REFLEXÕES SOBRE O INQUIETANTE DE SER PORTADOR DE HIV/AIDS

In: Tempo psicanalítico, Rio de Janeiro, v. 44.2, p. 271-284, 2012

 

Alessandro Melo Bacchini *
Lúcia Helena da Silva Alves**
Paulo Roberto Ceccarelli***
Ana Cleide Guedes Moreira****
 

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INTRODUÇÃO

O profissional de psicologia deve estar familiarizado aos obstáculos que se mostram em sua prática, seja ela no setting clássico da clínica, ou então nos diversos lugares que têm demandado a inserção desse profissional. Obstáculos que, transformados em questionamentos, muito contribuem para a ampliação dos saberes. Dos novos campos de prática aos quais nos referimos, o hospital é o que causa o desejo pela presente pesquisa.

A escuta localizada no ambiente hospitalar deve ser circunscrita a um público específico, a saber: o paciente com HIV/Aids e suas representações imaginárias. Sobre este ponto, deve-se tomar a evolução histórica do HIV/aids, que revela incertezas desde o período inicial de isolamento do vírus responsável até os dias atuais, onde muito já se avançou, mas ainda há bastante a se percorrer no sentido do tratamento e dos cuidados destinados ao grande número de pessoas que vivem com a enfermidade.

Nesses termos, em que os diversos campos de saber ainda lutam para dar conta dessa doença, a Aids para o indivíduo parece ser representada como um estrangeiro inimigo que invade o organismo e produz efeitos da ordem do que é inquietante por reaver complexos infantis de castração, pois muitas são as novas imposições a partir desse diagnóstico: perda de peso, fragilidade imunológica, impossibilidades à relação sexual e a própria possibilidade iminente de morte. Além disso, o HIV/Aids parece trazer consigo o agravante do sexual – bem como suas representações no imaginário cultural -, pois ainda hoje é uma das principais vias de contágio. É acerca desse indivíduo que se propõe pensar uma interlocução entre o diagnóstico de aids e o sentimento estranheza na teoria freudiana.

 

2 HIV/AIDS, QUE DOENÇA É ESSA?

O que se objetiva nesse momento é apresentar uma das perspectivas possíveis para situar a evolução histórica do HIV/aids, para assim formar uma espécie de retrato aproximado da realidade que se mostra e que causa o desejo da presente pesquisa. Para tanto, vamos à história possível de apreender aqui, que pode ser dividida em quatro momentos.

O primeiro momento da epidemia se deu de 1981 a 1984 e foi acompanhado de uma busca pelos fatores de risco, etiologia e distribuição: ou seja, uma busca pelo desconhecido. Surge então a noção de “grupo de risco”. As primeiras campanhas realizadas em Nova York e São Francisco em 1983 relacionavam o terror da doença ao sexo e algumas descrições epidemiológicas nos Estados Unidos da América identificavam alguns grupos como de risco para o desenvolvimento do HIV/aids, a saber: homossexuais, hemofílicos, haitianos e usuários de heroína. As estratégias de prevenção envolviam a abstinência e o isolamento e eram referidas principalmente aos dois primeiros desse grupo (homossexuais e hemofílicos), o que provocou uma série de questionamentos éticos sobre discriminação e abstinência, pois se é uma doença transmissível sexualmente, e todos estão sujeitos, por quê pensar especialmente nesse grupo de pessoas? (AYRES, et al, 1999).

Pensando no Brasil, nesse início, percebe-se que a aids foi tomada como uma doença vinda do exterior, especialmente relacionados aos Estados Unidos da América – Nova Iorque. A notificação dos primeiros casos brasileiros, em 1984, foi assim relacionada: 134 pessoas no total, número que cresceu exponencialmente em um único ano, pois em 1985, foram 553 casos, sendo 256 homossexuais, 28 heterossexuais, 38 UDIs e os dois primeiros casos de transmissão vertical. É importante notar que já haviam mulheres infectadas desde o início da epidemia (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2009).

