VIOLÊNCIA E CULTURA

[+] Download deste texto como PDF

in Traumas. Rudge, A. (org) São Paulo, Escuta, p. 111-123, 2006.

Nossa civilização repousa, falando de modo geral, sobre a supressão das pulsões. Cada indivíduo renuncia a uma parte dos seus atributos: a uma parcela do seu sentimento de onipotência ou ainda das inclinações vingativas ou agressivas de sua personalidade. Dessas contribuições resulta o acervo cultural comum de bens materiais e ideais.

Freud, 1908

INTRODUÇÃO

Em A revista Veja em sua edição de 6 de abril de 2005 trouxe uma matéria preocupante sobre o futuro do planeta. Trata-se de uma pesquisa realizada por 1500 especialistas de 95 paises. Eles concluem que a degradação que a atividade humana vem produzindo na natureza é irreversível, e que, se nada for feito, as conseqüências nos próximos cinqüenta anos são imprevisíveis: “A atividade humana solicitou tanto da natureza que não há mais garantias de que os ecossistemas do planeta sustentem as futuras gerações”. O que diferencia essa pesquisa das anteriores é que, pela primeira vez, ela foi conduzida por cientistas e não por ecologistas. A essa situação juntam-se outros dados não menos inquietantes: a não assinatura, pelos USA, do tratado de Kyoto sobre pretexto de que ele estaria ponto em risco a economia americana(1); o aumento global da violência social em todos os níveis – guerras, corrupção, atos de terrorismo e vandalismo em escolas perpetrados por jovens das mais diversas classes sociais – e outros acontecimentos que vêem se tornando tão corriqueiros que nos afeta cada vez menos.

Vivemos, como efeito, uma situação paradoxal: por um lado, não cessamos de falar da violência, da destruição global, criamos simpósios e debates que busquem soluções para esta situação; os governos propõem programas para alterar esse estado de coisas; não se contam mais o numero de ONGs que visam um trabalho, sobretudo com a juventude, para que essa tenha dias melhores, e assim por diante. Por outro lado, se olharmos em volta, constatamos que a violência continua a aumentar desde o nosso mais simples cotidiano, até as guerras planetárias cada vez mais mortíferas e aniquiladoras.

O que está acontecendo? Por que não conseguimos conter nossa autodestruição? Qual é a nossa participação nesse processo antropofágico? Como explicar que, malgrado as evidências que testemunhamos cotidianamente, o ser humano não consegue barrar à violência? Explicações não faltam. Dentre tantas possíveis, podemos enumerar: a questão narcísica – a cultura do narcisismo(2) -; a perda de referências identificatórias, o que estaria comprometendo, ou mesmo impossibilitando, os processos de subjetivação; a falência do Outro, ou sua pulverização em inúmeros “Outros”, fazendo com que não exista algo que funcione como um organizador social; o capitalismo selvagem, o neoliberalismo, e assim por diante. Há quem tente explicar o momento atual pelas mudanças sociais, em particular, as mudanças na organização familiar. (O atual Papa, ainda como Cardeal Prefeito Ratzinger escreveu um documento publicado em 31 de julho de 2004 – Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo(3) – no qual sugere que uma das causas da decadência da Sociedade deve ser procurada nas mudanças de posição da mulher nas últimas décadas. Para Ratzinger, o afastamento das mulheres da família, da maternidade e da Igreja estaria produzindo uma desorganização social.)

Entretanto, a história nos mostra que a violência tem estado presente desde a aurora da humanidade: guerras sempre existiram; civilizações sempre dominaram outras; os grandes descobrimentos foram acompanhados de uma virulência sem precedentes tal como a destruição das grandes civilizações das Américas; a intolerância religiosa levou à queima das bruxas em praça pública; os regimes totalitários, e a queda desses regimes… tudo isso são exemplos da violência na civilização. Naturalmente, não podemos negar que os avanços tecnológicos – a informação difundida ao vivo e em tempo real, sobretudo via internet – o aumento demográfico do planeta, as desigualdades sociais são alguns fatores que contribuíram para globalizar e banalizar a violência, dando-nos a impressão de que ela nunca foi tão grande.

