica. Essa resistência deriva em parte da crença da gênese da histeria ligada ao útero, o que leva a conceber a ideia da histeria ligada ao feminino, excluindo, assim, a possibilidade de sua articulação com o masculino.

Diante dessa perspectiva, os estudos em sua maioria eram voltados para a histeria feminina, destacando-se na psicanálise o clássico Caso Dora, publicado por Freud em 1905 e considerado por muitos como o principal caso de histeria nos primórdios da psicanálise.

O advento das novas conquistas da mulher e sua participação ativa na sociedade resultou na flexibilidade de papéis que outrora eram atribuídos unicamente ao sexo feminino e que se fazem presentes na atualidade no sexo masculino, nesse jogo de interposições não estanques de papéis.

Com isso, faz-se necessário se debruçar nos estudos sobre a histeria ligados ao homem, uma vez que a construção da masculinidade e seu papel variam de acordo com as épocas históricas e o contexto social.

Apesar de haver estudos mais recentes acerca dessa temática, a histeria masculina sempre foi posta de lado. Com isso, buscamos neste trabalho dar seu devido espaço e valor na teoria psicanalítica, pois a psicanálise tem muito a contribuir para o estudo da constituição subjetiva do histérico.

Para isso, abrem-se questionamentos acerca de como fatores socioculturais influenciam nesse funcionamento psíquico e quais suas particularidades na construção da masculinidade. Ou seja, como a histeria masculina se constitui uma saída psíquica para um modo de estar no mundo, de fazer laços sociais e de operar com o desejo, “[…] funcionando como uma curiosa defesa frente à falta inerente à condição humana, uma vez que viver é estar sempre em busca de algo” (Maurano, 2010, p. 16).

Voltemos, então, aos primórdios da psicanálise recorrendo à obra freudiana. Em seu percurso por desvendar o inconsciente, Freud não se absteve de estudar a histeria masculina, mesmo a contragosto da época vigente, na qual a histeria era particularmente concebida e vinculada ao feminino. No período em que retornou de Paris, em 15 de outubro de 1886, Freud apresentou na Sociedade de Medicina de Viena um texto sobre a histeria masculina, o qual não foi bem recebido. Embora não tenhamos acesso a esse texto, esse evento é descrito por Freud em seu Estudo autobiográfico (1925)

Pessoas de autoridade, como o presidente (Bamberger, o médico), declararam que o que eu disse era inacreditável. Meynert desafiou-me a encontrar alguns casos em Viena semelhantes àqueles que eu descrevera e a apresentá-los perante a sociedade. Tentei fazê-lo, mas os médicos mais antigos, em cujos departamentos encontram casos desta natureza, recusaram-se em me permitir observá-los ou a trabalhar com eles. Um deles, velho cirurgião, na realidade me irrompeu com a exclamação: “Mas, meu caro senhor, como pode dizer tal tolice?” Hysteron significa útero. Assim, como pode um homem ser histérico? (Freud, 1925, p. 26).

Conforme descrito no texto Observação de um caso grave de hemianestesia em um homem histérico (Freud, 1886), diante do desafio de apresentar um caso de histeria masculina, Freud se depara com dificuldades em encontrar o caso devido a não colaboração dos demais médicos. É com a ajuda de um laringologista que localiza um paciente adequado e o apresenta à Sociedade Médica de Viena em 26 de novembro de 1886, conhecido como o caso de August P.

Nesse início de seu percurso, por ainda não ter desenvolvido um arcabouço teórico metapsicológico, Freud se encontra ligado a terminologias fisiológicas e as privilegia nos fenômenos da histeria, embora haja alguns leves indícios de interesse pelos fatores psíquicos dessa manifestação.

August P. (Freud, 1896), um jovem de 29 anos, é apresentado com riqueza de detalhes em relação à sintomatologia que se manifesta em seu corpo, e Freud a relaciona aos fenômenos histéricos (nessa época as descobertas sobre os fatores psíquicos da histeria ainda não haviam sido estudados por ele).

Durante a exposição desse relato, Freud aponta que se trata de um caso não isolado ou raro, mas comum, de frequente ocorrência, embora possa passar despercebido. Nessa época a hipocondria era uma das manifestações mais comuns da representação da histeria, uma solução psíquica pela qual a histeria se apresentava.

