A MENTIRA COMO ORGANIZADOR SOCIAL

in Cronos: R. Pós-Grad. Ci. Soc. UFRN, Natal, v.13, n. 1, p. 99-109, jan./jun. 2012


[+] Download deste texto como PDF

 

Não nos sentimos confortáveis na civilização atual, mas é muito difícil formar uma opinião sobre se, e em que grau, os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes, e sobre o papel que suas condições culturais desempenharam nessa questão.

                                                                                      Freud, 1930

 

Introdução

Para Freud (1921; 1929; 1930) a ilusão, argamassa fundamental das construções sociais, funciona como um catalizador que muda segundo o momento sócio-histórico considerado. Juntamente com ela, entretanto, existe um outro poderoso organizador social, cujo estatuto psíquico é pouco discutido: a mentira. Embora atuando em regiões psíquicas diferentes, estes dois elementos estão presentes no trabalho de cultura (Kulturarbeit). Ali repetem estratégias de recalque e repressão que, apoiadas no imaginário cultural reproduzem, sob formas aparentemente novas, dinâmicas psíquicas que tentam mascarar o mal-estar (Unbehagen) inerente à cultura.

No cotidiano, somos constantemente interpelados por ilusões e mentiras sob as mais diferentes apresentações – promessas de sucesso, garantias de felicidade, possibilidade de imortalidade, produtos miraculosos,  relações pessoais… -, que  embora saibamos ser em sua grande maioria falsas funcionam como um trompe l'œil social: se, por um lado, quase nunca cumprem o que prometem, por outro, precisamos delas para evitarmos o confronto com o desamparo constitucional. Dito de outra forma: sabemos que são mentiras, mas fingimos não sabê-lo, e isso mantém, ilusoriamente, o laço social.

Neste texto, gostaria de discutir como ilusão e mentira se apresentam no mundo contemporâneo e, como participam nos processos de subjetivação.

 

As ilusões

Não nos passa despercebido, como bem o observa Eugène Enriquez (1986) em seu texto Immuable et changeante illusion: l'illusion nécessaire, o quanto o termo ilusão, tão caro a Freud, tem despertado pouco interesse nos psicanalistas. Parece sintomático, além disso, que o vocábulo ilusão não tenha encontrado lugar no célebre Dicionário de Psicanálise de Laplanche Pontalis, obra de referência da psicanálise, como se ele não merecesse estar presente ali ao lado de outros conceitos clássicos. "A ilusão é uma noção chave (senão um conceito) na arquitetura do pensamento freudiano sobre o social" (Enriquez, 1968, 135).                                                      

Em Totem e Tabu, Freud já anunciara a importância da ilusão ao dizer que após a "eliminação do pai primevo pelo grupo de filhos" (Freud, 1913, 184), o "crime principal e primevo da humanidade" (Freud, 1928, 211), os membros da horda transformaram o tirano morto em Pai idealizado e adorado – o totem é o ancestral de Deus –, criando assim uma transcendência (ilusória) que garantiria a possibilidade de uma existência relativamente estável graças às regras, em princípio, respeitadas por todos.

Este ponto de vista  ganha contornos mais precisos em Psicologia de grupo e análise do ego (Freud, 1921), quando Freud diz que o que preside o nascimento de um grupo, e o mantém unido, é o discurso de amor e a garantia de proteção por uma pessoa (ou instituição), que ama seus membros de forma igualitária sem privilegiar ninguém. Este líder, introjetado como ideal do Eu garante, graças à promessa de amor, a coesão do grupo ao mesmo tempo que projeta no exterior a agressividade de dever ser expurgada do grupo.

Sem o polo idealizado não há como uma comunidade se manter: o que a sustenta é a ilusão de sermos amados e protegidos por um ser superior e imparcial que ama a todos da mesma forma: "tudo depende desta ilusão", constata Freud (1921, 120). Caso ela venha a faltar, trazendo a dúvida sobre o amor imparcial do líder, toda a organização social desmorona, as leis não são mais respeitadas, e a luta de todos contra todos passa a imperar: o trabalho de cultura (Kulturarbeit) não se sustenta, e a pulsão de morte ganha o primeiro plano. "A ilusão, escreve Enriquez (1986, 137) é o fator central de todo processo civilizatório e organizacional".

