A CONTRIBUIÇÃO DA PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL PARA A SAÚDE MENTAL

[+] Download deste texto como PDF

in Rev. Latinoa. de Psicop.Fund., São Paulo, VI, I, março 2OO3, 13-25.

Psicopatologia contém a palavra grega pathos. Embora em sua origem pathos possua vários significados, dois conceitos, bastante diferentes, interessam-nos sobremaneira: o passional, a paixão a passividade; e o patológico, a doença, presente no diagnóstico médico. A fronteira que separa estas duas perspectivas é frágil e varia de acordo como as épocas e as civilizações(1) .

O acometido pela paixão, o paciente, o passivo, é aquele que padece de algo cuja causa ele desconhece e que o leva a reagir, na maioria das vezes, de forma imprevista. A paixão atesta sempre, para usar um jargão lacaniano, nossa permanente dependência ao Outro; um ser autárquico não teria paixões. Assim, só faz sentido falar de paixões onde houver imperfeição ontológica.

Duas grandes vertentes histórico-filosóficas, que antecedem a própria noção moral e jurídica de sujeito, tentarão explicitar opathos, a paixão. A primeira, encabeçada por Aristóteles, entende a paixão como um elemento intrínseco ao ser humano que não deve ser nem extirpado nem condenado. A segunda vertente, derivada de Platão e do estoicismo, vê nas paixões um obstáculo, uma força, que deve ser vencida.

Para Aristóteles, por não escolher suas paixões, o homem não é responsável por elas mas sim pela influência de suas paixões nas suas ações. A partir daí, seria possível julgar o aspecto ético do sujeito. Tal juízo é feito devido à possibilidade das paixões serem dosadas: sem paixão não existe escala de valores éticos. A grande dificuldade, em Aristóteles, para determinar se houve desmedida, se a paixão foi além do que deveria, é que não há uma referência única que serviria para todos os homens: cada um alcança o equilíbrio que lhe é próprio dentro de sua história. Não se deve contar com uma lei moral que harmonize as paixões: “em nome da lei só se pode reprimir”(2) . Ainda que, devido a particularidades da vida, o sujeito tenha vivido suas paixões de forma desenfreada, há momentos em que ele pode, por vontade própria, corrigir isso: para Aristóteles não há circunstâncias atenuantes. Mesmo não declarando guerra às paixões e propondo que se deva dominá-las e não reprimi-las, Aristóteles tem como inconcebível considerar involuntário um comportamento passional. Visto não ser possível renunciar às paixões, o homem virtuoso é, nesta perspectiva, aquele que aprimora a sua conduta para saber utilizar, nos seus atos, a medida exata de paixão; esta última deve estar a serviço do logos, do conhecimento, da razão. O homem virtuoso é, então, aquele que age em harmonia com suas paixões; que alcança o equilíbrio logos/paixão. Em suma: Aristóteles compreende a paixão como “uma tendência implantada na natureza humana, mas eminentemente suscetível a ser educada”(3). Cabe ainda lembrar que, para ele, a paixão não é algo que nos leva a praticar uma ação ruim malgrado nossa vontade: um “crime passional”. Ao contrário, é ela que dá estilo, e até mesmo unidade, às nossas condutas; que rege as ações humanas constituindo, em certas circunstâncias, acontecimentos que suscitam nossa admiração como a paixão, o pathos, expresso no amor de Antígona por seu irmão: não há nenhuma conotação moral. “Nada de grande se fez sem paixão”, escreve Hegel.

No estoicismo, em franca oposição com as teses aristotélicas, combate-se a idéia de que as paixões sejam dados da natureza humana, constituindo preciosos auxiliares da razão. As paixões são, antes, obstáculos ao logos devendo, portanto, ser domadas. Contrariamente às teses aristotélicas, não haveria como utilizar as paixões para o aprimoramento pessoal e nada pode ser feito para ajudar o apaixonado enquanto este estiver presa de seu pathos.

Estas duas posições, aqui resumidamente apresentas, suscitam profundas e decisivas questões ético-ideológico-econômicas ligadas à noção de psicopatologia e, conseqüentemente, ao que entendemos por saúde mental e como abordar a questão.