O aspecto que chama a atenção de Freud (1886) para um sintoma além do corpo é quando, por exemplo, ele caminha ao lado de August P. e percebe as reações esboçadas pelo jovem ao caminhar, denotando que ali haveria algo além de uma deficiência orgânica.

No que diz respeito à vida familiar do paciente, Freud nos relata a morte dos pais de August: seu pai morrera aos 48 anos, ingeria bebida alcoólica de forma excessiva e tinha comportamentos violentos. A mãe morrera aos 46 anos de tuberculose. August sempre fora acometido por dores de cabeça quando jovem e foi o último filho de seis da prole de seus pais.

Segundo Freud (1886) dois momentos cruciais ocorreram no período em que August P. fora acometido por diversas sintomatologias. No primeiro momento, teve uma briga com um de seus irmãos que lhe devia financeiramente. Ao ser cobrado, o irmão o intimida com uma faca para não pagar. No segundo momento, August foi acusado de furto por uma mulher, o que agravou o seu estado. Ele sofria de violentos espasmos, depressão e tremores no lado esquerdo de seu corpo. A metade de seu cérebro aparentava ter sido comprometida por um acidente cerebral (Freud, 1886).

Freud relata, então, aos seus colegas da Sociedade de Viena que esse caso de hemianestesia tinha causas não somente orgânicas, mas também de ordem psíquica. O sofrimento psíquico de August se expressava no corpo, e seus sintomas advinham de diversas situações traumáticas.

Anos depois Freud (1923) escreve o seu segundo caso de histeria masculina em Uma neurose demoníaca do século XVll, tendo como base um conjunto de documentos históricos. Freud narra o caso de Chistoph Haizmann, um pintor que, enquanto se encontrava na igreja de sua aldeia, foi acometido por convulsões assustadoras, as quais persistiram durante vários dias.

Diante desse fato, foi examinado pelo Praefectus Dominii Pottenbrunnensis (Prefeito do domínio de Pottenbrunn) para desvendar o motivo dessas convulsões e se haveria algum tipo de envolvimento com o demônio. Chistoph Haizmann admitiu ter sido tentado nove vezes pelo demônio e que acabou realizando um compromisso por escrito de pertencer-lhe em corpo e alma após o período de nove anos. Contudo, ele havia se arrependido do pacto e estava convicto de que só a graça da mãe de Deus em Mariazell, cidade próxima da aldeia onde residia, poderia libertá-lo desse pacto escrito com sangue.

No decorrer da descrição do caso, Freud relata que dois compromissos com o demônio aparecem em sua história: um anterior, redigido com tinta, e o posterior, com sangue.

Ao examinar esse pacto demoníaco como um caso clínico de um neurótico, Freud (1923) se volta para a questão do que levaria alguém a assinar um compromisso com o demônio. Em troca de uma alma imortal, o demônio poderia oferecer diversas regalias: segurança, riqueza, poder e o gozo das belas mulheres.

Mas curiosamente, diz Freud, não foi por nenhum desses prazeres, mas o demônio lhe prometeu apoio e auxílio diante de seu estado melancólico:

Seu pai, portanto, falecera, e, em consequência, ele havia caído em um estado de melancolia, após o que o Demônio se aproximara dele e lhe perguntara por que estava tão abatido e triste, e prometera ‘auxiliá-lo de todas as maneiras e dar-lhe apoio’ (Freud, 1923, p. 97).

Freud (1923) descreve que o pintor se encontrava em um estado melancólico devido à morte de seu pai, e foi diante desse fato que o pacto surgiu. Fez o compromisso com o diabo para ser libertado desse estado de depressão, como relata Freud: “[…] temos aqui, portanto, uma pessoa que assinou um compromisso com o diabo, a fim de ser libertado de um estado de depressão” (Freud, 1923, p. 97).

E assim, Chistoph Haizzman entregou sua alma não por algo que fosse obter do demônio, mas sim por algo que deveria fazer para ele, a saber, ser filho obrigado até o nono ano e o demônio se compromete a ser o substituto do pai falecido do pintor pelo período de nove anos.

