ACASO, REPETIÇÃO E SEXUALIDADE: COMO COLOCAR “CAMISINHA” NA FANTASIA?[1]

in Cuidado e saúde: práticas e sentido em construção, Moreira, A.; Oliveira, P.; Piani, P. (org.). Belém: Paka-Tatu, p. 69-86, 2013

 

[+] Download deste texto como PDF

 

[1] – Este trabalho faz parte de um projeto de pesquisa em desenvolvimento referente à Perdas mitológicas e sofrimento psíquico, e conta com uma Bolsa de Produtividade e m Pesquisa (PQ) do CNPq. Número do processo: 309881/2010-2

 

Tudo que e que existe no universo é fruto do acaso e da necessidade.

Demócrito

 

Podemos supor que, desde o momento em que uma situação, tendo sido uma vez alcançada, é desfeita, surge um instinto [Trieb] para criá-la novamente e ocasiona fenômenos que podemos descrever como uma 'compulsão à repetição'.

Freud

 

Para onde vai a minha alma, e quem a leva?
Por que faço eu sempre o que não queria?
Que destino contínuo se passa em mim na treva?
Que parte de mim, que eu desconheço, é que me guia?

Fernando Pessoa

 

Introdução

Em uma era marcada por grandes realizações no campo da ciência e da tecnologia – o que por vezes nos dá a ilusão de termos tudo sobre controle – a realidade nos reserva surpresas por vezes desagradáveis. Dentre os acontecimentos que abalaram nossa onipotência narcísica nas últimas décadas, a Aids tem um estatuto muito particular. Além de tratar-se de uma epidemia que há mais de três décadas vem desafiando o saber médico, ela desperta demônios seculares que se acreditava relativamente exorcizados – a sexualidade e suas práticas – e destrói uma de nossas mais profundas ilusões: a imortalidade.

Na Aids o imaginário ligado ao sexual, o enigma por excelência do ser humano, mostra toda a sua força: por mais que se façam campanhas de prevenção, se insista sobre a necessidade do uso do preservativo para evitar a contaminação do HIV, o resultado obtido não tem sido o esperado: o HIV continua se transmitindo principalmente por contato sexual e isto independentemente da classe social e do nível de informação que se tenha sobre o assunto.

Infelizmente, situações limites são, às vezes, necessárias para que determinados valores sejam revistos. Foi o que aconteceu em relação à Aids. O estado de coisas que ela provocou foi de tal forma dramático que a sociedade, de uma forma ou de outra, foi obrigada a integrar, que ela o queira ou não, certos grupos sociais que, até então, eram considerados minoritários, quando não marginalizados ou segregados. Não se pôde mais, sobre um pretexto moral, ignorar certas práticas sexuais, pois era toda a sociedade que estava em jogo. Em face de uma doença que concerne todos nós, e cuja contaminação reenvia o sujeito à sexualidade, tornou-se inevitável "falar de sexo", por mais difícil que seja a abordagem do tema, devido à carga de preconceitos a ele associado. A reorganização dos costumes e valores que se seguiu à descoberta do HIV levou a uma discussão mais realista sobre as sexualidades "marginais": prostitutas, prostitutos, garotos/as de programa, relacionamentos homoafetivos, relações extraconjugais, práticas ditas "perversas"… Tudo isto nos obrigou a refletir sobre a máxima de Freud escrita há mais de 110 anos: "Em matéria de sexualidade, somos todos, no momento, doentes ou sãos, não mais do que hipócritas” (Freud, 1898, 292).

