ANGÚSTIA, SEPARAÇÃO E DESAMPARO NA CLÍNICA CONTEMPORÂNEA

in Estudos de Psicanálise – Belo Horizonte – n. 38 – p.23-28 – Dez. 2012

Ana Cristina Teixeira da Costa Salles
Paulo Roberto Ceccarelli


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Que antes renuncie a isso, portanto, quem não conseguir
alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época.

                                                                                      Jacques Lacan

Introdução

Nas últimas décadas a sociedade ocidental transformou-se numa sociedade globalizada na qual quem dita as regras é o mercado. Vivemos numa sociedade profundamente individualista, narcisista, na qual prevalece o culto pela imagem e pelo consumo exacerbado e descartável. Vale o excesso de ofertas e a possibilidade de usar e descartar tudo rapidamente, tanto no plano material quanto afetivo.

Bauman (2007) define a vida líquida nas “sociedades líquido-modernas” como uma vida de consumo que “projeta o mundo e todos os seus fragmentos animados e inanimados como objetos de consumo”. Estes têm uma vida útil limitada e quando esse limite é ultrapassado devem ser descartados para abrir caminho para outros objetos que ainda não foram utilizados e que serão os novos objetos de desejo. Dessa forma, o lixo é o principal e mais abundante produto das sociedades líquido-modernas. 

Diz Bauman: “Em um mundo repleto de consumidores e de produtos, a vida flutua desconfortavelmente entre os prazeres do consumo e os horrores da pilha do lixo” (BAUMAN, 2007, p.17-18). E ainda:

Na sociedade de consumidores ninguém pode deixar de ser um objeto de consumo. Consumidores e objetos de consumo são polos conceituais de um continuum ao longo do qual todos os membros da sociedade de consumidores se situam e se movem de um lado para outro diariamente. Só como mercadorias só se forem capazes de demonstrar seu próprio valor de uso é que os consumidores podem ter acesso à vida de consumo (BAUMAN, 2007, p.18).

Em função disso, nas sociedades de consumo só quem tem poder econômico é considerado alguém. As leis do mercado discriminam cada vez mais os excluídos que não têm acesso aos bens de consumo.

Vivendo num ritmo acelerado, os indivíduos encontram-se pressionados, massacrados, angustiados diante das exigências do mundo globalizado.

As recentes crises econômicas mundiais, o alto índice de desemprego nas grandes cidades, o ritmo exigente e destrutivo dos mercados, bem como a falta de perspectivas num futuro melhor, têm ocasionado profundas mudanças tanto nos sujeitos quanto nas sociedades contemporâneas.

Observa-se uma perda da subjetividade. O sentimento de impotência agrava-se, o autorrespeito, a autoestima e a autoconfiança encontram-se debilitadas. Cresce o medo de tornar-se obsoleto, defasado, dispensável. O ritmo e a velocidade dos acontecimentos assombram os indivíduos, que cada vez mais temem ficar para trás, perder o momento certo das mudanças, não conseguir acompanhar a rapidez dos eventos e consequentemente “ir parar nas latas de lixo, destinos dos retardatários” (Bauman, 2007, p.10).

Nas sociedades líquido-modernas a vida não pode ficar parada; deve-se modernizar-se ou corre-se o risco de perecer. É uma vida precária vivida em condições de incerteza constante, com uma sucessão de reinícios.

As trocas subjetivas encontram-se inadequadas, comprometendo os laços sociais. Ligações frouxas e compromissos revogáveis são os preceitos que orientam os laços entre os indivíduos. Ligar-se ligeiramente a qualquer coisa que se apresente e abandoná-la rapidamente é o que conta. Viver no presente e pelo presente obtendo o máximo de satisfação possível, evitando as inquietações e sofrimentos, priorizando os finais rápidos e indolores, pois sem eles seria impossível recomeçar, é um imperativo (BAUMAN, 2007).

Vivemos em uma “sociedade de valores voláteis, descuidada do futuro, egoísta e hedonista, onde a velocidade e não a duração é o que importa” (Idem, p.10).

Ao mesmo tempo, observa-se uma perda de valores, de ideais e referenciais simbólicos, tanto no plano individual quanto coletivo.

Em decorrência de tudo isso, a frustração e a insatisfação são permanentes, provocando autocrítica e autocensura constantes. Consequentemente, aparecem as explosões de ódio, violência, discriminação, medo, insegurança, pânico, uma vez que o recurso à palavra e à simbolização acha-se diminuindo ou até mesmo ausente.

Roudinesco (2000), ao analisar as sociedades contemporâneas, diz:

O sofrimento psíquico manifesta-se atualmente sob forma de depressão. Atingido no corpo e na alma por essa estranha síndrome, em que se misturam a tristeza e a apatia, a busca da identidade e o culto de si mesmo, o homem deprimido não acredita mais na validade de nenhuma terapia. No entanto, antes de rejeitar todos os tratamentos, ele busca desesperadamente vencer o vazio de seu desejo (…) sem se dar tempo de refletir sobre a origem de sua infelicidade.

