FREUD TRAÍDO

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in Reverso, Revista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ano XXIX, 54, 43-54, 2007

Ao escrever um trabalho com um título deliberadamente provocador –Freud traído – minha intenção é a de compartilhar uma inquietação em relação a um fato que tem sido menosprezado. Trata-se de uma “releitura” da obra freudiana em detrimento do pensamento original de Freud. Observa-se uma utilização da leitura que outros autores fizeram do texto freudiano, na qual se atribui a Freud certos conceitos, definições e posições que não encontramos, em absoluto, em sua obra. Frases do tipo “o sujeito em Freud”; “a constituição do sujeito em Freud”; “a função paterna em Freud”; o conceito de falo em Freud”; “a estrutura da melancolia na obra de Freud”, dentre outras, tornaram-se usuais. Entretanto estes enunciados retratam um uso indevido e uma apropriação incorreta de seus textos, cujas conseqüências vão desde a deturpação de seu pensamento até uma proposta de escuta e de direção do tratamento que guardam pouca semelhança com as proposições de Freud.

Não estou sugerindo que o modelo freudiano seja melhor, ou pior, que outros. Além disso, sei muito bem que uma teoria deve sempre estar em movimento fazendo-nos rever seus conceitos de base. Quero apenas insistir que para se compreender a obra de Freud é necessário ler Freud, entender seus limites e questões, e não, como vem acontecendo cada vez com mais freqüência, “ler” Freud através de outros autores. Este não é um fenômeno novo, e sempre acompanhou a história da psicanálise. Basta lembrarmos que uma das razões que levou Lacan, a partir de uma rigorosa leitura do texto freudiano sempre apoiado no original em alemão, a fazer seu retorno a Freud foi, justamente, perceber quanto a leitura dos textos fundadores da psicanálise vinha sendo negligenciada. Entretanto, uma boa parte dos seguidores de Lacan parece ter esquecido isso, nunca se dando ao trabalho de ir à fonte para fazer sua própria leitura do texto e muito menos para colocar as questões que lhe parecem pertinentes. Simplesmente repetem a interpretação de Lacan do texto freudiano, sem a mínima e necessária curiosidade de ver em que contexto da obra aquela passagem foi escrita.

Um texto enquanto não for lido não existe. É um texto morto que necessita de alguém que o ressuscite, o que é feito pelo ato de apropriação do texto. Toda apropriação leva, invariavelmente, a uma interpretação a partir do efeito transferencial – que pode transformar-se em movimento ideológico – que o texto provoca no leitor. Talvez o exemplo mais conhecido seja a Bíblia cuja leitura, para citar apenas o Novo Testamento, deu origem às inúmeras interpretações que sustentam as várias vertentes do cristianismo, cada uma delas reivindicando ser a detentora da Verdade.

Os textos psicanalíticos não estão ao abrigo deste destino. É por isso que nenhum leitor de Freud pode pretender ocupar o lugar daquele que possui a chave secreta que permite leitura mais próxima da do mestre de Viena, e cair em afirmações vaidosas do tipo “o que Freud quis, de fato, dizer nesta passagem é …”

O presente trabalho retrata o início de uma pesquisa bem mais profunda que um tema de tal envergadura exige. Nele, tratarei apenas alguns pontos dos citados acima. Espero levar o debate para uma esfera mais ampla a fim de darmos prosseguimento ao novo e sempre necessário retorno a Freud.

Antes de iniciar a empreitada, gostaria de lembrar que a primeira das grandes traições que o texto freudiano sofreu talvez tenha sido a tradução da obra. A Edição Brasileira, ela mesma uma retradução daStandard Edition, é particularmente penosa. Embora os problemas que o leitor brasileiro enfrenta quando tem contato com o texto freudiano sejam por demais sabidos, gostaria de citar um exemplo emblemático que nos permite ter uma idéia da a extensão do prejuízo. Trata-se da tradução do Wo Es war, soll Ich werden.

Na Standard Edition, houve o acréscimo, repetido pela Edição Brasileira, do artigo the que não existe em alemão: Where the id was, there the ego shall be. Em português, lê-se: Onde estava o id, ali estaráo ego (1). O acréscimo do artigo muda totalmente o sentido do alemão, como já o salientara Lacan (2). A ausência do artigo no texto original leva a supor que Freud não quis, propositalmente, subjetivar nem o id nem o ego, como é o caso no texto Das Ich und das Es, aí, sim, O Ego e O Id, instâncias psíquicas da segunda tópica. Wo Es war, soll Ich werden não sugere uma transformação, uma transmutação, de uma substância (o id) em outra (o ego) (3), mas, antes, denuncia a condição de significante do sintoma lá onde se era falado (Wo Es war). Revelando a verdade até então desconhecida ao Eu, este assume a sua herança tornando-se sujeito, no sentido gramatical do termo (soll Ich werden).