O segundo período da epidemia se dá entre 1985 e 1988, quando o caráter transmissível se delimita e o agente etiológico é isolado. Nesse ponto, criam-se novas alternativas de prevenção que não somente a simples abstinência, como o Center of Disease Control and Prevention (CDC), que recomendou o uso da “camisinha”. Neste mesmo ano, na primeira Conferência Internacional sobre aids, recomendou-se falar pela primeira vez que a transmissão se dava pelo uso de agulhas contaminadas e por contato sexual, independente da orientação sexual. Esta alteração muda o cenário do “grupo de risco” para o “comportamento de risco” que cria estratégias de redução de risco – controle de banco de sangue, atenção aos usuários de drogas injetáveis, uso de preservativo, divulgação de informações (KALICHMAN, 1993).

A utilização da noção de “comportamento de risco” em contraponto ao “grupo de risco” traz um caráter universal de contágio, no qual não apenas determinadas pessoas deveriam ser assistidas, pertencentes a uma classificação, pois todos estão sujeitos ao contágio. Então a responsabilidade recai ao indivíduo, e seus atos. Por outro lado, esta nova noção carrega um caráter regulador, no qual comportamento é um sinal ou sintoma a ser diagnosticado e tratado. Além disso, há um efeito culpabilizador, pois a abstinência e a prevenção é uma questão individual nesta noção (AYRES, et al, 1999; KALICHMAN, 1993).

Outro momento da epidemia pode ser datado em meados de 1989 até 1999, no qual houve uma maior percepção dos limites das estratégias de mudanças no comportamento – motivação e informação não garantem necessariamente uma mudança significativa. Além disso, houve um aumento sensível de casos em segmentos mais vulneráveis da sociedade – mulheres, jovens, pobres e negros. A noção de vulnerabilidade descrita por Mann et al (1992), considera que a probabilidade de contágio leva em conta aspectos individuais e coletivos, o que proporciona uma nova maneira de abordar o problema. Ainda dentro desse período, no ano de 1996, se deu o início da terapia antirretroviral que alteraria os rumos da epidemia, na qual o Brasil se destaca como um país pioneiro na garantia de tratamento universal e gratuito. Desde então, este tratamento foi o principal fator associado à diminuição da mortalidade provocadas pela aids e o aumento da população que vive com o vírus (POLISTCHUCK, 2010).

Pode se considerar um quarto momento que vai do ano 2000 até a presente data, com a grande disseminação dos antirretrovirais e o grande número de pessoas vivendo com aids. Nesse período, destaca-se a atenção às pesquisas que levam em conta os fatores socioculturais e afetivos – apesar de já existirem desde 1990. Surgem espaços para uma nova discussão: viver com aids, com a medicação e seus efeitos colaterais, com o preconceito, etc. O que passa a estar em pauta não é mais somente a não transmissão, mas como viver após o diagnóstico (GRANICHA, et al, 2010).

Conforme nos diz Polistchuck (2010), o conceito de vulnerabilidade revisa o de responsabilidade no sentido de não colocar o plano individual como único fator determinante de algum resultado específico, preservando, no entanto, o caráter ativo individual nos processos de mudança.

A análise da vulnerabilidade, que tem se mostrado o novo paradigma para lidar com a aids, envolve três eixos: individual – que leva em conta o grau de informação que o paciente possui e incorpora em seu cotidiano; social – os meios disponíveis para o acesso à informação, e; programático – envolve a presença ou não de monitoramento de programas nacionais, regionais ou locais de prevenção e cuidado relacionado ao aids (AYRES, et al, 1999).

Tem-se então um breve panorama da repercussão que a aids provoca no mundo. No início, alguns anos de incerteza se passaram desde o primeiro caso até a descoberta do fator etiológico da doença. Além disso, a descoberta de um tratamento eficaz se deu a custa de anos, deixando os diversos saberes e indivíduos desamparados diante do horror de uma enfermidade ainda fortemente relacionada a condutas sexuais e que abre caminho para a instalação de sérias doenças oportunistas que ocasionam mortes dolorosas e em curto espaço de tempo.

De fato, muito se avançou na terapêutica do HIV/aids, o que permite até mesmo que se pense nela como uma doença crônica. No entanto, a sua história aliada à situação de diagnóstico tardio em nossa região, parece favorecer uma colagem imaginária entre aids e morte. Assim, questiona-se: como viver com esse vírus que passa a habitar os corpos e carrega consigo tantas representações inquietantes? Longe de responder a uma pergunta dessa magnitude, devemos nos debruçar ao que mais a psicanálise pode nos dizer sobre esse sentimento de estranheza e o que a experiência de escuta do indivíduo pode nos oferecer para enfim nos aproximarmos de uma compreensão desses termos.