Pode soar estranho, diz Freud ([1923] 1996), que o diabo seja o eleito para ser o substituto paterno de um suposto pai amado. Porém, para Freud, Deus é um substituto paterno, que constitui o protótipo do pai infantil experimentado e visto quando criança, e na pré-história de toda a humanidade como o pai da horda primitiva. E que cedo todo sujeito se depara com sentimentos ambivalentes em relação ao pai: impulsos afetuosos e impulsos de natureza hostil.

Por se tratar de um caso no qual a pessoa não está sendo analisada, Freud sente dificuldades para “descobrir quais foram os fatores acidentais que se acrescentaram aos motivos típicos para o ódio ao pai, inerentes ao relacionamento de filho e pai” (Freud, 1923. 103).

Freud (1923) cogita a possibilidade de o pai de Chistoph ter se oposto ao seu desejo de ser pintor. Seguindo esse raciocínio, sua impossibilidade de exercer sua arte, após o falecimento do pai, seria a expressão do fenômeno de “obediência adiada” e, ao tornar-se incapaz de se sustentar, seria impelido a cada vez mais a ansiar pelo pai protetor ao encontro de suas necessidades. No aspecto da obediência adiada, há de se levar em consideração uma suposta expressão de remorso e autopunição bem-sucedida.

Freud (1923) associa o número do compromisso com o demônio ao período de gestação materna, nove meses, relacionando a posição feminina do pintor adotada em relação ao pai, pois o luto pela perda do pai e seu intenso anseio por ele, desencadeia no pintor uma reativação de sua fantasia inconsciente de gravidez reprimida, e diante dessa fantasia, Chistoph adota a neurose e o aviltamento do pai como saída psíquica.

Todavia, Freud (1923) se questiona o motivo pelo qual o pai de Chistoph, além de ter sido reduzido ao demônio, porta essa característica física de uma mulher.

Diante de tal questionamento, Freud aponta dois caminhos para se entender essa questão de forma complementar, e um não exclui o outro. O primeiro:

A atitude de um menino com o pai sofre recalque tão logo ele compreende que sua rivalidade com uma mulher pelo amor do pai tem, como precondição, a perda de seus órgãos genitais masculinos – em outras palavras: a castração. O repúdio da atitude feminina é, assim, o resultado de uma revolta contra a castração (Freud, 1923, p. 106).

Sua via de expressão comumente é encontrada na fantasia inversa de castrar o pai, de transformá-lo em “mulher” e, no caso de Chistoph, os seios atribuídos ao demônio corresponderiam a uma projeção da própria feminilidade do pintor sobre o substituto paterno (Freud, 1923).

O segundo caminho apontado por Freud sobre os acréscimos femininos ao corpo do diabo comporta um caráter mais afetuoso, sem hostilidade:

Ele vê na adoção dessa forma uma indicação de que os sentimentos ternos da criança pela mãe foram deslocados para os pais, e isso sugere que houve previamente intensa fixação na mãe, fixação que, por sua vez, é responsável por parte da hostilidade da criança para com o pai (Freud, 1923, p.106).

A intolerância de Chistoph Haizzman em aceitar a castração desencadeou a impossibilidade de atenuar seu anseio pelo pai. Portanto, é compreensível sua volta para a imagem materna na esperança que somente a Santa Mãe de Deus em Mariazell poderia libertá-lo de seu compromisso com o demônio (Freud, 1923).

Através desse caso, Freud aponta uma das importantes características da histeria masculina: a dificuldade de lidar com a castração. Diversos autores pós-freudianos teceram alguns estudos sobre a histeria masculina e ampliaram o arcabouço teórico sobre o fenômeno.

Ao falar da histeria masculina, Dor (1997) destaca a sedução como sintoma privilegiado dessa posição subjetiva. A sedução funcionaria como um suporte excepcional de um amor negociado. Assegurando-se se sentir amado por todos, o histérico oferece seu amor sem medir esforços. Todavia, esse amor é de fachada, pois o histérico é incapaz de se engajar além da sedução. O que importa é receber o amor de todos, já que não pode renunciar a ninguém. No entanto, querer ser amado por todos é, em outras palavras, não querer perder nenhum objeto de amor. Dor (1997) localiza aí um dos aspectos principais da histeria: a insatisfação.