Como vimos temos, de um lado, Aristóteles para quem o sujeito deve dar conta de suas paixões; deve utilizá-las a favor do logos. De outro lado, temos o estoicismo que sustenta que os apaixonados, os que estão sob o efeito do pathos, são irresponsáveis pelo que fazem. O único expediente a tomar é evitar que a paixão se expresse: deve-se estar suficientemente treinado para não se deixar levar pelas armadilhas da paixão e ser tragado por ela. Não se trata, como em Aristóteles, de deixar que a paixão apareça para tê-la, de certa forma, como aliada mas, sim, de cortá-la pela raiz.

O que está em jogo nestas duas posições, e que afeta tanto os que padecem de sofrimento mental quanto aqueles que se propõem cuidar dele, é a questão da responsabilidade: enquanto a posição aristotélica estende esta noção, a estóica a restringe. Se, para uma posição, deve-se entender o pathos para tirar proveito dele, na outra, ele deve ser destruído por tratar-se de uma doença. É nesta perspectiva que se defende que subjugado por uma paixão – o crime passional, por exemplo – a culpabilidade do sujeito fica reduzida. Já a posição aristotélica, que vê as paixões como constitutivas do ser humano e defende a necessidade de integrá-las, sustenta que todo adulto normal deve ser responsável por suas paixões e arcar com as consequências de seu mau uso.

Avizinhamos aqui o interminável debate entre o normal e o patológico: ou consideramos o pathos como causa da conduta, como algo passível de ser modificado e sujeito a um julgamento ético, ou o consideramos como uma doença que aliena o sujeito transformando-o em objeto que necessita de cuidados especializados.

Além das inúmeras querelas – de ordem política, social, econômica, ideológicas e tantas outras – que inflamam o debate acerca das políticas públicas de saúde mental, tal como aquela a que assistimos em torno da luta antimanicômial estão presentes, mesmo que de forma latente, as duas posições em relação aopathos. Um dos aspectos do problema – por exemplo, mantem-se ou não os manicômios – é justamente a dificuldade de um consenso que determine de que maneira o portador de sofrimento mental deve ser tratado: ele é responsável ou não por seu pathos?

Na contemporaneidade, a linha que separa os dois conceitos depathos – o passional e o patológico – tem-se mostrado cada vez mais tênue. Observa-se um crescente deslocamento do domínio da ética para o da terapêutica. A partir do momento em que as raízes do comportamento do indivíduo encontram-se nas pulsões cuja origem ele ignora, a paixão passa a ser entendida como umestrangeiro-interno (4) que, em vez de ser integrado à vida do sujeito – posição ética – é submetido a um procedimento que visa exorcizá-la – posição terapêutica. Tratar as paixões significa, neste contexto, considerá-las patológicas, isto é, não mais entendê-las como parte do indivíduo com as quais ele tem que se haver mas, sim, como algo perturbador que foge completamente a seu controle. O radical pathos, que quase invariavelmente envia à concepção médica de doença, é a expressão mais vulgar que ele adquiriu na concepção do homem comum. É interessante observar que a definição de “alienado” segue esta mesma linha. Segundo o Aurélio, o alienado, o louco, é aquele que, portador de uma perturbação mental, está incapacitado de agir segundo as normas legais e convencionais de seu meio social.

O individuo apaixonado não é mais culpabilizado mas tratado como doente: cada vez mais a terapêutica ocupa o lugar da ética; o desvio, o lugar do erro; e a cura, o do castigo. O que se depreende de tudo isso é que a exigência de normalidade é cada vez maior embora o delito não seja mais imputado a uma incapacidade de controlar as paixões, ao pathos/passional, mas, antes, à uma doença, ao pathos/patologia.

Evidentemente, o debate em torno da questão da responsabilidade, do delito, da possibilidade de se educar, ou não, as paixões, foi radicalmente transformado com o surgimento das diversas teorias que se propõem estudar o pathos. Particularmente, com a introdução da noção de inconsciente pela psicanálise, torna-se problemático manter tanto a posição de Aristóteles, que preconiza que se deve tirar proveito das paixões, quanto as posições estóicas que dizem ser inútil qualquer tentativa de se trabalhar as paixões, já que é impossível dominá-las.