Outro erro grave em conseqüência, mas que foi corrigido na nova tradução que começa a aparecer diretamente do alemão das Obras Psicológicas de Sigmund Freud, foi a tradução do Ich por Ego e não por Eu, como deveria ser.


A questão do Sujeito (Subjekt) 
(4)

Acredito que um dos pontos de maior desvio da obra freudiana esteja na utilização de sujeito. Com efeito, o uso da expressão “O sujeito em Freud” tornou-se tão popular que poucos se preocupam em saber se, de fato, Freud utiliza a palavra sujeito e, quando o faz, o que ele designa com este termo.

A primeira observação é o uso do termo Subjekt na língua alemã. Foge ao escopo deste trabalho fazer uma extensa análise do uso da palavra Subjekt na língua de Freud. Quero apenas lembrar que onde lemos sujeito em português, o termo correspondente em alemão é, muitas vezes, Untertan e não Subjekt. Este último tem um uso bem mais restrito e descritivo. Expressões como “ser sujeito” ou “estar sujeito a” são ditas em alemão de outra maneira. Quando se trata do sujeito submisso, por exemplo a uma forma de dominação, a palavra em alemão é UntertanSujeito como tema de uma discussão é Gegenstand(Objeto) ou ainda Ziel (objetivo).

E em Freud? Ao longo de toda a sua obra a palavra sujeito (Subjekt) aparece apenas 28 vezes. Uma tal raridade, nas mais de seis mil páginas escritas por Freud, não pode passar despercebida fazendo-nos pensar em um ato deliberado de evitar o uso desta palavra tão cara à filosofia ocidental e à psicologia. Destas vinte e oito citações de sujeito, onze estão em “Os Instintos e suas Vicissitudes”, sete em “Psicologia de Grupo e Análise do Ego”, e as outras dez espalhadas em diversos textos. O que se depreende da análise destas ocorrências é que Freud utiliza sujeito no sentido da forma gramatical ativa – o sujeito do verbo. Isto fica claro quando, por exemplo, discute a dinâmica das pulsões parciais: “A antítese ativo-passivo (Aktiv-Passiv) não deve ser confundida com a antítese sujeito-do-ego – objeto-do-mundo-externo (Ich-Subjekt – Außen-Objekt)“(5). O ego-sujeito pode transformar-se em ego-objeto e tratar-se como trata outros objetos: observar-se, criticar-se, e fazer inúmeras coisas consigo mesmo (6). Em frases como “Quando eu penso que, outrora, eu fui uma criança”, o Eu engloba, ao mesmo tempo, sujeito e objeto, além de ser constituído em uma dinâmica de auto-referência, e mesmo de contrários, que a palavra sujeito não expressaria (7). Em Psicologia de Grupo e Análise do Ego, texto de referência para a compreensão dos processos de identificação, o Eu encarna o dinamismo psíquico de suas capacidades identificatórias. Esse dinamismo – sua possibilidade de movimentar-se na posição de sujeito, de verbo e de objeto – é particularmente evidenciado na parte V de O Ego e o Id intitulada As relações dependentes do Ego. Ali o Eu, compreendido em termos de identificações e movimentos pulsionais, mostra suas relações com o supereu. A passagem merece ser citada (8):

A derivação do superego a partir das primeiras catexias objetais do id, a partir do complexo de Édipo, significa ainda mais para ele. Essa derivação, como já demonstramos, coloca-o em relação com as aquisições filogenéticas do id e torna-o uma reencarnação de antigas estruturas do ego [Ichbildungen = formações do Eu] que deixaram os seus precipitados atrás de si no id. Assim, o superego acha-se sempre próximo do id e pode atuar como seu representante vis-à-vis do ego. Ele desce fundo no id e, por essa razão, acha-se mais distante da consciência (consciousness) que o ego. Apreciaremos melhor estas relações voltando-nos para certos fatos clínicos, que há muito tempo perderam sua novidade, mas que ainda aguardam um exame teórico.