 

A aids como inquietante

Para dar prosseguimento e se chegar finalmente a uma interlocução entre o sentimento de ser portador do vírus do HIV/aids e o inquietante, deve-se aproximar neste momento ao conceito a partir de um retorno a Freud (1919), especialmente em seu trabalho intitulado O estranho.

Neste estudo, Freud (1919, p.277) faz um apanhado geral sobre o termo em várias línguas e na literatura na busca de uma definição sobre o sentimento de estranheza, chegando a uma primeira noção: “O estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar”.  Em interlocução a essa primeira observação sobre o inquietante relacionada ao diagnóstico de HIV/Aids, pode-se perguntar: O que esta remete ao conhecido, há muito tempo recalcado? Que representações recalcadas ela reinvoca?

Com essa definição, Freud situa o significado da palavra alemã unheimlich como o oposto de heimlich (doméstico) e heimlisch (nativo), pois aqui o estranho é entendido como algo novo, diferente e exterior. No entanto, mais adiante esta noção será redefinida, pois algumas novidades podem ser assustadoras, mas nem todas elas (FREUD, 1919).

Do estudo acerca das matizes de significado da palavra heimlich, o que interessa é encontrar um significado idêntico ao seu oposto, ou seja, embora expressem idéias diferentes, não se mostram contraditórias à medida que a compreensão de estranho implica em uma prévia familiaridade.

Freud (1919) analisa a definição de Schelling sobre o Unheimlich acrescentando algo novo: Unheimlich é tudo aquilo que deveria permanecer secreto, mas veio à luz. Mais adiante, ele chama atenção para as incertezas que causam estranheza, particularmente suscitadas em obras literárias, como por exemplo, a dúvida quanto, a saber se um ser é dotado ou não de vida. Para exemplificar, Freud traz a história de O Homem de Areia, de Hoffmann, na qual, o jovem Nataniel desenvolve temores diante da idéia de um homem (representado em sua fantasia por Coppola, advogado e amigo de seu pai) que jogaria areia nos olhos dos meninos desobedientes para depois arrancar-lhes de sua face. Outro ponto inquietante no conto é a presença da boneca Olímpia, que aparentava ser uma menina, mas seria um autômato criado por Spalanzani e Coppola (este último que lhe dera os olhos).

Ao analisar esse conto supracitado, Freud (1919) afirma que o que realmente causa estranheza não poderia ser entendido somente pela incerteza intelectual, e chama atenção para a perda dos olhos como um substituto do complexo de castração, e dessa forma, relacionando um fator infantil como responsável pelo sentimento de estranheza. Além disso, a idéia de uma boneca viva não é por si só ocasionadora do medo, pois algumas crianças podem relatar uma vontade de que suas bonecas adquiram vida. Portanto, a estranheza não se relacionaria ao medo primeiramente, mas a um desejo ou até mesmo a uma crença infantil.

Pensar na imagem da perda dos olhos como um correlato do complexo de castração, nos ajuda a entender um pouco mais sobre a proposição aids/inquietante enquanto uma doença que revela uma série de comprometimentos orgânicos, assim como outras doenças graves que podem levar à morte. Apesar disso, ainda não chegamos ao que se propõe aqui como principal agravante do HIV/Aids: o lugar que a sexualidade ocupa na sociedade ocidental.

Partindo para outro ponto do texto e tomando como exemplo uma novela, ainda de Hoffman, chamada O Elixir do Diabo, Freud (1919) analisa o fenômeno do duplo como relacionado à estranheza. Assim, na novela, aparecem personagens idênticos, semelhantes inclusive em relação a conhecimento, sentimentos e experiências em comum. Ou ainda, o sujeito pode se identificar com outro de tal forma que fica em dúvida de saber quem é o seu eu (duplicação, divisão do eu).

De acordo com Otto Rank (1914) citado por Freud (1919), o duplo era originalmente uma segurança contra a destruição do ego. Tais idéias surgiram do amor próprio ilimitado, do narcisismo primário que domina a alma da criança e do homem primitivo. No entanto, superada esta etapa, o duplo inverte seu aspecto transformando-se em um anunciador da morte. As outras formas de estranheza exploradas por Hoffman podem ser avaliadas também pelo fenômeno do duplo, levando em conta uma regressão a fases da evolução em que se dá um avanço no sentimento de autoconsideração, em um período cujo Eu não se distinguira ainda nitidamente do mundo externo e de outras pessoas.