O aparecimento da Psicopatologia como disciplina organizada, marcando ao mesmo tempo o rompimento com a psiquiatria do séc. XVIII, se dá com a publicação da Allgemaine Psychopathologie(Psicopatologia geral) de Karl Jaspers no início do século XX (5) .

Hoje, o termo “psicopatologia” encontra-se associado a um grande número de disciplinas que se interessam pelo sofrimento psíquico. Isso trouxe um problema tanto do diálogo intercientífico entre as diferentes abordagens espistemológicas de cada uma destas disciplinas, quanto da confrontação crítica dos modelos por elas utilizados, o que evidencia a irredutibilidade do fenômeno psíquico a uma única forma discursiva. A área da saúde mental, seja na clínica privada, nos hospitais ou nas instituições,é particularmente suscetível às conseqüências, por vezes catastróficas, do confronto das diferentes compreensões clínico-teóricas do pathos.

A tentativa mais conhecida para superar os impasses criados pela pluralidade de abordagens tem o seu expoente máximo no DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Psiquiátrica Americana), que propõe oferecer uma definição empiro-pragmática das entidades nosográficas (6). Nele busca-se, acima de tudo, “o ideal de um acordo mínimo com relação à delimitação formal e operacional das categorias diagnósticas empregadas” (7). Objetiva-se a criação de uma nomenclatura única que forneça uma linguagem comum a pesquisadores e clínicos de diferentes orientações teóricas. Esta mesma ideologia está presente no igualmente reputado CID-1O (Classificação Internacional de Doenças). Na edição anterior, o CID-9, se lê-se na Introdução: “Uma classificação deve ser antes de tudo um compromisso prático”. Em suma, a abordagem empírico-pragmática das entidades psicopatológicas reivindica elaborar, unicamente a partir da observação direta dos fenômenos em questão, um sistema de classificação independente de qualquer a priori teórico. Isso significa deixar de lado os problemas etiológicos e centrar-se na nosografia. A grande crítica que se faz a esta abordagem é o fato de não levar em conta a subjetividade tanto daquele que está sendo “classificado” quanto daquele que classifica: o olhar de quem olha não é imune à sua própria organização subjetiva.

A isso vem juntar-se o desenvolvimento das neurociências e, sobretudo, o espantoso crescimento dos psicofármacos, que reforça a idéia da origem biológica dos transtornos psíquicos. Nesta perspectiva, não é exagerado supor que, num futuro não muito distante, poder-se-à tratar um determinado transtorno psíquico sem a ajuda da psicopatologia em suas múltiplas vertentes. Ou seja, sem que seja necessário conhecer os aspectos subjetivos, os conflitos interiores e as experiências psíquicas do sujeito: bastará conhecer o uso das moléculas químicas (8).

Psicopatologia Fundamental

É na pluralidade das psicopatologias que surge a Psicopatologia Fundamental, termo proposto em meados dos anos 80s por Pierre Fédida (9), e que deu origem, na Universidade de Paris VII, aoLaboratoire de Psychopathologie Fondamentale et Psychanalyse. No Brasil, assim como em outros países, existem vários Laboratórios que seguem está proposta de pesquisa.

A preocupação central da Psicopatologia Fundamental é de contribuir para a redefinição do campo do psicopatológico, propondo uma reflexão crítica dos modelos existentes e uma discussão dos paradigmas que afetam nossos objetos de pesquisa, nossas teorias e práticas. Isso significa que a Psicopatologia Fundamental reconhece e dialoga com as outras leituras presentes na polis psicopatológica.

Na atualidade, a noção de fundamental, ou melhor ainda de “fundamentalidade”, deve ser compreendida como uma “intercientificidade dos objetos conceituais próprios para definir um campo que, doravante, não mais é delimitado por uma oposição em relação ao «normal»” (10). A Psicopatologia Fundamental é um projeto de natureza intercientífica onde a comparação epistemológica dos modelos teórico-clínicos e de seus funcionamentos propiciaria a ampliação do limite e da operacionalidade de cada um destes modelos e, consequentemente, uma transformação destes últimos. Tal projeto levaria à construção de um espaço teórico-clínico, com fundamentos próprios, que permitiria a coexistência, o diálogo e o intercâmbio, dos diferentes modelos conceituais – neurociências, imunologia, farmacologia, oncologia e outros tantos – que lidam com o pathos.