Ao discutir a sedução em Don Juan, Mezan (2005) destaca que o personagem é a própria encarnação do desejo: por onde passa deixa seu rastro em uma trajetória marcada por uma espécie de furacão libidinal. Essa característica explicaria seu modo de existir baseado na sedução: oferece, por um lado, seu amor às mulheres, que se esgota no momento da conquista e não oferece uma continuidade na relação; por outro lado, a reiteração constante do mesmo ato conquistador é uma necessidade inerente ao personagem. Sua lista inacabada de pretendentes está sempre aberta para a próxima aventura. Para Don Juan, a próxima da lista é mais importante do que as mulheres que deseja.

Mezan (2005) enfatiza que o aspecto primordial da sedução é a veiculação inconsciente de significações para o sedutor, que vão atribuir ao seduzido um trabalho de simbolização e repressão. O autor acredita que isso ocorre com Don Juan, que pensa amar as mulheres, quando de fato ama apenas a si mesmo. O amor dessa lista comporta uma significação narcísica inconsciente que permeia com as performances galantes de Don Juan, com o não cumprimento das promessas feitas.

É nessa mesma ordem de significação que transfigura as próximas da lista: ele as idealiza de tal forma que sua própria paixão constitui um ato de narcisização, no qual ocorre uma projeção do objeto narcísico sobre o objeto externo e a identificação desse objeto externo com o objeto narcísico.

Esse jogo de realização total do desejo, no qual se oferece como sendo tudo para o outro e o outro tudo para o sedutor, está fadado ao fracasso pela impossibilidade de concretude de preenchimento total um do outro. Essa impossibilidade leva à ruína toda sedução, que não pode ser cumprida e, consequentemente, à decepção. Há de fato um traço histérico na sedução (Mezan, 2005).

Melanie Klein (1937), no texto Amor, culpa e reparação, tece algumas considerações sobre o personagem Don Juan em relação à manifestação de sua infidelidade, que em suas diversas formas de apresentação, possui um ponto em comum: o frequente distanciamento de um objeto amado, proveniente em parte do medo da dependência.

Para Klein (1937), Don Juan é assolado inconscientemente pelo medo da morte dos objetos amados, e a manifestação desse medo se daria através de sentimentos depressivos e de grandes sofrimentos psíquicos, se não fosse essa defesa contra si próprio: sua infidelidade.

Através desse recurso, ele prova a si mesmo que seu único grande objeto amado (originalmente a mãe, cuja morte era temida porque seu amor por ela era voraz e destrutivo) não é indispensável, pois sempre é possível encontrar outra mulher pela qual tem sentimentos ardentes, porém superficiais. Ao contrário dos indivíduos cujo pavor da morte da pessoa amada leva à sua rejeição ou à negação do amor, ele não consegue fazer isso, por vários motivos. Na sua relação com as mulheres, entretanto, chega inconscientemente a um meio-termo. Ao abandonar e rejeitar algumas mulheres, ele se afasta inconscientemente da mãe, salvando-a de seus desejos ameaçadores e se libertando de uma dependência dolorosa. Ao mesmo tempo, ao procurar outras mulheres, dando-lhes amor e prazer, mantém em seu inconsciente a mãe amada, ou a recria (Klein, 1937, p. 364).

Segundo a autora, Don Juan é impelido de um objeto para outro, pois cada objeto, ou seja, cada mulher com a qual se envolve, acaba representando sua mãe. Esse objeto amoroso originário é substituído por diversos objetos subsequentes. Em sua fantasia inconsciente, Don Juan cura ou recria a própria mãe pelo meio da gratificação sexual, o que de fato oferece às demais mulheres, ao considerar sua sexualidade como restauradora e capaz de proporcioná-la a felicidade. Essa ação dupla “[…] faz parte do meio-termo inconsciente que resulta na sua infidelidade e é uma condição básica para esse tipo de desenvolvimento” (Klein, 1937, p. 364).