Quanto à Cultura do narcisismo, onde a profusão intoxicante de ofertas, sobretudo pela mídia(4), de objetos a opera no psiquismo uma regressão do registro do desejo para o da necessidade, não creio que se trate de uma situação totalmente nova. O que está em jogo aqui, o novo, é o acesso a esses objetos os quais, na economia capitalista, são apresentados como algo ao alcance de todos. A partir daí, todo objeto que, como qualquer objeto, poderia candidatar-se a objeto de desejo, é transformando em objeto de necessidade o qual, evidentemente, jamais cumprirá a função prometida: a realização de desejo.

A satisfação pulsional via narcisismo (primário) é um dos primeiros recursos usado pelo psiquismo humano para driblar a castração. Se nos reportarmos às extravagâncias das classes dominantes ao longo da história – aristocracia, realeza, “ditaduras” comunistas ou capitalista… – dificilmente acharemos diferenças em termos de economia psíquica na busca de objetos que mantenham a ilusão da eliminação da falta e da volta ao paraíso perdido do narcisismo primário.

Ao longo de sua obra – em particular nos textos de 1900, 1908, 1924, 1927, 1928, 1929 e 1933 – Freud dedica-se ao estudo do homem através do desenvolvimento da civilização. Talvez seja naInterpretação dos Sonhos(5)que encontremos uma primeira formulação clara sobre tema:

O sonhar é, em seu conjunto, um exemplo de regressão à condição mais primitiva do sonhador, uma revivescência de sua infância, das moções pulsionais que a dominaram e dos métodos de expressão de que ele dispunha nessa época. Por trás dessa infância do indivíduo é-nos prometida uma imagem da infância filogenética – uma imagem do desenvolvimento da raça humana, do qual o desenvolvimento do indivíduo é, de fato, uma recapitulação abreviada, influenciada pelas circunstâncias fortuitas da vida.

É por isto que a análise dos sonhos nos conduz a um “conhecimento da herança arcaica do homem, daquilo que lhe é psiquicamente inato.”

O tema ainda se faz presente no pós-escrito ao Um estudo autobiográfico, acrescentado em 1935(6):

Percebi ainda mais claramente que os fatos da história, as interações entre a natureza humana, o desenvolvimento cultural e os precipitados das experiências primitivas (cujo exemplo mais proeminente é a religião) não passam de um reflexo dos conflitos dinâmicos entre o ego, o id e o superego que a psicanálise estuda no indivíduo – são os mesmíssimos processos repetidos numa fase mais ampla.

Nesses trabalhos, Freud advoga que a gênese do “eu” (ontogênese) repete os processos presentes no desenvolvimento da civilização (filogênese): da mesma forma que cabe ao “eu” dominar as excitações externas e internas próprias à sua organização, a civilização deve dominar tanto as tensões internas – sobretudo narcísicas, entre seus membros – quanto as forças da natureza. Ao estado de horda primeva dominado, mas imaginariamente protegido, por um tirano de poder ilimitado, corresponde à ficção freudiana do bebê imerso em seu desamparo, e abandonado ao Outro todo poderoso encarnado, neste primeiro momento, por quem acolhe a criança no mundo. Somos, por definição, “insocorríveis”(7) e nada nos ampara na nossa incompletude. A perda da ilusão de ser o falo da mãe é herdeira da castração infligida pelo tirano. Enfim, para Freud, estudar os conflitos dinâmicos entre o ego, o id e o superego é lançar uma luz na compreensão das experiências primitivas que deram origem à cultura.

Em um texto extremamente especulativo cujas conseqüências ainda não foram totalmente avaliadas – Neuroses de transferência: uma síntese -, Freud concebe o psiquismo (seelischer Apparat) como patológico em sua origem: uma organização que se desenvolveu a fim de proteger o ser humano contra os ataques, internos e externos, que punham sua vida em perigo. Uma defesa frente ao excesso – as transformações do meio-ambiente (excesso externo) e as demandas pulsionais que não podiam ser satisfeitas (excesso interno) – ao qual o ser humano se viu exposto quando das mudanças provocadas por uma catástrofe ecológica de proporções inimagináveis: a perda do Éden. Para enfrentar esse excesso (das paixões – do pathos) sem adoecer, profundas reorganizações psíquicas foram necessárias. É precisamente esse longo processo, a História da Humanidade (filogênese), que é repetido por cada ser humano (ontogênese).

Esse texto freudiano sugere, ainda, que o aparelho psíquico é parte integrante do sistema imunológico(8) : um sujeito pode estar menos equipado para responder aos ataques – internos (pulsionais, passionais) e externos (mudanças ambientais, perdas diversas) – que encontrar ao longo da vida, da mesma forma que pode ser mais suscetível em contrair doenças orgânicas.

