O GOZO EXTÁTICO DO EXPECTADOR DE UMA CENA PERVERSA

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O GOZO EXTÁTICO DO EXPECTADOR DE UMA CENA PERVERSA(1)

in Mal-estar e subjetividade, Vol. IV, 2, p. 266-276, set. 2004.


Autores
:

Paulo Roberto Ceccarelli
Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Sócio de Círculo Psicanalítico de Minas Gerais; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG (graduação e pós-graduação).
e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

Luís Flávio Couto
Doutor em Filosofia pela UFRJ, pós-doutoramento em Psicanálise pela Université Paris 8, Professor de Psicanálise da UFMG, PUC MInas e Unicentro Newton Paiva. Correspondente da Escola Brasileira de Psicanálise seção Minas Gerais.
e-mail: luisflaviocouto@terra.com.br

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Procuramos neste trabalho circunscrever o ponto nodal, o ponto traumático, de um expectador que, submetido à visão de uma cena que na sua dinâmica psíquica é percebida como perversa, se vê enredado num gozo extático.

Esse estado, caracterizado como uma espécie de paralisia motora carregada de susto, que deixa o sujeito que a testemunha perplexo e fascinado frente à visão da cena, merece uma atenção particular.

Trabalhamos, aqui, com o termo lacaniano extático (extatique) retirado da seguinte passagem:

No recurso que preservamos do sujeito ao sujeito, a psicanálise pode acompanhar o paciente até o limite extático do “Tu és isso” no qual se revela, para ele, a cifra de seu destino mortal, mas não está só em nosso poder de praticante conduzi-lo a este momento em que começa a sua verdadeira viagem (p.103).

Quase não se faz necessário lembrar que não se trata de ‘estático’ (statique), ‘parado’, mas de um termo, utilizado por Lacan para descrever um limite mortal, que não deixa de guardar semelhança com a palavra ‘êxtase’ (extase) da qual deriva. ‘Êxtase’ vem do grego ékstasis, que originou a palavra ecstáse em latim eclesiástico do século XVI, que significa “arrebatamento íntimo, enlevo, encanto”(2). Atualmente, em francês, extase descreve um “estado no qual uma pessoa se encontra como que transportada para fora de si e do mundo sensível”(3). Em português, o sentido sofre uma ligeira torção e passa a conter algo da ordem da angústia:

Fenômeno observado na histeria e nos delírios místicos, e que consiste em sentimento profundo e indizível que aparenta corresponder a enorme alegria, mas que é mesclado de certa angústia: fica o paciente quase de todo imobilizado, parecendo haver perdido qualquer contato com o mundo exterior (4).

‘Extático’ guarda a mesma origem e significa o que tem a “característica do êxtase” (Robert) ou “posto em êxtase, absorto, enlevado” (Aurélio).

Para este trabalho, tomaremos o estado extático não no sentido do ponto de um acompanhamento de um cliente em análise, tal como na citação acima, que supomos localizar-se na no primeiro tempo da queda do objeto no passe, e que é descrito como o segundo encontro com o das Ding, no tempo real onde (+) e (-) estão juntos. Momento de falta de plenitude (-?), morte-súbita que se contrasta com a alegria-vida do a+, plenitude. Momento ainda que se assemelha ao que é dito do Real a ser descoberto na experiência e que pode ser tomado como ponto de inércia total, produto do horror da verdade insuportável, que quase pode ser comparado a um fenômeno elementar (5).

