GAROTOS E GAROTAS DE PROGRAMA: UMA EXPRESSÃO DA SEXUALIDADE HUMANA

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In Informativo do Clube Rainbow, 2, 11, 5, BH, nov. 2001

Garotos, e garotas, de programas, michês, prostitutos, prostitutas, profissionais do sexo, e outros tantos adjetivos, são rótulos atribuídos àqueles e àquelas que têm uma prática sexual com contornos bem definidos: pessoas que alugam seus corpos a preços variáveis em função o uso que dele será feito. Entretanto, estas qualificações pouco nos informam das motivações que levam estes sujeitos a engajarem-se nesta forma de sexualidade.

Não se discute o quanto esta atividade pode ser terrível, degradante. Uma porcentagem significativa destes sujeitos é composta por indivíduos, na maioria jovens, que procuraram a cidade grande em busca de melhores condições de vida. Mas, lá chegando e dando continuidade a um processo de exclusão, são obrigados a recorrer à prostituição como única forma de sobrevivência.

Por outro lado, existem “profissionais do sexo” que se dedicam a esta atividade por razões as mais diversas. Embora seja muito difícil traçar um inventário que englobe todas as possibilidades que levariam um jovem ou uma jovem a prostituir-se, alguns fatores repetem-se com certa regularidade: a excitação provocada pela situação nova, imprevisível e totalmente desconhecida que pode revelar-se potencialmente perigosa: “o que ele/ela quer de mim?” “para onde serei levado?” “o que acontecerá comigo?”; o fato de “entregar-se” a alguém sobre quem nada se sabe; o prazer de ter o corpo admirado, olhado, fetichizado, (o que pode ser uma importante fonte de reconhecimento quando, em outros aspectos da vida, o sujeito sente-se anulado); o prazer em dar prazer ao outro; a excitação de ser objeto de alguém pois, afinal, “é você que está pagando”; o jogo erótico que se expressa na negociação do preço em função de um serviço mais personalizado, e assim por diante. Igualmente significativos são os casos onde a prostituição é utilizada como uma “desculpa”, “isso é apenas um trabalho”, para viver-se uma forma de relação – homossexual – que, de outra forma, seria intolerável.

Ao mesmo tempo, estes sujeitos não estão sós no que fazem: se eles se prostituem é porque há quem pague pelos seus serviços. As razões que motivam os que procuram os “profissionais do sexo” são igualmente diversas. Desde o prazer causado pela ilusão de possuir aquilo pelo que se está pagando, até a situação onde este tipo de vínculo constitui a única possibilidade de se viver uma relação com uma pessoa do mesmo sexo. Entre um extremo e outro, temos os que buscam, em graus variados e no efêmero vínculo aí estabelecido, um pouco de conforto e carinho, algo que se aproxime de um contato humano. Na grande maioria das vezes, entretanto, passada a ilusão imaginária da relação estabelecida, o sujeito se vê confrontado com o vazio de uma “máquina de fazer amor” encarnada em um corpo alugado.

Se alguma conclusão pode ser tirada desta expressão da sexualidade, é que ela nos informa que o sexual, enigma por excelência do ser humano, apresenta-se em diferentes registros, contendo formas de prazer diversos e múltiplos. A resposta que cada sujeito tentará dar ao enigma que sua própria sexualidade lhe impõe é única como é único cada ser humano.

Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).


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