É neste mesmo texto que Freud define o Eu de forma mais clara: “um precipitado de catexias objetais abandonadas (…) ele contém a história dessas escolhas de objeto“ (9). Pode, entretanto, acontecer que as identificações, resultado das escolhas de objeto, levem a melhor provocando uma “ruptura do ego”, e ocasionando um estado patológico: “talvez o segredo dos casos daquilo que é descrito como ‘personalidade múltipla’ seja que as diferentes identificações apoderam-se sucessivamente da consciência“ (10). Quanto ao processo analítico, Freud o compreende em termos de movimentos pulsionais, reflexo da capacidade do Ego de rever seus investimentos libidinais que sustentam as identificações determinando, ao mesmo tempo, os limites deste processo. O trabalho analítico, escreve Freud, “não se dispõe a tornar impossíveis as reações patológicas, mas a dar ao Ego do paciente liberdade para decidir por um meio ou por outro“ (11).

As considerações aqui esboçadas de forma reduzida nos dão um idéia da complexidade da formação da instância do Eu e da importância central dada a ela por Freud. Todo este assunto se complica ainda mais se levarmos em conta a participação da aquisição filogenética neste processo. Retomarei este ponto.

Uma das mais precoces descobertas freudianas é a pluralidade dos atores psíquicos, o que só pode ser conceituado de um ponto de vista da dinâmico. Tal dinâmica, entretanto, se opõe radicalmente à noção de sujeito, ainda que dividido. Esta noção parece ser insuficiente para abarcar o dinamismo pulsional e, conseqüentemente, a diversidade das funções psíquicas responsáveis pela interface mundo exterior, psíquico e corporal as quais, para Freud, são apreendidas pelos diversos aspectos do Eu.

A noção de sujeito foi introduzida na teoria psicanalítica, todo sabemos, por Lacan. Não se trata, em absoluto, de negar as contribuições que esta noção trouxe para a psicanálise mas, antes, de questionar que escuta, e que direção do tratamento, nos trazem os caminhos abertos por esta aquisição. Por exemplo, em relação à perversão, discuto, em um artigo publicado na Reverso(12), os desdobramentos clínicos da noção de sujeito. Lá, sustento que a possibilidade, ou não, da análise de um perverso depende da teoria que sustenta a noção de sujeito com a qual o profissional trabalha.

Não é por acaso que, a partir de Lacan, a filosofia ganhou um lugar de destaque na psicanálise. A noção de sujeito – de subjetividade, de subjetivação – é tributária de posições filosóficas que remontam a Aristóteles. Entretanto, Santo Agostinho e, mais tarde, os teólogos da Idade Média modificaram radicalmente a noção aristotélica de sujeito criando, assim, as bases filosóficas e psicológicas de um sujeito cuja unicidade tem como referência o Deus do cristianismo. Ainda que Lacan tenha recurso a outros filósofos e introduza noções como alienação e separação cunhando o “sujeito dividido”, sua fonte é de inspiração agostiniana (13).

Por minha parte, acredito que uma das razões do sucesso da psicanálise de orientação lacaniana deve-se justamente à introdução maciça na teoria freudiana tanto das contribuições da filosofia quanto de outras noções tão caras à cultura ocidental monoteísta, produzindo o que chamo de “cartesianização” da psicanálise. O expoente máximo desta nova leitura é a tentativa de apreensão do funcionamento inconsciente através de fórmulas da matemática e da lógica. Ao fazer isto, entretanto, a teoria psicanalítica mudou a sua “visão de mundo” (Weltanschauung), embora saibamos as reservas de Freud sobre este ponto. Não deixa de ser curioso que para Freud (14) a filosofia é um dos três poderes, ainda que não à altura da religião, que poderiam competir com a ciência. Mesmo não influenciando diretamente a “grande massa da humanidade”, sendo objeto de interesse de “um pequeno número de pessoas da camada superior de intelectuais, e dificilmente compreensível para alguém mais”, a filosofia, como a religião, apega-se

à ilusão de ser capaz de apresentar um quadro do universo que seja sem falhas e coerente, embora tal quadro esteja fadado a ruir ante cada novo avanço em nosso conhecimento. Perde o rumo com seu método de superestimar o valor epistemológico de nossas operações lógicas e ao aceitar outras fontes de conhecimento, como a intuição.

Além disso, não passará despercebido ao leitor de Freud, em Freud, sua escancarada preferência por poetas e escritores, contra as pouquíssimas citações de filósofos, quando quer ilustrar um tema no qual está trabalhando. Ele sempre consultou os poetas para melhor compreender a alma humana: isto faz uma grande diferença.