O Outro aspecto da histeria masculina é destacado por Lucy Linhares da Fontoura (2005), que relaciona a histeria masculina como uma das formas de manifestação da masculinidade e lança questionamentos acerca dos sintomas histéricos e suas peculiaridades de expressão nos dias atuais. A autora relata observar na histeria masculina a propensão característica do histérico de questionar o lugar de todos: tanto o seu lugar quanto o dos outros. Isso se confirma na problemática do reconhecimento, a saber,

[…] quando não se obtém o reconhecimento que se considera devido, ou seja, quando os atos se justificam por sua referência narcísica, para afirmar o que sou ou o que tenho (Fontoura, 2005, p. 12).

Fontoura (2005) articula a questão do reconhecimento – que se refere à imagem – à posição fálica do sujeito. Por essa expressão se compreende o lugar em que o sujeito se vê e se posiciona relativamente à sua representação simbólica, à condição de seu exercício subjetivo frente a si mesmo e ao Outro. O histérico é convocado a sustentar uma espécie de falo inflacionado, no sentido de

[…] produzir valores imaginários, sem respaldo real e com um efeito – consequente desta dilatação imaginária – de transformar a ordem simbólica, isto é, de produzir desordem no ordenamento simbólico das coisas (Fontoura, 2005, p. 12).

Sob esse ponto de vista, o histérico aparenta uma imagem fálica diante do outro maior daquela que de fato possui e sofre de angústia ao saber que entre a camuflagem fálica que se apresenta aos outros e a própria consistência há uma diferença significativa (Jerusalinsky, 2004).

O histérico se apresenta como um portador de um falo superlativo que o diferencia como único, mas paga um alto preço por isso, um excesso que se manifesta ora como excesso de trabalho, ora como excesso de recursos, como o poder e o dinheiro, que são demandados para a sustentação desse falo. Como possíveis saídas para a histeria masculina, a autora coloca: encarnar o falo; supor o falo em figuras de autoridade a quem se submeterá ou reconhecer e aceitar a ordenação do falo fora de si mesmo: produzir uma representação social para seu falo (Fontoura, 2005).

Trazendo uma perspectiva sócio-histórica, Marazina (2005) enfatiza a importância e a dificuldade de conceituar a masculinidade no campo imaginário da subjetividade social e na clínica. Além disso, acredita que há uma torção da neurose obsessiva para a histeria na posição subjetiva masculina, e que no atual cenário social haveria um apontamento característico do laço social, que é mais favorável ao campo da histeria.

Diversos fatores a levam a conceber essa linha de pensamento como o contexto de uma sociedade ocidental que enaltece a depreciação dos valores dos processos de construção que aludem o devir temporal, para se fixar ao brilho instantâneo da imagem, das mudanças quase alucinatórias que foram afeiçoando a camada social em um culto ao novo, das significativas mudanças nos papéis tradicionais estabelecidos do masculino e do feminino (Marazina, 2005).

A histeria masculina marca presença na história, porém a histeria feminina é mais interessante de ser estudada pela medicina, pois a histérica não se adequava ao ideal da feminilidade burguesa, em que a maternidade era um modelo enaltecido. A histérica era vista como uma espécie de “antimãe” e ameaçadora da ordem social. Por conseguinte, o homem histérico não era ameaçador à ordem, nem um “antipai burguês”, mas era considerado um fora das regras, que pouco atrapalhava a raça e a moral das classes predominantes e em ascensão (Mazarina, 2005).

Aqui nos encontramos com uma articulação no mínimo intrigante: considerou-se que a posição histérica feminina dava corpo – literalmente – ao mal-estar resultante do recalque de aspectos fundamentais da sexualidade que não podiam ter espaço no laço social. Com seu corpo em sofrimento, suas exibições “destemperadas”, seus sintomas multiformes, a histérica falava de um feminino que escapava do ideal de mulher “decente” que a burguesia preconizava (Marazina, 2005, p. 19).

Considerando que a histeria masculina predominava nos setores mais precários desse ordenamento social, pode-se pensar que sua forma de denunciar o mal-estar se refletia nos terrenos da exclusão e da vulnerabilidade, onde teria que se manifestar exatamente naqueles que não tinham expressão nem direitos para o ordenamento social, o qual definia a distribuição de valores, ou seja, nas palavras da autora, de significados fálicos, aos sujeitos que possibilitassem sustentar o semblante humanitário e civilizatório (Marazina, 2005).