(…)

A concepção freudiana de um sujeito do inconsciente, consciente de sua liberdade, mas atormentado pelo sexo, pela morte e pela proibição, foi substituída pela concepção mais psicológica de um indivíduo depressivo, que foge de seu inconsciente e está preocupado em retirar de si toda essência do conflito (ROUDNESCO, 2000, p.13 e 19).

 

Luto e Separação

Sabemos que as perdas são inerentes à vida, fazendo parte da nossa existência desde que nascemos. A psicanálise nos ensina que para superá-las faz-se necessário realizar um trabalho de luto.

Para Freud (1917[1915]), esse trabalho de luto (reação à perda) que obedece ao imperativo do teste de realidade – o objeto amado não existe mais – consiste num desligamento gradual da libido do objeto ou dos ideais perdidos, para que no final desse processo o “eu” possa se ver livre, desinibido e apto para realizar outros investimentos em novos objetos e situações. Se esse processo de elaboração da perda não ocorrer satisfatoriamente, teremos a manutenção dos sofrimentos, dos conflitos e provavelmente a ocorrência de um luto interminável, geralmente patológico, que governará a vida da pessoa.

No trabalho do luto, o processo de desligamento de um objeto amado, seja por morte ou separação, é uma tarefa dolorosa e difícil que nos põe à prova, pois nos obriga a nos reconstituir. A dor psíquica que acompanha esse processo é inevitável, porém não é necessariamente patológica, sendo normalmente superada no final do luto.

O trabalho do luto necessita um tempo de elaboração psíquica. Entretanto, nem sempre isso acontece. Na tragédia de Hamlet, que não pode fazer o luto do pai assassinado porque os ritos funerários não foram devidamente respeitados, temos um exemplo de como um luto não realizado, “feito às pressas”, é enlouquecedor e pode determinar as ações e o destino do sujeito.

Inconscientemente todas as dores, perdas e separações de nossa existência estão interligadas, o que ocasiona uma revivência dessas situações no momento em que uma nova dor nos atinge.

Em função disso, a experiência de uma perda atual pode adquirir uma conotação traumática para o sujeito, principalmente se as anteriores não foram devidamente elaboradas.

Em nossa experiência clínica temos observado um estado de pânico e desamparo acentuado, principalmente em relação a separações quando a perspectiva de um rompimento definitivo adquire uma conotação muito traumática, interferindo na elaboração da situação.

Por outro lado, notamos uma intolerância à frustração, recusa do sofrimento e uma busca de soluções rápidas para qualquer problema que se apresente na vida do sujeito. Quanto tempo vou demorar para resolver isso? – parece ser a questão que mais incomoda atualmente.

Geralmente após alguns meses de atendimento, os clientes interrompem o processo alegando problemas financeiros, falta de tempo para vir às sessões, e toda sorte de desculpas, que sabemos muito bem serem racionalizações para não entrarem realmente num processo mais profundo de análise.

Em casos urgentes ou graves, quando se anuncia uma diminuição da angústia e um alívio sintomático, estas pessoas dão-se por satisfeitas e interrompem as sessões, mesmo sabendo do risco que isso significa.

Em situações de luto, por perda ou rompimento do vínculo afetivo – que requerem um tempo maior de elaboração –, nota-se em alguns casos a busca de um alívio rápido por meio da medicação ou soluções mágicas, esotéricas e milagrosas, que buscam atenuar a dor, diminuir a angústia e calar o sofrimento.

Alguns fragmentos clínicos atualizam estas situações:

1.     Uma cliente, após o rompimento de um noivado longo, ganhou dos pais uma viagem à Europa, “porque estava muito triste e precisava se distrair e esquecer o que havia acontecido”.

2.     Outra cliente, arrasada ao saber pelas amigas, via internet, da traição do marido, ouve de uma delas que “o melhor a fazer era conhecer logo outra pessoa e dar o troco”. Pouco tempo depois acaba se envolvendo com outro homem e interrompe as sessões.

3.     Outra ainda, que há muito tinha interrompido o trabalho analítico dizendo que estava muito difícil (psiquicamente) continuar, telefona para perguntar sobre a garantia que o analista poderia dar-lhe de que o problema que a afligia seria rapidamente resolvido, no ritmo de duas vezes por mês, pois não queria "mexer muito nessas coisas".

São inúmeros os casos em que os clientes já iniciam as entrevistas pedindo para serem medicados porque “não aguentam mais o sofrimento”, as crises de pânico e de angústia, o medo, a solidão e a falta de vínculos afetivos e sociais.

–       Quando interpelados sobre o seu papel nesse sofrimento, não se implicam, demandando alívio rápido e milagroso para as dores do corpo (somatizações) e da alma (angústia, depressão, solidão, pânico, ausência de vínculos afetivos e sociais).

–       Apesar do sofrimento, não há uma implicação subjetiva e aparece uma resistência a entrar no dispositivo analítico transferencial.