Freud e Darwin

Para compreendermos a gênese do aparelho psíquico (seelischer Apparat) em Freud, temos que levar em conta a grande influência da teoria da evolução de Charles Darwin no pensamento freudiano. O contato de Freud com a teoria da evolução, que o marcou profundamente, começou bem cedo, quando estudava no Gymnasiumde Viena entre 1865 e 1873. Em Um Estudo Autobiográfico, Freud (15)escreve que “as teorias de Darwin, que eram então de interesse atual, atraíram-me fortemente pois ofereciam esperanças de extraordinário progresso em nossa compreensão do mundo”. Para Freud, o darwinismo era tão importante, que ele inseriu o “estudo da evolução” no programa de formação de psicanalistas. Em A questão de uma “Weltanschauung”, Freud (16)parece orgulhoso ao dizer que: “já era nascido quando Charles Darwin publicou seu livro sobre a origem das espécies”.

A história da teoria evolucionista começa a tomar forma com Georges-Louis Leclerc, o Conde de Buffon (1707-1788). No século XVIII a maioria dos naturalistas acreditava que o mundo tinha alguns milhares de anos, e que as espécies foram criadas separadamente e organizadas segundo uma hierarquia imutável na qual os humanos se posicionavam logo abaixo dos anjos. Para Buffon, interpretar significava entender a história. E, a despeito das censuras da Igreja, ele não usou a Bíbliacomo guia para a história. Ao invés disso, Buffon utilizou-se da nova física de Isaac Newton para conjeturar como a matéria em movimento teria formado nosso planeta. Em 1801 o naturalista francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, o Chevalier de Lamarck, deu um importante passo conceitual ao propor uma teoria abrangente da evolução. Mas, a grande virada que revolucionaria a compreensão da origem do homem – A Origem das Espécies – foi apresentada em 1859 por Charles Darwin na Linnean Society em Londres.

(É digno de nota que, da mesma forma que o material bruto utilizado por Darwin em sua obra já estava disponível há décadas, o material utilizado por Freud em sua postulação sobre o inconsciente também já era conhecido. Mas, foi necessário o papel catalisador desses dois gênios para dar um sentido – na dupla acepção da palavra – a todo este material.)

Curiosamente, ou lamentavelmente, cada vez menos se leva em conta a participação da herança filogenética na compreensão da formação do psiquismo. Porém, em Freud, as ambivalências emocionais, a agressividade, a severidade do superego, os elementos constitutivos de complexo de Édipo, a angústia de castração, o acervo da fantasias primitivas, e outros tantos elementos fundadores e fundantes no desenvolvimento psicossexual, todos eles, sem exceção, são trabalhados a partir da herança filogenética. O desenvolvimento bifásico da vida sexual do homem, que leva Freud a especular que “algo momentoso deve ter ocorrido nas vicissitudes da espécie humana” (17), é um “precipitado histórico”, uma “herança do desenvolvimento cultural tornado necessário pela época glacial” (18). E mesmo em seus textos mais tardios, a importância dada ao ponto de vista filogenético continua presente. Apenas um exemplo: em “O Mal-Estar na Civilização”, tecendo considerações sobre a severidade do superego, Freud (19) faz um observação surpreendente, e de certa forma nova, em relação à origem dessa severidade:

A experiência mostra, contudo, que a severidade do superego que uma criança desenvolve, de maneira nenhuma corresponde à severidade de tratamento com que ela própria se defrontou. (…) quando uma criança reage às primeiras grandes frustrações instintivas com uma agressividade excessivamente forte e um superego correspondentemente severo, ela está seguindo um modelo filogenético e indo além da reação que seria correntemente justificada, pois o pai dos tempos pré-históricos era indubitavelmente terrível e uma quantidade extrema de agressividade lhe pode ser atribuída. Assim, se passarmos do desenvolvimento individual para o desenvolvimento filogenético, as diferenças entre as duas teorias da gênese da consciência ficam ainda menores.

Além disso, outros pontos centrais para a compreensão do pensamento freudiano, como a defesa orgânica responsável pela “raiz mais profunda do recalque sexual” (20), as conseqüências evolutivas para a espécie devido à adoção da posição bípede que propiciou a passagem da primazia do olfativo (instinto), para a primazia do visual (pulsão), agora independente da periodicidade, tudo isso só faz sentido à luz da teoria da evolução.