Entretanto, resgatar na ontogênese o processo filogenético não é, de forma alguma, tarefa fácil. Seu fracasso pode ser gerador de neurose: “as neuroses têm que prestar seu testemunho sobre a história do desenvolvimento da alma humana”(9). A dificuldade reside no fato de que a criança deverá, em pouco tempo, “assimilar os resultados de uma evolução cultural que se estende por milhares de anos”(10) para adaptar suas pulsões à cultura.

Adaptar as pulsões à cultura, a passagem da natureza à cultura, – a constituição do sujeito, a aquisição da linguagem e, consequentemente, acesso ao simbólico – só é possível pela introjeção das representações culturalmente aceitas, em detrimento do narcisismo primário (gozo narcísico). Todo esse processo segue uma série de regras e ritos que dá acesso à lei de troca. É através do movimento do recalque, condição própria à existência da cultura e presente desde sempre em todo e qualquer grupo humano, que os movimentos constitutivos do sujeito ocorrem. O recalque nos impõe a renúncia pulsional, obrigando-nos a abandonar nossos primeiros objetos sexuais, “o que constitui, talvez, a mutilação mais drástica que a vida erótica do homem em qualquer época já experimentou”(11). Esse é o processo que, ao mesmo tempo, organiza e diferencia o humano.

A cultura, que constitui o sujeito e o protege, exige dele o recalque pulsional para que a vida em comum seja possível. Via sublimação, a energia recalcada é transformada e (re)utilizada, como força de trabalho, para a “manutenção” da cultura. Porém, a renuncia pulsional só é suportável se o processo civilizatório garantir ao sujeito acesso e continuidade à satisfações substitutivas. Quando isso não ocorre, observamos um recrudescimento da frustração causada pela renúncia narcísica. Por outro lado, por mais satisfações que a cultura possa oferecer, elas são, em essência, incompletas pois jamais indenizarão as primeiras renuncias pulsionais, o que deixa na alma humana uma ferida que não se cicatriza: aqui se origina o «mal-estar» do qual sofre o homem(12).

Esse «mal-estar» expressa-se como uma agressividade estrutural a qual, como sublinha Lacan(13), deve ser compreendida a partir da experiência subjetiva pois implica necessariamente um sujeito. Para Lacan, a agressividade está correlacionada com o modo narcísico de identificação: o outro, o diferente, o que nos remete à castração, constitui um alvo por excelência de nossa agressividade. Em poucas palavras: somos agressivos por sermos castrados.

Implicitamente, então, a integração do sujeito à cultura implica em um pacto(14) no qual ele perde mas também ganha: perde por ter que adiar, em alguns casos renunciar, a uma satisfação pulsional; mas ganha ao ocupar um lugar único na organização social e na ordem simbólica, que lhe outorga um nome e uma filiação. Quanto à cultura, ela deve ter condições de acolher o sujeito, integrando-o à sociedade.

Nosso cotidiano é frequentemente atravessado pela agressividade constitutiva do sujeito expressa sob forma de violência. Isso ocorre quando a sociedade não oferece, para alguns de seus membros, satisfações substitutivas às moções pulsionais recalcadas enquanto, para outros, não há limite de (tentativas) de satisfação. As razões podem ser as mais diversas: os processos responsáveis pela limitação do gozo narcísico falham, são insuficientes ou não se aplicam a todos; a sociedade limita, à grande maioria dos sujeitos, o acesso aos modelos Ideais que ela mesma cria(15). A frustração daí advinda leva o psiquismo a procurar outras formas de descarga de energia, como é o caso de comportamentos anti-sociais.

Como escrevi em outro lugar(16):

Quando, chegado o momento de receber da sociedade o que lhe é devido, os seus direitos fundamentais em troca da renúncia ao princípio de prazer, o sujeito não é acolhido pela sociedade vendo-se impossibilitado de transformar o recalcamento pulsional em força de trabalho. Quando isto acontece, quando o social que deveria garantir o pacto edipiano apresenta-se de forma perversa, é todo universo psíquico do sujeito que corre o risco de romper-se pois não há porque manter a renuncia pulsional quando não se tem nada em troca. O resultado é uma ruptura profunda, por vezes definitiva, com o social.