No clássico O futuro de uma ilusão, Freud radicaliza a posição central da ilusão nos grupamentos humanos, e sustenta que toda organização social só acontece quando apoiada em torno de um ser, ou ideal, maior. Para Freud (1927) ilusão é uma crença motivada pela realização de um desejo infantil. Ela tira sua força de um dos mais prementes desejos da humanidade: a necessidade de proteção. A realização deste desejo [de proteção] é fator tão preponderante na ilusão, que a realidade é totalmente desconsiderada. É na religião, a "neurose obsessiva da humanidade" (Freud, 1927, 57), que a ilusão atinge sua mais alta expressão.

O que é característico das ilusões é o fato de derivarem de desejos humanos. (…) As ilusões não precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis ou em contradição com a realidade. Uma ilusão não é a mesma coisa que um erro (…) Podemos chamar uma crença de ilusão quando uma realização de desejo constitui fator proeminente em sua motivação e, assim procedendo, desprezamos suas relações com a realidade, tal como a própria ilusão não dá valor à verificação (Freud, 1927, 44).

Mesmo depois de nos tornarmos adultos, a necessidade de proteção permanece inalterada, pois 

Quando o indivíduo em crescimento descobre que está destinado a permanecer uma criança para sempre, que nunca poderá passar sem proteção contra estranhos poderes superiores, empresta a esses poderes as características pertencentes à figura do pai; (…) É a defesa contra o desamparo infantil que empresta suas feições características à reação do adulto ao desamparo (Freud, 1927, 36).

Com o passar do tempo, é verdade, adquirimos uma certa autonomia, mas a nostalgia do passado continua a nos atrair sobretudo quando o presente nos parece doloroso, o que acontece com frequência. Voltamo-nos, então, para o passado – quando “eu era feliz e ninguém estava morto” (F. Pessoa) – na esperança de ali reencontrarmos o encantamento de nossa infância lembrada, fantasmaticamente, "como uma época de ininterrupta felicidade” (Freud, 1939, 89). Entretanto, nas inevitáveis situações de desamparo com as quais nos deparamos ao longo da vida, quase sempre reagimos segundo o protótipo construído na infância: buscamos alento tanto no mundo interno quanto no externo. Isto é, nas construções psíquicas imaginárias, assim como nos laços sociais que o mundo externo nos oferece, os quais variam segundo a cultura e o momento histórico: todos nós, cada um a sua maneira, estamos sempre em busca de proteção na esperança de sermos confortados no desamparo.

A perspectiva freudiana não deixa dúvida: por permanecermos eternamente crianças, teremos sempre a necessidade de uma ilusão para acolher nosso desamparo constitutivo. Para nos sentirmos amparados e, mais ainda, para termos nossas ações caucionadas por um ser superior – o pai, Deus, o chefe, a comunidade, os líderes, as instituições – não medimos esforços: tudo é bom, desde que nossas angústias sejam acolhidas e nosso mais antigo desejo infantil [de proteção] realizado. 

Após chegar a estas conclusões surpreendentes, Freud não se deixa intimidar e leva ainda mais longe suas indagações, ao perguntar se a organização social, como um todo, não seria também uma ilusão:

Após termos identificado as doutrinas religiosas como ilusões, somos imediatamente defrontados por outra questão: não poderão ser de natureza semelhante [também ilusões] outros predicados culturais de que fazemos alta opinião e pelos quais deixamos nossas vidas serem governadas? Não devem as suposições que determinam nossas regulamentações políticas serem chamadas também de ilusões? (Freud, 1927, 47).