É nesta perspectiva que o mito da horda primitiva, tal como apresentado em Totem e Tabu é o final da Odisséia do “tornar-se humano”, que começa por um outro mito, o da catástrofe ecológica, descrito em Neuroses de Transferência: uma Síntese. Lá, Freud descreve, sempre tendo a dinâmica pulsional como elemento catalisador, os processos que levam à formação do aparelho psíquico (seelischer Apparat). Neste modelo, retomado várias vezes ao longo de sua obra, o Eu constitui-se como uma modificação do Isso: uma evolução adaptativa, no sentido darwiniano, para enfrentar a violência à qual o primata do homem se viu exposto quando das mudanças provocadas por uma catástrofe ambiental. Para dar conta das transformações tanto internas (as demandas de satisfação deixaram de ser atendidas) quanto externas (o meio ambiente tornou-se hostil), foram necessárias profundas reorganizações psíquicas. Em cada momento desse longo processo evolutivo (a filogênese), que é repetido por cada novo bebê do homem (a ontogênese), a pulsão organizou-se da melhor maneira que pôde a fim de evitar o sofrimento psíquico do qual não podemos escapar (a menos que recorramos a algum “amortecedor de preocupações (21)“ para mascarar as exigências pulsionais). Cada uma dessas organizações, cada posição da dinâmica pulsional, é traduzida por Freud (22) dentro da nomenclatura médica vigente: neurose de angústia, de conversão, obsessiva, psicose, hebefrenia, melancolia. Mas, em momento algum Freud refere-se às posições pulsionais em termos de estruturas fixas. Para ele, emNeuroses de Transferência: uma Síntese, as neuroses, as perversões e as psicoses são modos de organização do Eu frente às exigências pulsionais.

Embora, em muitos aspectos, alguns pressupostos darwinianos não se sustentem mais, suas idéias centrais relativas à evolução continuam com uma atualidade desconcertante sobretudo no campo da biologia e da genética (23). Segundo os biólogos, o estudo do desenvolvimento embrionário permite perceber traços fugazes, distantes e imprecisos das metamorfoses que nos fizeram nascer (24). E não podemos nos esquecer que, para Freud (25), o campo biológico desempenha o papel de fundo subjacente para o campo psíquico.


Estruturalismo e psicanálise

Embora a palavra estrutura (Struktur) apareça repetidamente no original do texto freudiano, seria ingênuo dizer que o uso que ele fez do termo é o mesmo que hoje se faz dele. O exemplo mais citado da ocorrência da palavra é a célebre frase na qual, conjeturando sobre o aparecimento de um estado patológico, Freud (26 )escreve:

Se atiramos ao chão um cristal, ele se parte, mas não em pedaços ao acaso. Ele se desfaz, segundo linhas de clivagem, em fragmentos cujos limites, embora fossem invisíveis, estavam predeterminados pela estrutura (Struktur) do cristal.

Assim, se entendermos “estrutura” como a forma com que os elementos de uma determinada teoria se organizam – por exemplo, a teoria dos conjuntos – podemos dizer que a metapsicologia freudiana foi, desde suas primeiras formulações, uma teoria estrutural. O Projeto para uma Psicologia Científica (1895) é exemplar. Nele, Freud propõe uma teoria de funcionamento de um sistema, o aparelho psíquico (seelischer Apparat), a partir de partes interdependentes em constante inteiração.

Já o estruturalismo designa uma das mais importantes correntes de pensamento da segunda metade do século XX que conheceu grande sucesso na França, a partir dos anos sessenta – logo, posterior a Freud –, em reação ao existencialismo e ao humanismo (27). O estruturalismo privilegia, na análise e compreensão de seus objetos de estudo, a estrutura que produz os efeitos que observamos. Oriundo da lingüística de Ferdinand de Saussure e das escolas de Praga e de Moscou, o estruturalismo expandiu-se por diversos campos. Dentre seus representantes ilustres encontram-se o lingüista Roman Jakobson, o antropólogo Claude Lévi-Strauss, o filósofo Michel Foucault, o marxista Louis Althusser, o escritor e crítico literário Roland Barthes e o psicanalista Jacques Lacan.