Tampouco o tomaremos na vertente do êxtase místico, tal como apontado por Lacan no Seminário 20 (20/02/73, p.101), ou tal como o descrito por Santa Tereza de Ávila e que pode ser encontrado no Apêndice III, Relação XV (1571) de seu livro O Castelo interior (1956):

Passei todo o dia de ontem em grande soledade interior. A não ser na hora em que comunguei, nenhum efeito produziu sobre mim a Páscoa da Ressurreição. À noite, enquanto estávamos todas juntas no recreio, cantaram uns versinhos, encarecendo quanto é duro viver longe de Deus. Como eu já estava com aquela mágoa, fez tal operação em meu espírito o canto, que as mãos se me começaram a entorpecer, e, sem poder resistir, minha alma, assim como sai de si pelos arroubamentos de gozo, do mesmo modo se suspendeu pela grandíssima dor e ficou alheia a tudo. (…) …antes a mágoa não chegava a ponto de me fazer sair de mim, e, como era tão intolerável e eu estava em meus sentidos, constrangia-me a dar grandes gritos sem que eu o pudesse escusar. (…) …cresceu tanto, chegou a estes ternos de traspas¬samento (…). Ficou-me tão quebrantado o corpo, que ainda hoje estou escrevendo com bastante custo; pois tenho as mãos doloridas e como desconjuntadas. Quando Vossa Mercê vier ver-me, dir-me-á se pode haver esse arroubamento de dor, e se é real o que sinto, ou estou enganada.

Entretanto, em termos fenomenológicos, o objeto deste texto não deixa de guardar certos traços que o aproximam das experiências acima descritas. Trata-se de um estado provocado pelo desencadeamento, em um sujeito, de uma certa experiência real acompanhada de paralisia, que o deixa preso àquilo que vê e do qual, fascinado pela verdade insuportável, não é capaz de desvencilhar-se facilmente. Nesse sentido, pode-se dizer que o sujeito se encontra subjugado ao Outro, que o outro – o perverso – encarna, certamente repetindo uma experiência arcaica do encontro com a alteridade.

Procurou-se, igualmente, estabelecer os elementos de comparação entre este o ponto de gozo do estado extático e a experiência infantil de um ponto nela despertado pelo outro. Nesse sentido, trabalha-se com a hipótese de um ‘saber como se goza’ do perverso. Dito de outra maneira, trabalha-se com hipótese de que o perverso é capaz de detectar o tipo de ação que produz, no outro que a vê, o horror. E disso ele se ocupa para gozar. O perverso detém o saber de como despertar esse ponto extático que deixa o outro totalmente desamparado e entorpecido, horrorizado mas estático, incapaz de retirar-se da cena perversa que vê e que lhe produz gozo. Para o perverso, que goza do horror produzido, esse provocar reforça a sua sensação de nada haver que o limite, jogando-o, cada vez mais, na sensação de tudo poder.

Com Freud(6) aprendemos que toda e qualquer organização “neurótica-normal” conserva traços, de intensidade variada, da sexualidade polimorficamente perversa da infância, e que a perversão é o resultado da fixação de uma pulsão parcial em uma fase onde, por algum motivo, uma desmedida no investimento libidinal teria ocorrido. Aprendemos também que a recusa e a divisão do ego(7), indicadores sem dúvida importantes da presença de uma organização perversa, estão igualmente contemplados em outras organizações psíquicas. Segundo vários autores, a começar por Freud, a recusa da castração e a divisão do ego podem ser encontradas precocemente. A cena primária, que por sua vez exerce um efeito igualmente traumático, contribui ainda mais para a recusa e cisão, mecanismos que serão novamente ativados no complexo de castração da fase fálica. Avizinhamos aqui das posições de Joyce McDougall(8) que, retomando Freud, sugere que as linhas de força que orientam a dinâmica do jogo perverso devem ser buscadas na relação do perverso, e da atuação perversa, com a cena primitiva. (Este conceito recobre o conjunto dos fantasmas inconscientes que participam da construção fantasmática da relação sexual e a mitologia do sujeito em relação às imagos parentais.) Calligaris(9), por sua vez, utiliza a expressão “montagem perversa” para descrever um tipo de arranjo libidinal, com características perversas, que unem sujeitos neuróticos. Para este autor, estas montagens são encontradas na clínica com muito mais freqüência que as estruturas perversas propriamente ditas.