Entretanto, é importante frisar que não se trata de uma interdisciplinaridade mas, antes, de uma transdiciplinaridade pois, campos diferentes, cada qual com métodos, procedimentos e objetivos que lhe são próprios não se comunicam facilmente. Para citar um exemplo dado por Fédida: “uma pesquisa no domínio da neurobiologia sobre a doença de Parkinson, ou de Alzheimer, e aquilo que a psicanálise tem a dizer sobre o envelhecer, não entram diretamente em comunicação. O fato de que os neurobiólogos que trabalham com a questão do dormir e do sonhar parecem, às vezes, falar as mesmas coisas que os psicanalistas, não significam que estejam, de fato, falando das mesmas coisas” (11).

A transdiciplinaridade reune, em uma ampla rede de significações, os conhecimentos específicos e singulares de cada modelo em torno de uma concepção ética comum que “perpasse todos os saberes particulares e permita a abertura de um campo discursivo capaz de produzir interações, transportes e construções metafóricas” (12).

No epicentro da Psicopatologia Fundamental, cujo campo conceitual organiza-se em torno da referência psicanalítica, encontra-se opatei mathos esquileano: aquilo que o sofrimento ensina. Trata-se de resgatar o pathos, como paixão, e escutar o sujeito que traz uma voz única a respeito de seu pathos transformando aquilo que causa sofrimento em experiência, em ensinamento interno. Transformar o pathos em experiência significa, também, considerá-lo não apenas como um estado transitório mas, e talvez sobretudo, como “algo que alarga ou enriquece o pensamento” (13). Cria-se, então, um discurso sobre as paixões, sobre a passividade, sobre o sofrimento, enfim, sobre o sujeito trágico. Encontramos aqui a essência de “Psicopatologia”: o conhecimento, a razão – o logos – a respeito do pathos, da paixão, do sofrimento. O pathos, em si, nada ensina não conduzindo senão à morte. Quando a experiência é, ao mesmo tempo, terapêutica e metapsicológica, estamos no âmbito da Psicopatologia Fundamental.

Abri-se, a parti daí, o campo transferencial onde um interlocutor, na posição de médico no sentido de Erixímaco: aquele que se ocupa dos fenômenos do pathos, traz para o sujeito a possibilidade de se pensar aquilo que, até então, nunca fora pensado. O médico – o psicopatólogo – no sentido dado por Platão em O Banquete, é aquele que tem a arte de se ocupar dos fenômenos do amor; o que cuida de Eros doente pelo excesso de paixão; é aquele que, pela sua arte, restabelece o equilíbrio para que Eros seja liberado desse excesso. Tal como o expectador no teatro do tempo de Péricles, o psicopatólogo inclina-se sobre o paciente, escuta a singularidade que ali se manifesta, o que lhes confere – ao psicopatólogo e ao paciente – uma experiência única. Entretanto, é devido a esta experiência única e compartilhada, que a Psicopatologia Fundamental se distingue da Psicopatologia Geral: enquanto a última propõe um discurso classificatório sobre as doenças mentais, a primeira propõe um conhecimento do psiquismo através do pathos.

Psicopatologia Fundamental e aparelho psíquico

Na perspectiva da Psicopatologia Fundamental, o aparelho psíquico é um prolongamento do sistema imunológico; uma organização que se desenvolveu a fim de proteger o ser humano contra os ataques, tanto internos quanto externos, que punham sua vida em perigo(14). Esta concepção está em filiação direta com as teses freudianas apresentadas em um de seus textos mais polêmicos,Neuroses de transferência: uma síntese (15). Neste texto, Freud concebe o aparelho psíquico (seelischer Apparat) como psicopatológico em sua origem: um resposta defensiva à violência à qual o ser humano se viu exposto quando das mudanças provocadas pela chamada «era glacial» (16). Esta catástrofe ecológica de proporções avassaladoras – ou, se preferirmos, esta perda do Éden – levou o ser humano à profundas reorganizações para enfrentar o excesso de violência tanto externas – as transformações do meio-ambiente – quanto internas – as demandas pulsionais, o pathos – cujas satisfações se viram ameaçadas. Freud defende que a História da Humanidade – filogênese – é repetida a cada ser humano – ontogênese. É neste sentido que ele escreve que “as neuroses têm que prestar seu testemunho sobre a história do desenvolvimento da alma humana” (17), o que eqüivale dizer que o ser humano traz um sofrimento psíquico, geneticamente herdado, causado pelo excesso. Com isso, Freud resgata a noção grega de pathos colocando-a como ingrediente central da essência do humano.