Mas não temos saída: revoltar-se contra o Outro, contra a cultura, contra a lei, percebê-la como uma instância hostil e castradora, é revoltar-se contra o que nos constitui, o que só faz aumentar a frustração e a angústia. (Na realidade, tanto a falta como o excesso de satisfação, gerados por uma organização sócio-política perversa, ameaçam o processo cultural e produzem violência, pois criam circulações pulsionais que escapam às imposições necessárias ao pacto social.)

Todo o processo descrito aqui é inerente ao humano. Não há constituição do sujeito sem recalque gerador de mal-estar; não há processo identificatório isento de violência(17), e aquisição de representações simbólicas que não seja imposta(18); não há encontro com o outro que não nos remeta à diferença à castração, logo à agressividade; não há satisfação que console o narcisismo abandonado; não existe contexto social – independente do modo de produção – que esteja isento de criar situações que rompam o laço social produzindo violência. Retomo o que escrevi no começo do texto: a violência sempre existiu embora, em cada época, em cada contexto histórico, ela se apresente com uma face própria. Na busca de satisfações substitutivas que mantenham a ilusão de onipotência, a espécie humana sempre reagiu com violência frente aquilo que ameaça seu frágil narcisismo.

Todas as considerações acima, entretanto, não bastam para explicar porque não conseguimos conter as pulsões destrutivas que ameaçam a vida. Nossa participação nesse processo é por demais óbvio para ser negado: malgrado as evidências, o ser humano não consegue fazer barreira à violência. Seria a violência uma fatalidade no destino da humanidade?

Em Além do princípio de prazer a compreensão dos processos de constituição do sujeito ganha novo vigor, pois a introdução do conceito de “pulsão de morte” obriga Freud a rever a dinâmica sujeito/cultura. Ali, Freud sustenta que “o objetivo de toda vida é a morte”; que o sujeito traz em si o germe de sua própria morte. Nele existe, como em tudo que é vivo, uma tendência – uma pulsão – que conduz o que é vivo à morte. A partir dai, Freud(19)conclui que “tudo o que vive vai morrer por razões internas tornando-se, mais uma vez, inorgânico”.

O interessante nesse ponto do texto é que Freud considera a pulsão de morte como a primeira pulsão: “A tensão que então surgiu no que até aí fora uma substância inanimada se esforçou por neutralizar-se e, dessa maneira, surgiu a primeira pulsão: a de retornar ao estado inanimado”(20). Ao mesmo tempo, os atributos que deram origem à vida a partir da matéria inanimada podem ter sido, especula Freud, os mesmos que mais tarde promoveram o desenvolvimento da consciência em algum estrato da matéria viva.

Não é o propósito desse trabalho retomar a polêmica discussão sobre mitologia pulsional freudiana(21). O interesse em destacar essa passagem do texto é ressaltar que, para Freud, o retorno ao estado inanimado é o destino de toda vida. Ora, se, como vimos longamente, a constituição do sujeito (ontogênese) repete, em escala menor e em tempo reduzido, o desenvolvimento cultural e as experiências primitivas da humanidade (filogênese), podemos supor que o movimento em direção à morte presente em todo organismo vivo – o organismo trás um seu bojo a sua própria destruição – encontra-se, igualmente, atuante na cultura. Penso que isso nos permite entender porque a violência, presente desde a aurora da espécie humana em todos os âmbitos da existência, da qual tanto se fala e que, ao mesmo tempo, não cessa de aumentar, seria inevitável por tratar-se-ia de um movimento interno à organização da cultura; à presença da pulsão de morte na cultura. Assim como para o organismo que tenta retornar ao estado inanimado devido à tensão criada, a cultura, através da violência, estaria seguindo a mesmo roteiro. Com é o caso para o sujeito, a cultura estaria condenada, por seus próprios meios internos, a desaparecer, a voltar ao inorgânico. E, sem dúvida, estamos caminhando para isso: basta olharmos em volta para constatar que no conflito Eros x Tânatos, o último tem sido o vencedor.