Tudo isto sugere que a possibilidade de um engendramento em “parcerias perversas” está aberto a todo e qualquer sujeito: se o perverso desperta o ponto extático que paralisa o outro é porque, potencialmente, este ponto, espécie de buraco negro, está presente na dinâmica psíquica deste outro. Além disto, como demonstrado no Três Ensaios, não existe fantasma especificamente perverso pois a sexualidade é, em si, perversa. Cabe, então, perguntar em que medida o ponto traumático que leva um expectador a engendrar-se no gozo extático, participa na estabilidade de sua organização psíquica. Neste sentido, por mais que na perversão o parceiro seja transformado em objeto de gozo, não se pode negar que, em certa medida, ambos os protagonistas são investidos libidinalmente. Sem estes quesitos, o perverso não tem como atuar sua sexualidade que, diga-se de passagem, é iminentemente monótona, sendo que qualquer mudança de, e no, cenário gera angustia pois o risco de se perder o controle é grande. Entretanto, este investimento libidinal não deve ser confundido com uma ligação erótica: o que conta é o papel que cada um desempenha no jogo (perverso) que encenam.

O comportamento perverso é uma defesa maníaca que visa controlar angústias depressivas e persecutórias de experiências traumáticas; é uma passagem-ao-ato cujo roteiro rígido é escrupulosamente arquitetado é composto de atuações ativas de situações traumáticas passivas, o que permite ao sujeito tentar elaborar, sempre sem sucesso o que o leva a uma repetição ad infinitum, o retorno do real. É neste viés que Stoller(10) sugere que subjacente à atuação perversa existe um fantasma de vingança o qual é sustentado pela hostilidade. Graças a este expediente, o traumatismo infantil é transformado em triunfo. Ocorre, pois, uma inversão de papeis: o sujeito age ativamente lá onde sofreu passivamente. Acredita com isto evitar o retorno, sempre brutal e desagregador, daquilo que permaneceu petrificado no interior e que poderia causar, como é o caso nas psicoses, uma dissociação do psiquismo. “O ato perverso, escreve Stoller, é uma cura momentânea”.

(Um parêntese: as considerações feitas até aqui conferem à clínica da perversão contornos bem específicos. A escuta do perverso nos afeta transferencialmente de uma outra forma que o faz a escuta do neurótico. Acompanhá-lo pela tortuosa trilha de sua sexualidade pré-gential, agüentar a monotonia da repetição dos pontos de fixação da libido e suas atuações que revelam o caráter infantil de sua sexualidade, suportar o ódio que aparece na transferência sob forma de agressividade, de desprezo e desdém pelo trabalho e pela capacidade do profissional, tudo isto requer do analista uma disposição particular. (11))

Traumatismo e humilhação(12): eis os ingredientes fundamentais da perversão. Humilhando o traumatismo é vencido. Humilhando, submetendo o outro ao seu cenário perverso, este outro é desumanizado e transformado em objeto (fetiche). Com isto evita-se, igualmente, a intimidade que é fantasiada pelo perverso como ameaçadora pois este último, não estando no registro da neurose – pelo menos quando orquestrando seu cenário –desconhece o amor tão necessário para proteger o parceiro, via fantasia, da componente do sexual perverso presente em todo sujeito castrado(13).

Fundamentalmente, é a questão da alteridade que está em jogo na perversão: o outro, o diferente e, num segundo momento, o outro sexo (a diferença anatômica dos sexos), aquele que não pensa como eu e assim por diante, tudo isto remete à castração, ao limite, que, no caso do perverso, foi gerenciada pelo mecanismo da recusa. É contra esta ameaça fundamental que o cenário perverso foi criado. Por outro lado, a organização perversa, como aliás toda organização psíquica, tem a função essencial de manter o sentimento de identidade.

Podemos, então, pensar que é na maneira particular de lidar com o retorno do real, que encontraremos a especificidade da perversão. Não ocorre um delírio pois o nome do pai não foi forcluído mas por haver o Ich Spaltung ocorre um “choque” que produz uma paralisia: o ponto de êxtase.