Foi Lacan quem, radicalmente, trouxe o estruturalismo para a psicanálise. Ele retorna a Freud com um arsenal epistemológico inexistente na época do mestre de Viena. As posições teórico-clínicas de Lacan são inseparáveis das premissas do estruturalismo ainda que, no final de sua obra, ele trace caminhos próprios. O inconsciente, estruturado como linguagem, constitui a estrutura paradigmática do psiquismo: um sistema de signos onde cada um tira sua significação em função do lugar que ele ocupa no conjunto. Com a introdução dos matemas, do anel de Moebius e do nó borromeano, Lacan concebe três tipos de estruturas entendidas como modalidades de funcionamento do conjunto: a estrutura neurótica, marcada pelo recalque (Verdrängung); a estrutura perversa, engendrada pela recusa (Verneinung); e a estrutura psicótica, produzida pela forclusão (Verwerfung). É, também, a premissa estrutural que permitiu a Lacan introduzir mudanças radicais e profundas na condução do tratamento: o tempo lógico, a necessidade do diagnóstico diferencial para a determinação da direção do tratamento, dentre outras. Expedientes impossíveis de encontrarem respaldo nas posições – evolutivas – que sustentam os textos freudianos.

A partir destas considerações, vemos quanto é incorreto falar de estrutura, tal como entendida pelo estruturalismo e introduzida na psicanálise por Lacan, nos textos de Freud. Expressão como “a estrutura do narcisismo em Freud” só faz sentido se acrescentarmos uma frase do tipo “tal como entendida por Lacan”. Estas considerações, longe de constituírem um preciosismo anacrônico, são importantes se quisermos manter vivo e reconhecer o verdadeiro valor e a originalidade do pensamento freudiano.

Evolucionismo e estruturalismo: duas formas de tratar o fenômeno psíquico, duas epistemologias, duas teorias (é sempre bom lembrar que são teorias e não verdades) cuja superposição é problemática. Todas as duas apareceram em um contexto social preciso e historicamente datado. Nada impede, é claro, que façamos correlações, analogias, mas não podemos complementar certos pontos de uma teoria com outra: campos diferentes não se comunicam facilmente. Seria como ler certas passagens de Newton à luz da teoria da relatividade. Pode-se fazê-lo, mas aí não estamos mais em Newton. Estranha-me quando ouço em congresso, ou leio em textos, afirmações do tipo: “Lacan deu prosseguimento ao que Freud não terminou” ou ainda “coube a Lacan formular o real cujo caminho fora apontado por Freud…”. Tais afirmações são, no mínimo, pretensiosas. A História do Movimento Psicanalítico é marcada, desde seu início, por rupturas e dissidências muitas delas radicais. Onde estaria a psicanálise hoje se, por algum motivo, Jung tivesse sido o herdeiro que Freud tanto esperava? Que teoria teríamos hoje, como entenderíamos a clínica, se textos como O Narcisismo: uma introdução – escrito para opor-se às posições de Jung – ou O Mal-Estar na Civilização ou ainda Moises e o Monoteísmo não tivessem sido escritos? Como estaríamos pensando a psicanálise sem o dualismo pulsional? Não sabemos. Nada nos garante que se Freud tivesse vivido o suficiente para conhecer o estruturalismo, ele teria abraçado esta teoria. Pode ser que sim, pode ser que não. Como sabê-lo? As grandes e inestimáveis contribuições à psicanálise trazidas por Lacan são indiscutíveis. Mas, ao fazê-las, utilizando as novas lentes de leitura pertencentes a outras teorias, o objeto de investigação foi, inevitavelmente, modificado: ao darmos novo significado a um fenômeno, ao nomeá-lo, homem e fenômeno se modificam.


Normal e patológico

Tudo isto tem desdobramentos na concepção de normal e de patológico. Em Freud, tais categorias classificatórias são sempre tratadas em termos dos movimentos dinâmicos que sustentam os investimentos de energia, ou de suas estagnações (28):

… a cura de crises paranóicas residiria não tanto numa solução e correção das idéias delirantes, quanto numa retirada delas da catexia que lhes foi emprestada. As alternações entre melancolia e mania, entre uma cruel opressão do ego pelo superego e uma liberação do ego após essa pressão, sugerem um deslocamento de catexia desse tipo; tal deslocamento, ademais, teria de ser introduzido para explicar um grande número de fenômenos que pertencem à vida mental normal.

É na patologia da vida mental – no excesso das paixões – que a psicanálise efetua suas observações na tentativa de “discernir o que é normal nos isolamentos e deformações do material patológico” (29). É no terreno do patológico, e não no do normal, que “o analista se sente heimlich, em casa (…) para propor um teoria dos processos psíquicos”(30).