Este mecanismo do duplo merece uma ponte com outro estudo de Freud (1940 [1938]) realizado próximo ao fim de seus escritos – A divisão do ego no processo de defesa. Neste, Freud afirma que o ego de uma criança , acostumado à satisfação pulsional própria do princípio de prazer, adota um mecanismo para se proteger de novas exigências da realidade que surgem. Assim, a criança se vê entre as exigências da pulsão e as proibições por parte da realidade.

O mecanismo para lidar com esse impasse é composto por duas reações contrárias e válidas: ela rejeita a realidade e qualquer proibição, e; por reconhecer o perigo, ela assume o medo. Assim, os dois lados obtêm sua cota (FREUD, 1940 [1938], p.309): “permite-se que o instinto conserve sua satisfação e mostra-se um respeito apropriado pela realidade”. A cisão do Eu, neste presente estudo, é então relacionada ao funcionamento das neuroses em geral diante dos impasses entre a satisfação da pulsão e as exigências da realidade.

Esse mecanismo ligado ao estudo freudiano sobre o estranho pode ser visualizado na experiência hospitalar a partir de uma cena a seguir que não se revela extensiva, mas inquietante.

Em uma manhã de rotina em atendimento hospitalar, o presente pesquisador fora convocado a acompanhar a devolutiva de um resultado positivo para o exame do HIV/aids. A equipe fora composta pelo psicólogo, a residente e a médica. Quando se chegou ao leito da paciente, a médica em questão apenas pronunciou essas palavras: “Sabe aquele teste que eu falei? Pois é, eu fiz e deu positivo. Você está com aids e vai ter que se tratar […]”.

Durante essa fala grosseira, a paciente diz: “Meu Deus, eu tenho aids? Espera, eu não entendi (Silêncio). Olha, eu não consegui ouvir nada do que você está falando”. Após isso, a paciente perde momentaneamente o controle dos esfíncteres e chega a desmaiar. Essa situação relatada parece ser um correlato do que se propõe aqui em análise. A paciente escuta, mas ao mesmo tempo não escuta. Mas, como escutar de ouvidos limpos uma notícia como essa, na qual o peso vai além de uma grave enfermidade e chega a trazer à tona o inquietante do sexual e seus construtos sociais ocidentais? Talvez por isso, seja notório o excesso de sentido provocado pelo diagnóstico, pois a paciente se posiciona diante dessa dura realidade a partir de um duplo de seu Eu: eu sei/eu não sei.

Para analisar mais a fundo, deve-se ir adiante no estudo sobre o inquietante. Nota-se que Freud (1919) apresenta considerações que valorizam o enunciado no início de seu texto e podem ser descritas da seguinte forma: a teoria psicanalítica sustenta que todo afeto pertence a um impulso pulsional que pode transformar-se em angústia, caso recalcado. Assim, deve haver uma categoria na qual o elemento que amedronta pode ser o recalcado que retorna, o que permite a compreensão do uso do termo das Heimlich em oposição a das Unheimlich.

No entanto, mais adiante Freud (1919) levanta a questão de que nem tudo que evoca desejos recalcados e modos superados de pensamento, que pertencem à pré-história do sujeito e das massas é por causa disso, estranho. Dessa forma, há a distinção teoricamente relevante entre: o estranho que provém de complexos infantis recalcados, do complexo de castração, das fantasias de estar no útero, etc. (que são pouco recorrentes na vida real) ligados à realidade psíquica e, portanto, implicando numa repressão real de algum conteúdo de pensamento e num retorno desse conteúdo; e o estranho ligado à onipotência de pensamentos, à pronta realização dos desejos, a maléficos poderes secretos e retorno dos mortos, relacionados a uma realidade material. Poder-se-ia dizer então que no primeiro caso, o que fora recalcado é um determinado conteúdo ideativo, enquanto que no segundo caso, a realidade (material).