Freud inaugura um discurso sobre o pathos, uma psicopatologia, onde falar de normalidade, a não ser do ponto de vista estatístico, não faz mais sentido pois um tal estado sem tensão – o nirvana – só seria alcançado com a morte do organismo. Nesta perspectiva, as neuroses passam a ser compreendidas como criações que garantiriam a sobrevivência da espécie contribuindo, ao mesmo tempo, para a construção do psiquismo humano. Isto significa que, para Freud, em Neuroses de transferência: uma síntese, as neuroses e as perversões são modos de subjetivação encontrados pelos sujeito. Por outro lado, aquele que não alcança a subjetividade, que não responde ao pathos com a sua “psicopatologia individual”, é levado ao extermínio. Ou seja, como escrevi em outro lugar, “o que a falta do Outro traz não é a morte biológica mas, antes, a morte ontológica que tem sua expressão máxima em algumas formas de psicose. A função essencial do Outro primordial encarnada inicialmente pela mãe é a de introduzir a criança no mundo da metáfora onde os objetos secundários substituem os primários. O narcisismo secundário, o do eu, só é alcançável pelo sacrifício do narcisismo primário. O bebê humano que recusa este imperativo seria impensável como humano, excluindo-se da cultura” (18).

A proposta da Psicopatologia Fundamental é pensar a questão páthica como dimensão inerente do Ser. Trata-se de “criar” uma psicopatologia própria para cada sujeito, que lhe permita transformar em experiência as manifestações de seu pathos.

É nesta perspectiva que defendo, em um trabalho anterior, que “as manifestações da sexualidade, tanto as «normais» quanto aquelas que fogem à norma, devem ser compreendidas não como problemas mas, antes, como soluções” (19). Este raciocínio, transportado para a Psicopatologia Fundamental permite-nos pensar que a particularidade do trajeto identificatório de cada indivíduo é uma solução ou, se preferimos, um sintoma, no sentido psicanalítico do termo: uma formação de compromisso frente as múltiplas variáveis com as quais o sujeito tem que lidar desde o seu nascimento. A palavra “solução” deve ser entendida no sentido matemático do termo: uma equação que comporta diferentes variantes frentes às quais, tal como em um sistema vetorial de forças, uma resultante, uma solução, será encontrada.

Psicopatologia Fundamental e Saúde Mental

Até o final do século XIX não existia, a rigor, um saber sobre o sofrimento psíquico que acometia o homem. A preocupação vigente era sobre a doença, sobre a sintomatologia: conhecer para classificar. Em certa medida, o discurso psiquiátrico contemporâneo, que aparece na segunda metade do século XIX, guarda, em sua origem, esta mesma tradição. Os grandes psicopatólogos do século passado, dentre os quais Havellock-Ellis e Krafft-Ebing, tinham por preocupação classificar e etiquetar as organizações psíquicas que escapavam às referências de normalidade da época, o que aumentou consideravelmente a nosografia psiquiátrica. A Psicopatologia Geral de Jaspers continua, sob certos aspectos, esta mesma tradição ao deixar claro, já na introdução, que seu objetivo é “o fenômeno psíquico realmente consciente” (20).

Freud rompe com esta tradição psiquiátrica ao criar a situação psicanalítica onde “a alienação torna-se desalienante porque, no médico, ela se torna sujeito” (21) . Com a introdução da dimensão do desejo, que submetido às leis da linguagem escapa a qualquer apreensão direta de sua finalidade, Freud postula que o sujeito – louco ou não – sempre que fala, fala do, e a partir de, seu pathos, que aqui confunde-se com a trama discursiva que o constitui. É esta trama, inicialmente encarnada pelo Outro, que possibilita que o pathos, como passividade, alienação, seja transformado, na situação terapêutica, em percepção, em experiência.