Enfim, as considerações freudianas nos deixam encurralados: com efeito, somos seres de crença, capazes de acreditar em qualquer coisa. Tudo é bom, desde que o nosso narcisismo seja assegurado, a ilusão da proteção mantida, e o desamparo evitado, por mais que a realidade nos mostre o contrário. Não é a realidade que une os homens, mas os sonhos: vemos o que queremos ver; acreditamos na Providência Divina, nas promessas sociais, na ajuda dos amigos e dos parentes, na loteria… enfim, em tudo que, ilusoriamente, nos conforta, seja o objeto de nossa crença real ou  imaginário; visível ou invisível: Credo quia absurdum.

 

Breves considerações sobre o desamparo constitucional

Embora uma discussão mais detalhada sobre o desamparo (Hilflosigkeit)[3] tenha sido feita em um trabalho anterior (Ceccarelli, 2011), gostaria apenas de ressaltar alguns pontos sobre o tema na obra freudiana. O desamparo orgânico se origina na etapa inicial da vida quando o bebê humano necessita de uma "assistência alheia" (fremde Hilfe) (Freud, 1926, 179) uma ajuda de fora – para aliviar a tensão do organismo, posto que o recém nascido não é capaz de efetuar a ação necessária que o levará à diminuição desta tensão: à experiência de satisfação.

Quando a necessidade de alimento se apresenta novamente, a primeira ilusão é criada: a satisfação alucinatória do desejo, graças ao reinvestimento de traços da primeira experiência de satisfação, o que torna suportável a espera do objeto de satisfação (o alimento), e evita desamparo orgânico.  

Juntamente com este desamparo, existe o desamparo psíquico, pois o recém nascido não é capaz de lidar com as exigências pulsionais filogeneticamente herdadas (Freud, 1987) por não possuir, no início da vida, um aparelho psíquico capaz de responder às demandas pulsionais. É ai que Eros, responsável pelas ligações pulsionais, entra em ação para produzir investimentos libidinais que confortam imaginariamente o Eu em constituição. O universal do desamparo se singulariza na história de cada um, a partir da relação de total dependência que a criança estabelece com quem a acolhe ou seja, com quem lhe deu vida psíquica.

Esta situação gera uma dinâmica pulsional que exige um novo tipo de “alimento”, desta vez psíquico: afeto, amor, reconhecimento, palavra, linguagem… gerando uma nova forma de dependência, a psíquica. Esta via de descarga marca nossa dependência com o Outro, fazendo do desamparo inicial dos seres humanos "a fonte primordial de todos os motivos morais" (Freud, 1950 [1895], 422). Ou seja, para Freud a introjeção do sistema de valores morais da sociedade na qual o sujeito está inserido ocorre como uma tentativa de encontrar suporte ao desamparo.[4]

A primeira relação de dependência que o recém-nascido estabelece é com quem o acolhe quando de sua chegada ao mundo, dando-lhe viva psíquica; a este outro são atribuídos poderes sem limites. Mais tarde, ele é substituído pelos deuses ou por aqueles que acreditamos possuírem capacidades mágicas e poderes ilimitados (Ceccarelli & Lindenmeyer, 2012). Em contrapartida, esperamos ser amados e protegidos por eles, e estamos prontos a tudo para não perder a ilusão de que sob sua proteção, nada nos acontecerá.

Os destinos desta dependência são inúmeros. Dentre eles, temos as religiões, as ligações inquestionáveis aos mestres, às teorias tomadas como verdades, as adições e, provavelmente, as que mais nos fazem sofrer: nossas relações com o outro nas quais “a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecer" (Freud, 1930, 83). Enfim, a dependência psíquica, em suas inúmeras expressões discursivas, nos dão a ilusão de sermos confortados e acolhidos por um outro que, imaginariamente, nos ampara (Ceccarelli, 2011).