Ao pensar no falocentrismo como distribuidor de valores e poderes na sociedade patriarcal como aquele que reforça o binário “eles têm/elas não têm” Marazina (2005) reporta a origem da teoria infantil emergente da impossibilidade de inscrição da diferença sexual nos primeiros anos de vida de vida. Para a autora, esse imaginário originou no decorrer da história um status social de poder ao homem, concebido como algo pertencente a ele “por natureza”, daquele que possui um pênis, garantia do poder fálico.

Numa época em que os atributos físicos como a força eram indispensáveis para a garantia da posse de terras, das mulheres, dos Estados, a hegemonia masculina era incontestável. Todo esse aparelhamento institucional estava voltado à sustentação dessa lógica que separava a espécie entre seres “completos” e “incompletos”.

A partir do século XX essa lógica vai sofrendo gradativamente uma desconstrução através do advento das tecnologias, com a valorização do eixo “pensamento e habilidade” em detrimento da “força e coragem”, sem falar das revoluções e das diversas conquistas femininas por um espaço que antes era predominado pelo masculino. Com isso, a imagem do patriarca com seu atributo fálico natural vai sofrendo sucessivos e mortais golpes e sendo colocado em xeque desde o princípio da modernidade (Marazina, 2005). O resultado desse processo culmina na circulação do falo, que não se amarra mais imaginariamente no corpo masculino.

E com isso Marazina (2005) levanta os seguintes questionamentos:

  • A possibilidade de pensar o “ofício de homem”, que sustentava esse falo desde o momento em que seu corpo o testemunhava na atualidade sofre um movimento basculante, análogo ao processo de feminilidade?
  • Fazer-se desejar por um corpo inteiramente falicizado constitui um percurso para muitos homens que atualmente sentem que seu pênis pouco lhes assegura, diante do movimento das mulheres, que se empoderaram de atributos ditos masculinos, e os sustentam com assombrosa competência?

Complementando esse raciocínio, podemos pensar com Bourdieu (1999) para quem a marca do falocentrismo presente na teoria freudiana (e por extensão nos pensadores pós-freudianos) impossibilita a consideração do masculino como algo particular e problematizável, levando-se em consideração que, sob a lógica do paradigma falocêntrico, a diferença sexual é naturalizada, constituindo-se, assim, uma oposição antitética entre masculino e feminino de forma diferenciada, em que os lugares nobres eram destinados à masculinidade.

Segundo Gay (1993) no início do século XX há uma demarcação mais rígida entre masculino e feminino no Ocidente, o que levou à naturalização dessas divisões na época, levando Freud a afirmar que a anatomia é o destino, reforçando a divisões históricas que vinculam o homem à atividade, à autossuficiência, à racionalidade e à circulação na esfera pública. De fato, já existe na obra de Freud uma associação entre masculinidade e atividade anterior a 1923, redigida em outros momentos de sua obra.

Segundo Ceccarelli (1998), no início de sua obra Freud já se deparou com a dificuldade do paralelo entre masculinidade ligada à atividade e feminino ligado à passividade. Em seu Rascunho K ([1896] 1996) sobre as neuroses de defesa, Freud faz essa ligação direta entre passividade e feminino. E em Novos comentários sobre as neuropsicoses de defesa ([1896] 1996) faz a relação entre atividade e masculinidade, e a neurose obsessiva ligada ao sexo masculino. Boa parte da dificuldade, inclusive no meio psicanalítico, em se falar da histeria masculina, e em sentido mais amplo, da sexualidade masculina, se deve à resistência de questionar o modelo falocêntrico (Ceccarelli, 2013).

Nesse sentido, os casos de histeria masculina ficaram restritos a homens cuja constituição era caracterizada de forma passiva, uma exceção à regra da atividade. De forma análoga, uma ligação entre atividade e masculinidade é concebida ao ser analisada a neurose obsessiva, quadro clínico no qual a experiência sexual primária é fonte de prazer, opostamente ao que ocorre na histeria (Sampaio, 2012).