O que nos interessa aqui é o primeiro dessa série, ou seja, o sentido do estranho proveniente dos complexos infantis. Nesse sentido, o estranho, ocorre quando complexos inconscientes há muito recalcados são evocados por um acontecimento, real ou imaginário. Mas, o importante no estranho, é que o Unheimlich (o não familiar) já foi heimlich (familiar); é isso que foi recalcado. O homem de areia, então, revive crenças infantis de castração que já estavam lá, porém recalcadas. Assim, o HIV/Aids, como o qualquer diagnóstico de algo sem esperança, abala uma das maiores crenças narcísicas: a da imortalidade. Mas ela possui como agravante a via da contágio: o lugar que a sexualidade ocupa na cultura ocidental, pois em países da África, que possuem uma moral sexual diferenciada, onde a sexualidade não traz o estigma do pecado, da culpa, esta representação é diferente, e voltada principalmente para o narcisismo, pois anuncia a morte (CECCARELLI, 2007).

Pode-se ir mais além ao se pensar na ação do recalque. Pela sua ação, o percurso pela identificação e pelas escolhas de objeto não passa por uma escolha que obedeça às características do consciente, mas a do inconsciente. Como sabemos, o cenário erótico do adulto é sobredeterminado pela polimorfia da sexualidade infantil inconsciente, que é por sua vez, percebida pelo Eu como “estranho” (Unheimlich), justamente por ser porta-voz de um outro que não é mais familiar.

Nesse caminho, deve-se lembrar que a vida sexual é feita de encontros – envolvem contextos e objetos, como: um jeito, uma parte do corpo, etc. – que despertam o desejo e nos capturam.  Estas são situações fantasmáticas ou reais, que provocam algo em nós a partir desse encontro entre o sujeito e o outro, especialmente quando este parece encarnar algo da história daquele sujeito. Nesse sentido, existiria liberdade sexual? Logicamente, esse capturar pode ser negado a partir de um querer consciente, pois mesmo sendo impossível evitar sentir, pode-se escolher não ceder. Nesse jogo entre a lógica consciente e inconsciente, nota-se que a dificuldade da escolha é diretamente proporcional ao elemento pulsional envolvido. Ou seja, quanto maior a sua força, ou quanto mais estranha (Unheimlich) a sexualidade é experimentada pelo sujeito, menor será a sua capacidade de se posicionar em relação às demandas do Isso (Id). Com isso, pode-se mesmo afirmar que o Unheimlich é o sexual em si – este estranho que nos habita -, e quando somos "pegos" por ele, como no caso do HIV/aids, isto nos remete ao estranho do sexual (CECCARELLI, 2012).

 

Considerações finais

Através das interlocuções dispostas até aqui, pôde-se notar para além do orgânico, um sofrimento que parece dizer respeito ao incômodo de se viver com esse estrangeiro que nos habita e que é em parte tocado a partir do diagnóstico de HIV/aids. É desse estrangeiro que aqui se versa. O HIV/aids, bem como outras doenças graves, parece reeditar os complexos infantis de castração incidindo não somente nas restrições do corpo que agora necessitará de novos cuidados, mas nas construções identitárias e nos ideais até então seguidos. O paciente que recebe o diagnóstico de aids parece ter de ser agora um outro. Mas que outro? Normalmente o que se escuta nas enfermarias é que ele deixará de sair para festas, deixará de ter estes ou aqueles comportamentos, e buscará dar um rumo à sua vida. O que parece importar é que algo deve mudar, ou melhor, já não dá para ser como se era.

Certamente podemos pensar que em várias doenças, os impedimentos orgânicos obrigam as pessoas a adotarem novos cuidados, mas no que diz respeito ao HIV/ aids, novas questões entram em cena por ser esta uma essa doença carregada de estigmas relacionados basicamente à moral sexual e ao imaginário social que produz efeitos marcantes aos ideais identificatórios do indivíduo. Com isso, pode-se acrescentar os seguintes questionamentos: Que resposta o indivíduo passa a esperar do Outro? Como ele se situa neste Outro que, agora, lhe parece estranho?

Os pacientes nos ensinam isso quando prometem mudar de vida. A aids parece agregar ao indivíduo uma nova e penosa identidade: aidético. Nesse ínterim, exige-se delicadeza em escuta. É fundamental atentar para essas representações, pois o psicoterapeuta, ao lidar com o paciente com aids, pode-se deparar com estas e inúmeros novos desdobramentos, para que possa caminhar com esse indivíduo em direção às possibilidades e saídas que ele possui.