 

As mentiras

Em Freud, até onde pude pesquisar, a mentira é tratada duas vezes de forma significativa. A primeira, ocorre na sessão de 7 de abril de 1909 da Sociedade Psicanalítica de Viena. Naquele dia, Otto Rank apresentou um texto intitulado De la psychologie du mensonge (Minutes, 1978, 193-204).  De forma resumida, podemos dizer que para Rank toda mentira, quando não ligada à pressões circunstancias, contém uma fragmento de verdade, isto é, uma tentativa de realização de desejo. Uma das características mais impressionante da mentira é a sua extraordinária resistência contra toda prova ao contrário: por mais que seja evidente que se trata de uma mentira, o sujeito resiste obstinadamente a admitir o fato. E quando finalmente é obrigado a fazê-lo, pois não é mais possível sustenta-la, o sentimento é de vergonha. A partir dai, Rank sugere que a mentira dissimula um complexo sexual o qual, na grande maioria dos casos, está ligado à masturbação, ou melhor, à dissimulação da masturbação infantil. Para Rank, "todas as crianças mentem, provavelmente, da mesma forma que todas as crianças se masturbam" (Minutes, 1978, 195). Para o autor, o mecanismo "normal" da mentira atrela-se à sexualidade, tornando-se susceptível de uso patológico. Quando este expediente é bem sucedido, a via está aberta pra o desenvolvimento do "caráter mentiroso".

Após a apresentação do texto de Otto Rank, seguiu-se uma calorosa discussão. Já de início, Stekel fez uma observação interessante segundo a qual "a mentira é a primeira moção da força criadora" (Minutes, 1978, 200).

Quanto a Freud, embora reconhecendo a diligência com a qual Rank abordou um tema bastante complicado, discorda bastante das hipóteses apresentadas, além de ter achado o texto apresentado muito longo, e que não estava pronto para publicação. Para Freud, a tendência da criança é, em um primeiro momento, dizer a verdade. Quando mente,

a criança imita os adultos que lhe dissimulam fatos da vida sexual e que mentem dando-lhes falsas informações sobre estes fatos; é então que a criança sente-se no direito de mentir. Trata-se, naturalmente, de aspectos ligados à sexualidade, mas não há conexão direta com a masturbação. O importante é fazer uma clara distinção entre a mentira e a atividade fantasmática (Minutas, 1978, 201).

Adler concorda com alguns pontos apresentados por Rank e reafirma o que dissera quanto tratou o assunto em data precedente: "a mentira é necessária para que um certo equilíbrio psíquico se mantenha" (Minutes, 1978, 202). Um outro ponto importante que Adler sublinha é o fato que para bem se compreender a mentira é necessário levar-se em conta a pulsão agressiva.

Sadger, concorda com a relação mentira/masturbação, mas a entende sob outra ótica. Para ele, o fato dos jovens, em pleno desenvolvimento pubertário, sempre dizerem as verdades "na cara", de forma clara e aberta teria relações com a reaparição da masturbação, que traria, juntamente, uma necessidade intensa de verdade, que se manifesta como uma reação a um segredo – a masturbação – escondido de todos.

Em Duas mentiras contadas por crianças (Freud, 1913b) a mentira é tratada de forma direta. Embora reafirmando seu ponto de vista sustenta quando da conferência de Rank – as crianças, imitam as mentiras contadas pelo adultos – Freud traz novos pontos de vista em relação a algumas mentiras que constituem preciosas indicações clínicas:

Estas mentiras ocorrem sob a influência de sentimentos excessivos de amor e se tornam momentosas quando conduzem a uma má compreensão entre a criança e a pessoa que ele ama (Freud, 1913b, 385).

Freud apresenta seus pontos de vista através de dois casos clínicos. No primeiro, a mentira esconde desejos incestuosos pelo pai; sua revelação é vivida como uma humilhação, carregada de culpa, por desvelar tais desejos. No segundo caso, sua paciente mentia para sustentar a imagem de um pai poderoso, embora ele passasse por dificuldades financeiras. Aceitar que o pai não ocupasse este lugar idealizado no qual ela o colocara equivaleria a aceitar a vergonha de um amor incestuoso, logo, inconfessável.

No final do artigo, embora Freud nos advirta do perigo de "interpretar más ações infantis como prognóstico de desenvolvimento de mau caráter" (Freud, 1913b, 398), ele o conclui dizendo que:

Não obstante, elas [as mentiras] se acham intimamente vinculadas às forças motivadoras mais poderosas nas mentes das crianças e anunciam disposições que levarão a contingências posteriores em suas vidas ou a futuras neuroses (Freud, 1913b, 389).