Respeitar o princípio da voz única, da singularidade do pathos que constitui o sujeito que fala – proposta central da Psicopatologia Fundamental, como já foi dito – é uma outra maneira de tratar a questão da cidadania.

No entanto, falar de cidadania só faz sentido onde existe um compromisso social não apenas por parte daqueles engajados de maneira mais próxima com as Políticas de Saúde Mental mas igualmente da sociedade como um todo. Este ponto toca uma questão crucial tanto para a implantação quanto para a continuidade de todo o processo: a disponibilidade de todos para rever arraigadas posições preconceituosas e estigmas seculares em relação ao portador de sofrimento mental. Ou, como bem o expressa Maria Elizabete Freitas: “Que caminhos buscaremos para que a sociedade reconheça a necessidade de refletir sobre a cidadania do doente mental e a reestruturação da assistência em saúde mental?” (22).

O respeito à singularidade tem, como contra-partida, oferecer um tratamento mais “personalizado” onde as particularidades das subjetivações ganham contornos mais nítidos. Isto implica a criação de uma estrutura elaborada pela e para a comunidade mas sobretudo, a viabilização de “um espaço de convivência, que acolhe, cuida e possibilita a utilização de diversos recursos, não se focalizando na doença, e enfatizando um projeto de Invenção Social” (23).

Esta proposta de trabalho/pesquisa centrada na reflexão dos fundamentos dos modelos utilizados na escuta do paciente e em intervenções realistas pauta-se, antes de mais nada, em uma posição ética que “respeita o enraizamento necessário de cada ser humano na realização de sua vida” (24). Trabalhar nesta perspectiva é reconhecer a particularidade psíquica, assim como a genética, de cada um, e acreditar que o portador de um sofrimento psíquico possui um saber sobre o seu pathos.

Respeitar, ainda que na loucura, este “saber-sobre-si-mesmo” deve ser o ponto de partida para toda e qualquer discussão sobre as políticas de saúde mental. Embora uma nova perspectiva tenha estado presente na chamada Reforma Psiquiátrica que começou a estruturar-se no Brasil na década de 80 (25), nunca é demais lembrar que não se trata apenas de melhorar a qualidade do atendimento ao usuário nas instituições especializadas mas, sobretudo, dar continuidade ao trabalho terapêutico além da crise que levou o sujeito a procurar a instituição; ou seja, reconhecer a todos o direito de cidadão: sem este reconhecimento, é o tecido social que se apresenta de forma perversa (26).

Isso significa a implantação, ou implementação, de espaços de atendimento tanto institucionais quanto extra-institucionais cujos objetivos visariam, além do trabalho assistencial, profundas transformações na própria concepção de sofrimento psíquico.

1 – A este propósito ver o artigo de Francisco Martins. Conf. MARTINS, F., “O que é pathos”, in Rev. Latinoam. Psicop. Fund., São Paulo, II, 4, 62-80, dez.1999.

2 – LEBRUN, G:, “O conceito de Paixão”, in Os sentidos da paixão, São Paulo, Companhia das Letras, 1991, p. 24.

3 – Ibid., p. 20.

4 – Sobre a questão do “estrangeiro-interno” ver: CECCARELLI, P. R., “Sexualidade e Preconceito”, in Rev. Latinoam. Psicop. Fund., SP, III, 3, 18-37, set. 2000.

5 – Segundo FEDIDA e BERLINCK, a psicopatologia, como tradição, surge com os gregos encontrando sua expressão máxima no teatro de Ésquilo. Conf., FEDIDA, P., “Tradition tragique du psychopathologique. A propos du pathei mathos de l’Agamemmon”, in Crise e contre-transfert, Paris, PUF, 1992, 19.36. BERLINCK M., “O que é Psicopatologia Fundamental”, in Rev. Latinoam. Psicop. Fund., SP, I, 1, 46-59, set. 1998.

6 – Par uma discussão crítica sobre o DSM-IV ver: COSTA PEREIRA, M., “Formulando uma psicopatologia fundamental”, in Rev. Latinoam. Psicop. Fund., SP,I, 1, 60-76, set. 1998 .