Para Roudinesco, essa resistência demonstra que:

… se a economia de mercado trata os sujeitos como mercadoria, os pacientes tendem, por sua vez, a utilizar a psicanálise como um medicamento, e o analista, como um receptáculo de seus sofrimentos (ROUDINESCO, 2000, p.161).

Parece-nos, enfim, que a marca distintiva da atualidade, embora do ponto de vista da economia libidinal não o seja, é aquilo que é criado e utilizado pela economia capitalista e sua ideologia: a ilusão que os objetos oferecidos são acessíveis a todos. A partir daí, todo objeto que, potencialmente, poderia ser objeto de desejo, é transformado, via regressão, em objeto de necessidade, privando-o de toda possibilidade de cumprir o seu papel prometido: a "realização" do desejo. Como objeto de necessidade, ao mesmo tempo idealizado e persecutório, toda possibilidade de sublimação se acha entravada, o que nos submerge no imaginário sem nenhuma possibilidade de sublimação: sem circulação pulsional, não ocorre ligações, e Eros perde a sua força, cedendo lugar a Tânatos (CECCARELLI, 2007).

Resumindo: a atualidade nada faz além de produzir, pela repetição do mesmo sob formas variadas, efeitos enganadores que mascaram, pelo imaginário cultural no qual o sujeito se encontra submerso em um dado momento sócio-histórico, o mal-estar (Unbehagen) inerente à cultura.

Ao longo de sua história, a psicanálise sempre denunciou o fracasso das pseudossoluções que prometem a completude narcísica, a ausência de sofrimento e o apaziguamento da angústia. Dessa maneira, ela desmascara as ideologias da sociedade de consumo que, através da fetichização dos objetos, negam a castração ao buscarem garantir a felicidade, ao preço da infantilização do sujeito, em detrimento de sua capacidade de pensamento e de crítica.

Ainda que não se possa desconsiderar que nas últimas décadas ocorreram profundas mudanças tecnológicas, sociais e políticas que transformaram profundamente as sociedades ocidentais, produzindo novas subjetividades e novas formas de viver e de sofrer, cabe aos psicanalistas se perguntarem como escutar e trabalhar essas novas modalidades de sofrimento psíquico ou, ainda, a recusa do sofrimento das subjetividades contemporâneas

E a psicanálise, como ela é afetada por tudo isso? Qual a participação dos psicanalistas na manutenção desta situação? Como nossos pacientes, estamos igualmente assujeitados aos efeitos psíquicos da organização psicossocial contemporânea (Ceccarelli, 2004). Não podemos nos esquecer que o sofrimento psíquico só pode ser avaliado dentro da cultura e no momento histórico que o produz (FREUD, 1929). Neste sentido, seria ilusório termos a pretensão de que poderíamos nos livrar dos efeitos da sociedade de consumo, e agir como se estivéssemos fora dela observando-a com a suposta neutralidade de um cientista que estuda suas lâminas através do microscópio. Como separar o nosso exercício profissional dessas contingências?

 

Bibliografia

BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

BRAUNSTEIN, Néstor A; FUKS, Betty B. (org.) 100 anos de novidade. A moral sexual “cultural” e o nervosismo moderno, de Sigmund Freud (1908-2008). Rio de Janeiro: Contra Capa, 2011.

CECCARELLI, Paulo R. A perversão do outro lado do divã. In: Destinos da Sexualidade. Portugal, A. M; Porto Furtado, A; Rodrigues, G; Bahia, M, A; Gontijo, T; (org.) São Paulo, Casa do Psicólogo, p. 243-257, 2004

CECCARELLI, Paulo R. Désintrications de la pulsion et processus civilisateur. In: Les Lettres de la Société de Psychanalyse Freudienne. Paris: Campagne Première, n.18, 2007, p. 97-107.

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. A história do movimento psicanalítico e outros trabalhos. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1974, v.XIV.

FREUD, Sigmund. Inibição, sintomas e ansiedade: um estudo autobiográfico e outros trabalhos. ESB. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v.XX.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 10: a angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

LIPOVETSKY, Gilles. A era do vazio: ensaios sobre o individualismo contemporâneo. Barueri, São Paulo: Manole, 2005.

NASIO, Juan David. O livro da dor e do amor. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

PEREIRA, Mario Eduardo Costa. Pânico e desamparo: um estudo psicanalítico. São Paulo: Escuta, 2008.

ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000.

 

SOBRE OS AUTORES

Ana Cristina Teixeira da Costa Salles

Psicóloga. Psicanalista. Membro do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais.

 

Paulo Roberto Ceccarelli

Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Pós-doutor por Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Sócio do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais; Membro fundador da Rede Internacional em Psicopatologia Transcultural; Professor Adjunto III da PUC-MG. Professor credenciado a dirigir pesquisas, e docente no Programa de Pós-Graduação em Psicologia/UFPA; Orientador de Pesquisa e Professor do Mestrado Profissional de Promoção de Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG; Pesquisador do CNPq. (processo nº: 309881/2010-2)

 

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Paulo Roberto Ceccarelli      
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