Na clínica, muitas vezes, deparamo-nos com as "forças motivadoras" das quais nos fala Freud. Embora, provavelmente, a maior mentira seja dizer "eu nunca minto" existem, de fato, pessoas que não suportam mentir, por mais branda que esta seja. E quando o fazem, são tomadas por tamanha angústia que, não raro, encontram uma maneira de dizer a verdade. Em alguns destes casos, a clínica nos revela que por trás desta compulsão em dizer a verdade existe um segredo transgeracional que jamais deve ser revelado; sobre o qual há um silêncio que todos são cumplices: situações traumáticas, abusos sexuais, lutos não elaborados, violências. Estas e outras, podem tornar-se segredos de família inconfessáveis que faz com que o dizer sempre a verdade seja uma formação reativa a esta imposição ou, talvez, uma maneira de expiar tais segredos; como se o peso do segredo levassem estas pessoas a desenvolver uma necessidade para dizer a verdade. Mas, o oposto também se observa: mentir obstinadamente, pois existe um segredo que  não pode ser revelado.

A mentira é também usada para não ter que lidar com fatos insuportáveis que devem ser mantidos reprimidos – o termo é repressão (Unterdrückung) e não de recalque (Verdrängung) -, pois é melhor mentir para si mesmo que encarar a verdade. Tais situações podem chegar à mitomania no qual observa-se uma tendência compulsiva a mentir. A diferença entre o "mentiroso tradicional" e o mitômano é que o primeiro não hesita muito em admitir que está mentindo; já o segundo, pode chegar ao ponto de tratar suas mentiras – que podem ser simples ou mais elaborados – como verdade inquestionável, transformando a compulsão a mentir em um estilo de vida.

A mentira pode ainda tornar-se um vício, uma dependência como qualquer outra. Os "dependentes" da mentira sabem que estão mentindo, mas não conseguem evita-lo, da mesma forma que ocorre nas outras adicções. Nestes casos, existem sofrimento psíquico e, não raro, estes sujeitos procuram ajuda psicológica.

Fora os exemplos relatados, no nosso cotidiano a mentira é frequente: existem as aceitáveis, senão desejáveis,  que as convenções sociais obrigam. Lançamos mão de mentiras para evitar a explicitação de situações desagradáveis tais como: fazer um falso elogio, esquivarmo-nos de perguntas indiscretas e formais de pessoas pouco conhecidas, evitar um encontro social indesejado, ou ainda para dizer a alguém o que ela quer ouvir. Mentimos para evitar que verdades desagradáveis e dolorosas venham à tona, para se proteger alguém que se ama, e assim por diante. Tais mentiras são convencionalmente aceitas pela grande maioria das pessoas, e não sofrem desaprovação moral: são as chamadas "mentiras brancas". Mas, existem igualmente as mentiras sócio-políticas, cujas consequências podem ser graves: é comum mentiras serem usadas pelos governantes, e isto em qualquer regime político, para encobrir e/ou justificar ações de seus interesses. Um exemplo, cujos desdobramentos refletem até hoje, foi o argumento – mentiroso – da existência de armas químicas para justificar a invasão o Iraque. Diariamente ouvimos promessas governamentais, sobretudo em época de campanhas eleitorais, que nos fazem rir tamanha a sua inverossimilidade.  Em época de guerras e conflitos, a mentira é fundamental para manter o moral da tropa.

 

Ilusões e mentiras

Como vimos, ilusões e mentiras ocupam lugares diferentes na topologia psíquica. Enquanto a primeira é regida por dinâmicas inconscientes ligadas ao desamparo constitutivo do humano, a mentira, quando não indicador de futuras neuroses (Freud, 1913b), responde a uma dinâmica inter e extrasubjetiva consciente. Se na ilusão a sujeito não sabe que sua crença é baseada em um desejo infantil – em geral, ninguém sabe que está sendo levado por uma ilusão ao acreditar, por exemplo, no amor igualitário do líder -, na mentira o sujeito está plenamente consciente de que não está dizendo, ou nem ouvindo, a verdade.