Dentre estes inúmeros processos cujo funcionamento a psicanálise desvendou, alguns são considerados patológicos e outros encaixam-se na “diversidade dos acontecimentos normais”. Entretanto, as fronteiras entre os dois não estão nítidas, posto que os mecanismos que os constituem são, em grande parte, os mesmos. O que importa, de fato, é saber se “as alterações em apreço se realizam no próprio ego ou se se confrontam com ele como estranhas a ele – caso em que são conhecidas como sintomas” (31). Ou seja, se um processo psíquico é familiar (heimlich) ao Eu (Ich) –, ele faz parte dos acontecimentos normais; se, no entanto, este processo é estranho (unheimlich) ao Eu (Ich), logo uma formação do Isso (Es), ele é considerado um sintoma. Retomamos, por outro caminho, a máxima analítica: Wo Es war, soll Ich werden.

A dialética normal/patológico ganha contornos interessantes, como observa Assoun (32), no texto freudiano Suplemento Metapsicológico à Teoria dos Sonhos. Logo na primeira frase, Freud sugere que nossa compreensão das afecções patológicas ganharia muito se comparadas a “protótipos normais” de estados afetivos. Nesta perspectiva, os estados patológicos surgiriam quando algo produziu uma modificação nosprotótipos normais (33). Este algo, divisor que marca a diferença, é o Narcisismo que, em função de como ocorre o investimento libidinal, provoca tanto os protótipos normais quanto os estados patológicos. Temos, então, o luto e, em contrapartida, a melancolia que se diferencia essencialmente do luto pela regressão [da libido] narcísica que ela provoca. O sonho e o delírio, a relação objetal e a narcísica, enfim, o normal e o patológico. Em todos estes casos é o ponto de vista dinâmico, a localização da libido, que está em causa.

O normal, entendido como uma organização libidinal familiar ao Eu e não uma norma cujo desvio geraria a patologia, é definido de outra forma quando analisado a partir da neurose e da psicose. Partindo da patologia, e não o normal, Freud chega ao “comportamento ‘normal’ ou ‘sadio’“ após um longo debate sobre como a realidade é tratada nestas duas organizações psíquicas.

Chamamos um comportamento de ‘normal’ ou ‘sadio’ se ele combina certas características de ambas as reações – se repudia a realidade tão pouco quanto uma neurose, mas se depois se esforça, como faz uma psicose, por efetuar uma alteração dessa realidade. Naturalmente, esse comportamento conveniente e normal conduz à realidade do trabalho no mundo externo; ele não se detém, como na psicose, em efetuar mudanças internas. Ele não é mais autoplástico, mas aloplástico (34).


Considerações finais

Os pontos que privilegiei neste trabalho são os que me pareceram mais importantes por constituírem os que mais se distanciam daquilo que se lê em Freud. Os outros que citei no início deste texto – “a função paterna em Freud”, “o conceito de falo em Freud” – poderiam igualmente ser discutidos dentro das mesmas premissas que utilizei. Assim, embora a questão do pai seja central na obra de Freud, falar em “função paterna em Freud” é um salto para o qual não encontramos apoio nos textos freudianos. O próprio nome da função – paterna –, de forte conotação ideológica, tende a preservar o culto milenar da figura do pai, transformando a psicanálise em uma defensora da autoridade paterna cuja ausência explicaria todos os males. (A psicanálise como uma Weltanschauung?). O próximo passo seria ditar as condições estruturais “ideais” para uma travessia satisfatória, leia-se normalizante, do Édipo e entender as categorias de neurose, psicose e perversão como estruturas fixas e imutáveis.

Quanto ao conceito de falo em Freud, ele, também, não encontra sustento metapsicológico em sua obra. Basta lembrarmos que foi a separação pênis/falo que permitiu a Lacan falar de castração simbólica e dar uma interpretação, sem dúvida genial, ao complexo de castração. Já para Freud, a castração, ou melhor, a angústia de castração terminaria quando, na adolescência, a realidade material pênis-vagina substitui a realidade psíquica fálico-castrado. Este e outros pontos serão aprofundados posteriormente.

Meu propósito neste texto foi o de lembrar quanto Freud e as premissas psicanalíticas que ele propõe têm sido cada vez mais negligenciados. Não se trata, repito, de negar a importância das contribuições de outros autores para o avanço da revolucionária teoria inaugurada por Freud. Entretanto, quando o estudo dos textos de Freud é relegado a um segundo plano, a uma “bibliografia complementar”, os conceitos de Freud correm o risco de serem adulterados fazendo com que a originalidade da psicanálise siga o mesmo destino.