Um das raízes desse movimento destrutivo deve ser buscada nos processos sublimatórios. Sem a passagem do registro do instinto para o da pulsão não teria sido possível, é verdade, a sobrevivência da espécie(22) e muita menos a vicissitude libidinal – a sublimação – que nos permitiu utilizar a pulsão sexual para fins não sexuais. Condenados à identificação por havermos perdido a identidade de representação que o instinto propiciava, resta-nos, dentre outras, a atividade sublimatória que substitui, de forma sempre incompleta, as primeiras ligações objetais que fomos obrigados a renunciar justamente para que o estado de cultura se instalasse. Esse é o paradoxo que nos habita. Entretanto, nos lembra Freud(23), a sublimação é, também, o terceiro desfecho resultante “de uma disposição constitucional anormal”, e nossas virtudes nada mais são do que formações reativas a nossa disposição perversa. A disposição artística, que traduz uma manifestação da atividade sublimatória, exemplifica Freud(24), é o resultado da mistura, em diferentes proporções, “de eficiência, perversão e neurose”. A fórmula é explosiva. Mais cedo ou mais tarde, parece inevitável, uma erupção ocorrerá devido ao aumento da pressão. O grande mistério que envolve o desaparecimento de muitas civilizações, algumas no apogeu de seu desenvolvimento, em momentos históricos diferentes, com os mais diversos meios de produção, e nas mais variadas partes do planeta, sugere a marca da pulsão de morte na Historia da humanidade. Outras civilizações não tiveram condições psíquicas para enfrentarem um inimigo indiscutivelmente inferior. Por nos constituirmos seres desejantes, por não existir um objeto que fixe a pulsão, por trazermos em nossa essência a tendência ao retorno a um estado sem tensão, não estamos fazendo nada mais, utilizando os meios que o momento sócio-histórico nos oferece, que voltarmos ao inorgânico: a violência expressa como destrutividade traduz, na cultura, a morte por razões internas ao organismo.

A partir das teses desenvolvidas acima, acho difícil concordar com a idéia corrente segundo a qual atravessamos um momento histórico particularmente violento. Sentimo-lo mais intenso pois vivemos agora e é agora que somos ameaçados. Na Idade Média, as mudanças trazidas pela revolução burguesa, que transformaram radicalmente o mundo medieval e derrubaram Verdades Religiosas seculares levando a um profundo questionamento da ordem vigente, não geraram menos truculência do que as mudanças contemporâneas. Evidentemente, de algumas décadas para cá dispomos, mais uma vez graças à sublimação, de armas de destruição em massa que podem definitivamente por fim a toda vida no planeta. É neste sentido que entendemos Freud quando escreve, ainda no Além do principio do prazer(25), que

Toda modificação, assim imposta ao curso da vida do organismo, é aceita pelos instintos orgânicos conservadores e armazenada para ulterior repetição. Esses instintos, portanto, estão fadados a dar uma aparência enganadora de serem forças tendentes à mudança e ao progresso, ao passo que, de fato, estão apenas buscando alcançar um antigo objetivo por caminhos tanto velhos quanto novos. Ademais, é possível especificar esse objetivo final de todo o esforço orgânico. Estaria em contradição à natureza conservadora dos instintos que o objetivo da vida fosse um estado de coisas que jamais houvesse sido atingido. Pelo contrário, ele deve ser um estado de coisas antigo, um estado inicial de que a entidade viva, numa ou noutra ocasião, se afastou e ao qual se esforça por retornar através dos tortuosos caminhos ao longo dos quais seu desenvolvimento conduz.

Diariamente a mídia nos alerta das conseqüências irreversíveis do desmatamento. Entretanto, é interessante lembrar que a Europa possuía, antes da época romana, florestas imensas que não foram poupadas, com a tecnologia da época, do desmatamento. Acredito, enfim, que a tendência que temos em atribuir à atualidade uma maior violência se deve a questões eminentemente narcísicas!

Ironicamente, a sublimação, condição sine qua non para o surgimento da cultura oferece a possibilidade de criar os instrumentos, concretos, ideológicos, ou imaginários, que estão nos levando à destruição: morte e vida são dois lados da mesma moeda.