Mentiras e ilusões sempre caminharam juntas ao longo da história da humanidade nas inúmeras tentativas, sempre sem sucesso e constantemente renovada, para lidar com o desamparo constitucional (Ceccarelli, 2009). Não é por acaso, que qualquer mudança é vista como um ameaça, pois coloca em questão as ilusões e as mentiras que sustentam o estado de coisas vigente. Exemplos não faltam: na Idade Média, quem ousasse questionar a participação de tudo que é vivo – plantas, animais, seres humanos – na cadeia dos seres, quem questionasse a hierarquização da escala de valores e verdades, diretamente ligada à vontade Divina, na qual homens e mulheres tinham lugares definidos e imutáveis,  corria o risco de ter a língua arrancada, o corpo torturado, queimado – os Tribunais da Inquisição – para que a ordem "natural" e imutável fosse preservada.

Os grandes descobrimentos, o surgimento do Estado Moderno, as mudanças religiosas – reforma e contra-reforma – o descentramento da Terra, tudo isto provocou o que Freud chama a "primeira grande ferida narcísica". O novo arranjo discursivo construído a partir de uma nova visão de mundo, fez com que o homem perdesse suas referências: mentiras e ilusões que lhe davam a sensação de segurança.

Toda mudança que afeta o tecido social nunca é aceita sem dificuldade: ela só é possível através do trabalho de luto das representações que, até então, balizavam nossa locomoção no simbólico. Trata-se do “mito do enfraquecimento da regra social” (Ehrenberg, 2004, 140), que nos leva a acreditar que a ordem simbólica na qual estamos inseridos é imutável. Entretanto, se os modelos que construímos não mais nos amparam é uma prova que toda leitura do mundo é historicamente datada. Desvelar as ilusões e as mentiras que sustentam a ordem social provoca, inevitavelmente, o retorno dos eternos questionamentos: quem somos? de onde viemos? para onde vamos? o que nos constitui como sujeitos? o que vai acontecer diante de tantas mudanças? e assim por diante.

É por isto que,  do ponto de vista da dinâmica psíquica e das configurações da angústia, fica difícil dizer sobre as diferenças nos processos de subjetivação quando tudo era garantido e explicado pelos desígnios de Deus (Idade Média), quando a ciência nos dava as explicações e garantia um futuro previsível (Modernidade), ou ainda quando não existem garantias (Pós-modernidade).

Se cada época tem a sua própria configuração de angústia, pode-se imaginar que antes da modernidade as incertezas encontravam acolhimento nas identidades culturais e nas comunidades religiosas que ofereciam referências – ilusões e mentiras – claras e tranquilizadoras. Quando a economia de mercado transforma os sujeitos em concorrentes potenciais, observamos um acirramento do sentimento de solidão, pois as ilusões e as mentiras são desmascaradas, evidenciando o desamparo. Como tentativa de escapar a esta configuração psíquica, muitos lançam mão de comportamentos aditivos – drogas, violência, posições fundamentalistas de todo tipo, compulsividade sexual, e muitas outras – para evitar o contato com o desamparo: "com o auxílio desse ‘amortecedor de preocupações' [aqui as ilusões e as mentiras cumprem esta função], é possível, em qualquer ocasião afastar-se da pressão da realidade e encontrar refúgio num mundo próprio, com melhores condições de sensibilidade" (Freud, 1930, 97).

 

Reflexões finais

Não nos passa despercebido como a perda das ilusões e os desvelamento das mentiras, que subjazem questões tais como a desesperança, a falta de perspectiva e de confiança no futuro, e outras tantas inquietações, nos interpelam de diversas maneiras. Tais temáticas estão cada vez mais presentes nas produções acadêmicas, qualquer que seja a área do conhecimento, nas publicações, nos trabalhos, em congressos, encontros, grupos de estudo… No espaço público, nos deparamos igualmente com manifestações populares – religiosas, políticas, e suas soluções – que tem arrebatado cada vez mais adeptos em busca de respostas, como atesta o significativo aumento de movimentos fundamentalistas.