7 – COSTA PEREIRA, M., “Formulando uma psicopatologia fundamental”, Op. cit., p. 62 .

8 – CECCARELLI, P. R., “Entrevista com Pierre Fédida”., in Rev. Latinoam. Psicop. Fund., SP, IV, 1, 168-174, março 2001.

9 – BERLINCK M., “O que é Psicopatologia Fundamental”, Op. cit.

10 – FEDIDA, P., “De uma psicopatologia geral a uma psicopatologia fundamental. Nota sobre a noção de paradigma”, in Rev. Latinoam. Psicop. Fund., SP, III, 1, set. 1998, p. 116 .

11 – CECCARELLI, P. R., “Entrevista com Pierre Fédida”., Op. cit, 172.

12 – QUEIROZ, E., “O discurso perverso na clínica psicanalítica”, tese de doutorado em Psicologia Clínica, Laboratório de Psicopatologia Fundamental e Psicanálise, PUC-SP, 2000.

13 – BERLINCK M., “O que é Psicopatologia Fundamental”, Op. Cit., p 54.

14 – BERLINCK M., “”Catástrofe e representação. Notas para uma teoria geral da Psicopatologia Fundamental”, in Rev. Latinoam. Psicop. Fund., SP, II, 1, 9-34, set. 1999.

15 – FREUD, S., (1928) “Neuroses de transferência: uma síntese “, Rio de Janeiro, Imago, 1987.

16 – Hoje sabemos que não existe nenhuma relação entre a Era Glacial e o aparecimento do Homo Sapiens. Sobre este tema ver, por exemplo, ECCLES, J., “Évolution du cerveau et création de la conscience”, Paris, Flammarion, 1992; CAVALLI-SFORZA, L. & F., “Qui sommes-nous?”, Paris, Flammarion, 1997; “Les origines de l’Homme”, Science et Avenir, Hors-Série, Avril, 2000; “La langue d’Homo erectus”, Science et Avenir, Hors-Série, janvier 2001. O que está em jogo na concepção freudiana é da ordem do mito, tal como o apresentado em Totem e Tabu . Trata-se de um episódio que mudou radicalmente a vida sobre o planeta. Neste sentido, é lícito dizer que houve uma “catástrofe”..

17 – FREUD, S., (1928) “Neurose de transferência: uma síntese “, Op. Cit., p. 72.

18 – CECCARELLI, P. R., “”A sedução do Pai”, in GRIFOS. Pub. do Inst. de Est. Psican. – IEPSI – B.H., nº 18, out. 2001, pp. 91-97.

19 – CECCARELLI, P. R., “Sexualidade e Preconceito”, Op. Cit., p. 35.

20 – JASPERS, K., “Psicopatologia Geral”, vol. I, Rio de Janeiro, Atheneu, p. 13.

21 – FOUCAULT, M., “História da Loucura”, São Paulo, Perspectiva, 1978, p. 503.

22 – CARVALHO FREITAS, M. E., “Psicanálise, cidadania e as instituições de Saúde Mental”, trabalho apresentado na Jornada de Psicanálise de Crianças e Adolescente, Sociedade Psicanalítica da Paraíba, abril de 2000.

23 – CARVALHO FREITAS, M. E., “Psicanálise, cidadania e as instituições de Saúde Mental”, Op., cit.

24 – BOFF, L., “A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana”, Vozes, Petrópolis, 29º edição, 1999, pg. 93.

25 – Sobre a questão da Reforma Psiquiátrica ver: BRONZ, A., VELOSO, H., DELGADO, S., LANNA, V., OLIVEIRA, R., “Acompanhamento Terapêutico: uma prática em construção”, in Campo da atenção psicossocial, Anais do primeiro Congresso de Saúde Mental de Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Tecorá Ed., 1997, 15-20.

26 – Sobre a questão do Social Perverso, ver: CECCARELLI, P. R., “Delinqüência: resposta a um social patológico”, in Pulsional, revista de psicanálise, São Paulo, XIV, 145, maio 2001, 5-13.

Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do “International Forum of Psychoanalysis”; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).

-

voltar ao topo