Bibliografia:

(1) FREUD, S. (1933) A dissecação da personalidade psíquica, Conf. XXXI. ESB, v. XXII, 1976, p. 102.
(2) LACAN, J. La chose freudienne, Écrits, Paris: Seuil, 1966, p. 416.
GARCIA-ROZA, L. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 8. ed., 1993.
(4) A parte que se segue é inspirada, sobretudo, em BOMPARD-PORTE, M. Le sujet. Paris: L’Esprit du Temps, 2006. & TORT, M. Fin du dogme paternel. Paris: Aubier, 2005.
(5) FREUD, S. (1933) Os instintos e suas vicissitudes. ESB, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 155.
(6) FREUD, S. (1914) Sobre o narcisismo: uma introdução. ESB, v.XIV, 1974 &FREUD, S. (1933) A dissecação da personalidade psíquica, Conf. XXXI, idem.
(7) BOMPARD-PORTE, M. Le sujet. idem. p. 7.
(8) FREUD, S. (1923) O ego e o id. ESB, v.XIX. Rio de Janeiro: Imago, 1976, p.64.
(9) FREUD, S. (1923) O ego e o id. idem, p. 43.
(10) FREUD, S. (1923) O ego e o id. idem, p. 45.
(11) FREUD, S. (1923) O ego e o id. idem, p.67, nota. (sublinhado no original)
(12) CECCARELLI, P. R. Perversões e suas versões. In: Reverso, ano 27, n.52, Revista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, p.43-50, 2005.
(13) BOMPARD-PORTE, M. Le sujet. Paris: L’Esprit du Temps, 2006, p. 5 e seg.
(14) FREUD, S. (1933) A questão de uma “Weltanschauung”. ESB, v.XXII, 1974, p. 196.
(15) FREUD, S. (1925) Um estudo autobiográfico. ESB, v.XX, 1976, p. 19.
(16) FREUD, S. (1933) A questão de uma “Weltanschauung”. idem, p. 210.
(17) FREUD, S. (1926) Inibições, sintoma e angústia. ESB, v.XX, 1976, p. 179.
(18) FREUD, S. (1923) O ego e o id. ESB, v.XIX, 1976, p. 50.
(19) FREUD, S. (1929) O mal-estar na Civilização. ESB, v. XXI, Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 133. (os grifos são meus)
(20) FREUD, S. (1929) O mal-estar na Civilização. Idem, p. 126, n 2.
(21) FREUD, S. (1929) O mal-estar na civilização. Idem, p. 97.
(22) FREUD, S. (1928) Neuroses de transferência: uma síntese. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
(23) Dois exemplos recentes: AMEISEN, J-C. La sculpture du vivant. Paris: Seuil, 2003. & LA RECHERCHE (org.) Homo Sapiens: L’odyssée de l’espèce. Paris: Tallandier, 2005.
(24) AMEISEN, J-C. La sculpture du vivant. Idem.
(25) FREUD, S. (1929) Análise terminável e interminável. ESB, v.XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
(26) FREUD, S. (1933) A dissecação da personalidade psíquica, Conf. XXXI. Idem, p. 77.
(27) AUFFRET, D. Structuralisme et psychanalyse. In: DE MIJOLLA, A, (org.), Dictionnaire International de la Psychanalyse, Paris: Calmann-Lévy, 2, 2OO2, p. 1646.
(28) FREUD, S., (1927) O humor. ESB, v. XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 193. (os grifos são meus)
(29) FREUD, S. (1927) O humor. Ibid.
(30) ASSOUN, P-L. S. Malaise de la recherche, recherche sur le malaise. Le normal et le pathologique en psychanalyse. In Recherches en Psychanalyse, Paris, 2006, 5, p. 15.
(31) FREUD, S. (1939) Moises e o monoteísmo. ESB, v.XXIII. Rio de Janeiro: Imago, 1975, p. 148.
(32) ASSOUN, P-L. S. Malaise de la recherche, recherche sur le malaise. Le normal et le pathologique en psychanalyse. In Recherches en Psychanalyse. Idem.
(33) FREUD, S. (1915) Suplemento metapsicológico à teoria dos sonhos. ESB, v.XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1974, p. 253. (sublinhado no original)
(34) FREUD, S., (1924) A perda da realidade na neurose e na psicose. ESB, 1976, XIX, p. 231. (sublinhado no texto)


Paulo Roberto Ceccarelli
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e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Sócio de Círculo Psicanalítico de Minas Gerais; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG (graduação e pós-graduação).

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