Em O mal-estar na cultura, considerados por alguns como uma metapsicologia da Cultura (Di Metteo, 1999), Amor e Necessidade [Eros e Ananke] são tidos como “os pais da civilização humana” (Freud, 1930, 121). Se Eros produz investimentos de objeto indispensáveis para a manutenção do processo civilizatório, a ação de Ananke sobre Eros  mostra que não vivemos em civilização sem sofrimento, e que devemos abandonar nossos grandes projetos de felicidade para nos contentarmos com a ausência de sofrimento: a civilização não torna os homens mais felizes, pois a função individualizante do sexual, do narcisismo, resiste. O progresso científico, com o qual tanto Freud sonhara (a ilusão freudiana?), não foi acompanhado de nenhum aumento do nível de satisfação e de prazer esperado, pois as satisfações são sempre parciais (Freud, 1915).

As guerras e os conflitos, que desde sempre acompanham os homens, atestam que basta uma pequena ameaça narcísica que desmascare a ilusão, ou que revele os fatos que a mentira escamoteava, para que as ligações sustentadas por Eros se desfaçam. A crise econômica que assolou o mundo no final de 2008, e da qual ainda não nos livramos, desvelou a perversão do sistema ao mostrar o quanto os ganhos financeiros foram artificialmente criados: mais uma vez, a mentira foi usada como um organizador social para que a ilusão fosse mantida.

Aquele que pensa diferente, que tem outra religião, que tem outra história ou outras referências identificatórias, outra teoria, transforma-se em alvo privilegiado das pulsões agressivas e destrutivas, se ele ameaça revelar o desamparo (psíquico) ao denunciar as ilusões e as que nos sustentam. E mesmo nas relações mais próximas – família, casal – o amor pode transforma-se em um ódio nunca imaginado, pois nada é mais insuportável do que sermos decepcionados pelo nosso objeto de amor.

Alguns dos aspectos que marcam a contemporaneidade discutidos neste texto, que estão longe de serem exaustivos, refletem necessariamente nos processos de subjetivação. Como sabemos, os ideais sociais fazem parte dos processos identificatórios constitutivos do sujeito (Ceccarelli, 2012). Embora, como esperamos ter mostrado, desde sempre ilusões e mentiras façam parte destes ideais, observa-se na atualidade um excesso de ilusões e mentiras, em detrimento do índice de realidade mínimo para que as frustações geradas pelo mal-estar sejam suportadas. O tempo nos dirá sobre as consequências desta nova configuração simbólica nos processos de subjetivação. Um mundo sem Eros? Sem ilusões que o sustente? …

Seria difícil imaginar uma organização social onde ninguém mentisse; um mundo sem desculpas, onde só a verdade fosse dita, doa a quem doer: "não me esqueci de seu aniversário mas, não liguei porque não gosto de você"; "a sua plástica não ficou boa e não esconde a sua idade"; "como você pode usar uma roupa tão feia assim?"; "o trabalho que você apresentou estava péssimo. Como você conseguiu escrever tanta bobagem?" "Nunca comi algo tão ruim quanto o jantar que você serviu". A estes exemplos poderíamos acrescentar muitos outros, o que nos leva a constatar, ao que tudo indica, que não vivemos sem mentiras. Elas organizam o social e, de certa forma, evita o contato com conteúdos psíquicos violentos e agressivos que, se revelados, poriam em risco os laços sociais, ou seja, a possibilidade de vivermos em sociedade.

Se, por um lado, as mentiras servem, como no exemplo do porco-espinho citado por Freud (1930), para mantermos a distância necessária para suportar os outros, por outro lado elas podem assumir um caráter perverso quando adquirem o estatuto psíquico da ilusão: uma crença motivada pelo desejo infantil de proteção na qual a realidade não é levada em conta.