Para tanto, seria oportuno levar a cabo novas pesquisas que trouxessem exemplos de como esses pacientes passaram a viver depois do diagnóstico. Quais estratégias psíquicas eles conseguiram dispor para lidar com esse sentimento de estranheza? Que novos ideais e identificações passaram a fazer parte de sua trama psíquica para que eles pudessem não apenas sobreviver à aids, mas continuar a viver? Estas serão algumas questões que nortearão nossas pesquisas futuras.

Esses e outros questionamentos apontam novamente para o que já dissemos inicialmente em relação aos saberes que lidam com essa problemática. Muito se avançou, mas ainda há um terreno fértil a conhecer e a contribuir no que diz respeito ao cuidado com o paciente com aids.

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REFERÊNCIAS

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CECCARELLI, P. R. (2007) Mitologia e processos identificatórios. In: Tempo Psicanalítico. Rio de Janeiro, vol. 39, p. 179-193.

_______________________. (2011) Acaso, repetição e sexualidade: como colocar "camisinha" na fantasia?  In: Guedes Moreira; Ribeiro de Oliveira; Piani (org). Cuidando da saúde – práticas e sentidos em construção. Belém: Pakatatu (no prelo)

FREUD, S. A Dinâmica da Transferência (1912). In: Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. Vol. XII.

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__________. Sobre o início do tratamento (1913). In: Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. Vol. XII.

__________. O estranho (1919). In: Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1969. Vol. XVII.

__________. A divisão do ego no processo de defesa (1940 [1938]). In: Edição standard brasileira das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1972. Vol. XXIII.

GRANICHA, R.; CROWLEYA, S.; VITORIAA, M.; SMYTHA, C.; et al. (2010) Highly active antiretroviral treatment as prevention of AIDS transmission: review of scientific evidence and update. Current Opinion in AIDS and AIDS, 5:298 – 304.

KALICHMAN, A. O. (1993) Vigilância Epidemiológica de AIDS: recuperação histórica de conceitos e práticas. Tese de doutorado. Instituto de medicina, universidade de São Paulo.

LEBREGO, Arina Marques. (2008) Estudo psicanalítico sobre a feminização da epidemia do HIV/AIDS com usuários do Hospital Universitário João De Barros Barreto. Tese Mestrado, Universidade Federal do Pará.

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MOREIRA, Ana Cleide Guedes. (2002) Clínica da melancolia. São Paulo: Escuta/Edufpa.

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MOURA, Marisa Decat de. (2000) Psicanálise e urgência subjetiva. In: MOURA, Marisa Decat de. Psicanálise e Hospital. 2ª Ed. Belo Horizonte: Revinter Ed.

POLISTCHUCK, Ligia. (2010) Mudanças na vida sexual após o sorodiagnóstico para o AIDS: uma comparação entre homens e mulheres. São Paulo [Dissertação de mestrado – Faculdade de Saúde Pública].

Portal da Saúde, Ministério da Saúde do Estado de São Paulo. Disponível em: www.Aids.gov.br

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Sobre os autores

*Alessandro Melo Bacchini

Psicólogo pela Universidade da Amazônia; Especialista em Psicologia Hospitalar e da Saúde pelo Instituto de Ensino e Pesquisa em Saúde (IEPS); Mestre em Psicologia Clínica e Social pela Universidade Federal do Pará e; membro do Laboratório de Psicanálise e Psicopatologia Fundamental : Belém-PA.

 

**Lúcia Helena da Silva Alves.

Mestre pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP; Psicóloga do Hospital Universitário João de Barros Barreto – HUJBB e; membro do Laboratório de Psicanálise e Psicopatologia Fundamental : Belém-PA.

 

***Paulo Roberto Ceccarelli.

Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Pós-doutor por Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Sócio do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais; Membro fundador da Rede Internacional em Psicopatologia Transcultural; Professor da PUC-MG. Professor credenciado a dirigir pesquisas, e docente no Programa de Pós-Graduação em Psicologia/UFPA; Pesquisador do CNPq. (processo nº: 309881/2010-2)

 

****Ana Cleide Guedes Moreira.

Mestre e Doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP. Professora do Programa de Pós-Graduação Mestrado em Psicologia, Hospital Universitário João de Barros Barreto, Laboratório de Psicanálise e Psicopatologia Fundamental da Universidade Federal do Pará. Pesquisadora da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental. Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Eneida de Moraes sobre Mulher e Relações de Gênero. Chercheur associé à l’ Université Paris 7 Denis-Diderot.

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