Retornamos, com isto, o objeto central deste texto: o ponto de êxtase, que passa a ser descrito como uma brecha através da qual a castração é vislumbrada. Se isto ocorre é porque o mecanismo da recusa não cumpre seu papel, deixando inoperante o processo de divisão do ego. A mediação fantasmática, tão necessária para uma montagem “aceitável” que dê vazão à moções pulsionais perversas, não mais é possível e o sujeito, uma vez mais, se vê face àquilo que vem sucessivamente negando: a castração. A solução para enfrentar a angústia daí advinda e, uma vez mais, negar a castração é, já dissemos, criar um cenário onde ele possa agir ativamente o que sofreu passivamente.

Na montagem de seu cenário, o perverso não escolhe seus parceiros por acaso. Escolhe justamente aqueles nos quais pode impor sua “imaginação erótica“(14). Uma tal imposição só é possível porque o parceiro escolhido é capaz de oferecer-se, via sujeito perverso, como objeto de gozo do Outro. O perverso desencadeia algo na dinâmica psíquica de seu parceiro que o remete a uma experiência arcaica eminentemente traumática. Em um après-coup, o sujeito revive uma experiência real paralisante, pois produtora de uma verdade insuportável.

Para o perverso o horror produzido no outro, e que o faz gozar, testemunha o seu triunfo sobre a castração, sobre o limite, sobre a lei, pois ele foi capaz de detectar o tipo de ação que desperta no outro o ponto extático e o subjuga. A “cura momentânea” se produz e, mais uma vez, ele crê deter um ‘saber como se goza’, o que lhe confere a sensação de tudo poder.


Bibliografia:

1 – Este trabalho faz parte de uma pesquisa que vem sendo realizada no Programa de Mestrado da PUC-MG, pelo Prof. Dr. Luiz Flávio Couto e pelo Prof. Dr. Paulo Roberto Ceccarelli.
2 – CUNHA, A. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. RJ: Nova Fronteira, 1982.
3 – ROBERT. Le Robert Micro. Paris: Le Robert, 1995.
4 – AURÉLIO. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. RJ: Nova Fronteira, 1986.
5 – HORN, B. Fragmentos de uma vida psicanalítica: da IPA a Lacan. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999, pp.: 40, 47, 53.
6 – FREUD, S. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. ESB, VII, 1972.
7 – FREUD, S., (1927) O fetichismo. ESB., XXI, 1974; FREUD, S., (1938) Esboço de psicanálise, ESB, XXIII, 1975; FREUD, S. (1938) A divisão do ego no processo de defesa. ESB, XXIII, 1975.
8 – McDougall, J. Scène primitive et scénario pervers. In : La sexualité perverse, Paris, Payot, 1972, pp. 50-94.
9 – CALLIGARIS, C. Perversão – um laço social ?, Salvador: Cooperativa Cultural J. Lacan, 1986.
10 – STOLLER, R. La perversion et le désir de faire mal. In : Nouvelle Revue de Psychanalyse La chose sexuel. 29, Paris. Gallimard, 1984, 147-172.
11 – Em um texto de 1998 relato um caso clínico que ilustra bem esta situação. Cf. CECCARELLI, P. R. Neo-sexualidade e sobrevivência psíquica. In: Psychê, Revista de Psicanálise. 2(2). p. 61-69, 1998.
12 – É curioso observar que o radical latino humillis, presente no verbo “humilhar” e seus derivados: humilhado, humilhação, encontra-se, também, na palavra humilde, humildade, que significa submissão, inferioridade.
13 – Sobre a questão do sexual perverso, ver : CECCARELLI, P. R. A perversão do outro lado do divã. in Destinos da Sexualidade, Portugual, A. M; Porto Furtado, A; Rodrigues, G; Bahia, M, A; Gontijo, T; (org.) SP, Casa do Psicól., p. 243-257, 2004.
14 – “O único aspecto de uma fantasia que poderia legitimamente ser descrito como perverso é a tentativa de impor a imaginação erótica ao outro que não consente nisso ou que não é responsável.” Conf.: McDOUGALL, J. As múltiplas faces de Eros: uma exploração psicanalítica da sexualidade humana. São Paulo: Martins Fontes, 1997. 192 p.

Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

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