 

Bibliografia

CECCARELLI, P. R. Laço social: uma ilusão contra o desamparo. Reverso, Revista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ano XXXI, n.58, p.33-42, set. 2009.

________________. Reflexões sobre a economia psíquica da adicções. Reverso, Revista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ano XXXIII, n.62, p. 69-78, set. 2011.

________________. Mitologia e repressão. In: Encontro transcultural: subjetividade e psicopatologia no mundo globalizado. Pastori, S. & Nicolau, R. (Orgs). São Paulo: Escuta, p. 61- 88, 2012.

CECCARELLI, P. R. & LINDENMEYER, C.  Les avatars de la pensée magique. Cliniques Méditerranéennes, 85, p.41-49, 2012/1.

Di MATTEO, V. "Ananke" em O mal-estar na civilização: desamparo e compromisso ético. In: Revista Perspectiva Filosófica, VI, 11, Jan-jun./1999.

EHRENBERG, Alain. Les changements de la relation normal/pathologique. A propos de la  souffrance psychique et de la santé mentale. Esprit (304) 5, pp.133-156, 2004.

ENRIQUEZ, E. Immuable et changeante illusion: l'illusion nécessaire. In. Topique, Revue Freudienne, 16º année, 37, p. 135-162, mars, 1968.

FREUD, S. (1950[1895]) Projeto para uma psicologia científica. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1977. V. 1.

_________. (1913) Totem e tabu. ESB, v. XIII, 1974.

_________. (1913b) Duas mentira contadas por criança. ESB, v. XII, 1974.

_________. (1915) Reflexões para os tempos de guerra e morte. ESB, v. XIV.

_________. (1921) Psicologia de grupo e análise do Ego. ESB, v. XVIII, 1976.

_________. (1926) Inibições sintomas e ansiedade. ESB, v. XX, 1976, p.179.

_________. (1927) O futuro de uma ilusão. ESB, v. XXI, 1974.

_________. (1928) Dostoievski e o parricídio. ESB, v. XXI, 1974.

_________. (1930) O Mal-estar na civilização. ESB, v. XXI, 1974.

_________. (1939) Moises e o monoteísmo. ESB, v.XXIII, 1975.

_________. Neuroses de transferência: uma síntese. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

NUNBERG, H.; FEDERN, E. (Ed.)Les premiers psychanalystes: Minutes de la Société psychanalytique de Vienne, Tome II, 1908-1910. Paris: Gallimard, 1978.

 


[1]Texto apresentado na mesa Existência e subjetividade na cultura mundo contemporâneo no VI COLÓQUIO INTERNACIONAL DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UFRN. Natal, 10/10/2012.

 

[2]Este texto faz parte do projeto de pesquisa Perdas Mitológicas e Sofrimento Psíquico que conta com uma Bolsa de Produtividade do CNPq (processo nº: 309881/2010-2).

 

[3] A palavra desamparo é a tradução da palavra alemã Hilflosigkeit, que é composta de três palavras: Hilfe, que significa socorro; los, que pode ser definido por sem; keit que forma o substantivo. Hilflosigkeit seria melhor traduzido por “insocorribilidade”. Nós, seres humanos, somos, por definição, “insocorríveis”.

 

[4] Temos aqui, a meu ver, a origem do preconceito: aquele/a que não comunga o sistema de valores da sociedade em questão, traz a tona o desamparo constitutivo, pois mostra que o sistema de valores são calcados em construções que, ao serem apresentadas como verdades, compre sua função de ilusão.

—————————–

*Paulo Roberto Ceccarelli

Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Pós-doutor por Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Sócio do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais; Membro da Société de Psychanalyse Freudienne, Paris, França; Professor da PUC-MG; Professor no Programa de Pós-Graduação em Psicologia/UFPA; Orientador de Pesquisa e Professor do Mestrado Profissional de Promoção de Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG; Diretor Científico do CESAME (Centro de atenção à saúde mental); Pesquisador do CNPq.

E-mail: paulocbh@terra.com.br

Site: www.ceccarelli.psc.br

—————-

voltar ao topo