Finalmente, podemos pensar o contexto sociopolítico em que estamos inseridos, no qual há um movimento constante de transformação nas referências identificatórias de gênero e de funções sociais arraigados na cultura há séculos, com isso abrindo um espaço para se debater esses lugares e papéis que outrora eram rígidos e tidos como universais.

Se o mundo contemporâneo embaralhou sintomas outrora associados ao ‘feminino’ e ao ‘masculino’, não é incomum na atualidade encontrar homens fixados na falta, denunciando-a a todo instante em seus objetos de amor, fazendo-se desejar e marcados pela insatisfação (Maurano, 2010).

Se no tempo de Freud, a neurose obsessiva era predominante no homem, há que questionar se em momento atual essa predominância persiste e sustentar uma escuta psicanalítica para diversos arranjos psíquicos que são apresentados pelos homens na atualidade.

 

Referências

BORDIEU, P. A dominação masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

CECCARELLI, P. R. A construção da masculinidade. Percurso, São Paulo, Instituto Sedes Sapientiae, n. 19, 1998.

CECCARELLI, P. R. Reflexões sobre a sexualidade masculina. Reverso, Belo Horizonte, Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ano XXXV, n. 66, p. 83-92, 2013.

DOR, J. Estruturas e clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Taurus, 1997.

FONTOURA, L. L. Único no gênero – vicissitudes da histeria masculina. In: Revista da APPOA – A masculinidade. Porto Alegre, n. 28, 2005.

FREUD, S. Observações de um caso grave de hemianestesia em um homem histérico (1886). In: ______. Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos. Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 61-67.

FREUD, S. Um estudo autobiográfico (1925 [1924]). In: ______. Um estudo autobiográfico, inibições, sintomas e ansiedade, análise leiga e outros trabalhos (1925-1926). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 15-78. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 20).

FREUD, S. Uma neurose demoníaca do século XVII. (1923 [1922]). In: ______. O ego e o id e outros trabalhos (1923-1925). Direção-geral da tradução de Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 87-120. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 19).

GAY, P. A experiência burguesa da rainha vitória a Freud, v. II. O cultivo do ódio. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

JERUSALINSKY, A. Comunicação pessoal. 29/07/2004.

KLEIN, M. Amor, culpa e reparação (1937). In: Amor, culpa e reparação e outros trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 363-364.

MARAZINA, I. O espelho e os homens: considerações sobre os reflexos na masculinidade de hoje. In: Revista da APPOA – A masculinidade. Porto Alegre, n. 28, 2005.

MARKUS, C. Histeria masculina. Departamento de Humanidades e Educação. Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul, 2015.

MAURANO, D. Histeria: o principio de tudo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

MEZAN, R. A sombra de Don Juan e outros ensaios. 2. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.

SAMPAIO, R. Do universal ao particular: uma discussão sobre o masculino na psicanálise. 2010. 198 f. Tese (Doutorado em Psicologia) – Departamento de Psicologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2010.

 

Sobre os autores

 

Luan Sampaio Silva

Psicólogo clínico. Graduação em Psicologia pela Universidade da Amazônia. Aprimoramento em Psicologia Clínica Psicanalítica pela Universidade da Amazônia.

E-mail: psi_luansampaio@hotmail.com

 

Paulo Roberto Ceccarelli

Psicólogo. Psicanalista. Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris 7 – Diderot. Pós-doutor por Paris 7 – Diderot. Chercheur associé da Universidade de Paris 7 – Diderot. Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental. Membro fundador da Rede Internacional de Psicopatologia Transcultural. Sócio do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais. Membro da Société de Psychanalyse Freudienne, Paris. Membro do Núcleo de Estudos Freudiano, Belém/PA. Pesquisador Associado do LIPIS (PUC-RJ). Professor Adjunto IV da PUC Minas. Professor e orientador de pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Psicologia/UFPA. Professor e orientador de pesquisa no Mestrado Profissional de Promoção de Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG. Diretor científico do Centro de Atenção à Saúde Mental (CESAME): www.cesamebh.com.br. Membro do Projeto Antártico Brasileiro.

Membro da Comissão de Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia da 4ª. Pesquisador do CNPq.

 

E-mail: paulorcbh@mac.com

Homepage: www.ceccarelli.psc.br

 

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