BIBLIOGRAFIA
:

1 – Sobre este ponto, o texto de Henrique Rattner “A destruição do meio ambiente: uma tendência irreversível?” é esclarecedor: http://www.espacoacademico.com.br/047/47rattner.htm
2- LASCH, C., “A cultura do narcisismo”, Rio de Janeiro, Imago, 1983.
3- Nesse documento Ratzinger discorre sobre a importância das mulheres estarem “presentes, ativamente e até com firmeza, na família, que é «sociedade primordial e, em certo sentido, “soberana”», porque é nesta que, em primeiro lugar, se plasma o rosto de um povo; é nesta onde os seus membros adquirem os ensinamentos fundamentais.” Quando isso não ocorre “é a sociedade no seu conjunto que sofre violência e se torna, por sua vez, geradora de múltiplas violências.” Conf.: http://www.defesadavida.com/colaboracaohomem.html
4- Sobre os efeitos perversos e intoxicantes da mídia ver: CECCARELLI, P. R. Os efeitos perversos da televisão. In: A criança na contemporaneidade e a psicanálise. Mentes & Mídia: diálogos interdisciplinares, Comparato C, Monteiro D., (coord.), São Paulo, Caso do Psicólogo, Vol. II, 2000, 75-86. E, mais recentemente, CECCARELLI, P. R. Sexualidade e consumo na TV. in Psicologia Clínica, Vol. 12, 2, p. 59-68, 2004.
5- FREUD, S., (1900) “A interpretação dos Sonhos”, E. S. B., 1972, V, p. 585.
6-FREUD, S., (1924) “Um estudo autobiográfico”, E. S. B., 1974, XX, p. 90.
7-O termo alemão Hilflosigkeit é composto de três palavras: Hilfe, que significa socorro; los, que pode ser definido por sem; keit que forma o subjetivo. Hilflosigkeit seria melhor traduzido por “insocorribilidade”. Ser desamparo atesta a condição de insocorribilidade do sujeito humano.
8- BERLINCK M., “Catástrofe e representação. Notas para uma teoria geral da Psicopatologia Fundamental. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. São Paulo, v. II, n. 1, p. 9 – 34, set. 1999.
9- FREUD, S., (1928) “Neurose de transferência: uma síntese “, Rio de Janeiro, Imago, 1987, p. 72.
10- FREUD, S., (1933) “Explicações, Aplicações e Orientações”, in Novas conferências, E. S. B., 1976, X XII, p. 180.
11- FREUD, S., (1930) “O mal-estar na civilização”, E. S. B., 1974, XXI, Cap. III. p. 124.
12- FREUD, S., (1930) “O mal-estar na civilização”, Op. Cit., Cap. III.
13- LACAN, J. L’agressivité en psychanalyse. In : Écrits. Paris : Seuil, 1966. p. 104-124.
14- PELLEGRINO, H., “Pacte Œdipien et Pacte Social”, in Le Psychanalyste sous la Terreur, Paris, Rocinante, 1986, pp. 16-22.
15- Sobre esse ponto conf.: CECCARELLI, P. R. Os efeitos perversos da televisão. In: A criança na contemporaneidade e a psicanálise. Mentes & Mídia: diálogos interdisciplinares. Op. Cit. & CECCARELLI, P. R. Sexualidade e consumo na TV. in Psicologia Clínica, Op. Cit.
16- CECCARELLI, P. R. Delinqüência: resposta a um social patológico. In: Boletim de Novidades da Livraria Pulsional, SP, XIV, maio, 2001, p. 11.
17- Utilizo o termo “violência” aquil, no sentido de Piera Aulagnier. Conf. AULAGNIER, P. (1975) A violência da interpretação. Imago: Rio de Janeiro, 1979.
18- CECCARELLI, P. R. Violência simbólica e organizações familiares. In. Feres-Carneiro, T. (org). Família e casal: efeitos da contemporaneidade. Rio de Janeiro, Editora Puc-Rio, 2005, pp. 266-277.

19- FREUD, S., (1920) “Além do princípio de prazer”, E. S. B., 1976, XVIII, p. 56.
20- Idib.
21- “A teoria das pulsões é, por assim dizer, nossa mitologia. As pulsões são entidades míticas, magníficos em sua imprecisão”. Conf.: FREUD, S., (1933) “Ansiedade e vida pulsional”, Conf. XXXII, E. S. B., 1976, XXII, p. 119.
22- FREUD, S., (1928) “Neurose de transferência: uma síntese” “, Op. cit.
23-FREUD, S. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Edição Standard Brasileira, Rio de Janeiro, Imago, 1972, VII, p. 245 (o grifo é meu).
24-FREUD, S. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Op. Cit., p. 246.
25- FREUD, S., (1920) “Além do princípio de prazer”, Op. Cit., p. 55. 17.


Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail:pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Sócio de Círculo Psicanalítico de Minas Gerais; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG (graduação e pós-graduação); Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia (CRP/O4).

 –
voltar ao topo