Sabe-se hoje o elevado preço que a sociedade está pagando por ter assimilado a Aids a grupos minoritários os quais, por sua vez, puderam se organizar melhor e se proteger. Ao insistir em circunscrever a Aids aos chamados "grupos de risco" – falou-se mesmo de "peste gay" – e defini-la como "castigo de Deus" e outras tantas posições que traduzem uma rigidez moral, evitou-se, com efeito, abordar o centro da questão: a sexualidade e de suas práticas. Tal postura só contribui para a proliferação do vírus, pois os que não pertenciam aos "grupos de risco" sentiram-se magicamente protegidos. Esta idéia "tranqüilizadora" ainda persiste em homens e mulheres fazendo com que alguns/as tenham atitudes extremamente preconceituosas em relação à Aids, que podem ser entendidas como uma maneira de lidar com o medo e com angústia associados, no imaginário social, à contaminação pelo HIV: sexualidade ilícita, pecaminosa, merecedora de castigo. Como se uma doença tivesse preferências sexuais! E, embora hoje se fale de "comportamentos de risco", o estigma da sexualidade marginal continua, pois a verdadeira segregação ocorre no interior do aparelho psíquico: projetamos no outro – no diferente, no inimigo, no estrangeiro – aquilo que nos ameaça de dentro. Esta é a base do preconceito cuja função na economia psíquica é a de criar uma barreira imaginária contra aquilo que deve, a todo custo, ser afastado da consciência (Ceccarelli, 2000). Entretanto, a realidade não se preocupa com as vaidades humanas: estatísticas recentes mostram que são as mulheres casadas muitas das quais nunca tiveram relacionamento extraconjugal, as grandes vítimas atuais da Aids (Guedes e col. 2008, 2010). Há alguns anos atrás o Bois de Boulogne, famoso parque em Paris, foi "fechado", pois a porcentagem de prostitutas e travestis contaminados com o vírus HIV que lá faziam ponto era significativa. Os freqüentadores deste local eram, em sua grande maioria, respeitáveis pais de família. A própria feminização da Aids denuncia, a meu ver, o retorno do recalcado sob um modo terrível e catastrófico. Mais uma vez, cala-se diante da sexualidade feminina que sempre foi problemática para o imaginário da cultura ocidental (Ceccarelli, 2008). Não se pode mais ignorar esta nova realidade; não dá mais para dizer "aqui em casa isto jamais acontecerá", quando isto está acontecendo ao lado, no vizinho onde, igualmente, achou-se que isto jamais aconteceria. Ao mesmo tempo, e isto atinge a posição subjetiva da mulher, posicionar-se diante do parceiro quanto ao uso do preservativo é, antes de mais nada, posicionar-se como cidadã e sustentar uma fala de sujeito para sujeito.

Uma primeira conclusão que se depreende disto é que toda tentativa de se "falar de sexo", e isto em qualquer nível que se queira abordar a questão, tem necessariamente que levar em conta a dimensão fantasmática da sexualidade, e a informação objetiva pouco altera os aspectos pulsionais do problema.

Para avaliar a participação dos elementos inconscientes relativos à Aids, a psicanálise se mostra extremamente atual, pois seus pressupostos teórico-clínico ajudam a compreender a construção da psicossexualidade, as suas influencias nas práticas sexuais: a psicanálise pode ajudar no cuidado consigo próprio.

                   

A atualidade da psicanálise

Minha intensão não é abordar a importância da ruptura psicanalítica mas, apenas lembrar alguns pontos da revolução causada pela descoberta do inconsciente.  

Na cultura ocidental, a sexualidade tem recebido leituras diversas de acordo com a ideologia discursiva do momento sócio-histórico em questão (Ceccarelli & Salles, 2010). Na época de Freud, o discurso psiquiátrico, marcado por uma visão moralista, empenhava-se em compreender e tratar os chamados "efeitos nocivos da sexualidade" (Ceccarelli, 2000). Embora o desejo sexual fosse reconhecido como uma energia fundamental presente em toda ação humana, era necessário distinguir quando ele era "bom", tanto para o sujeito quanto para a sociedade, e quando era "ruim", gerador de disposições perversas.

Os grandes psicopatólogos do século XIX esforçaram-se para traçar um “herbário dos prazeres" (Foucault, 1985, 63), que ia do simples admirador de sapatos até aos que exibiam o “sentimento contrário”, ou seja, a homossexualidade.

Em meio a esta efervescência positivista, um neurologista pouco conhecido lança em 1905 um texto intitulado Três ensaios sobre a Teoria da sexualidade que, na época, não passou de mais uma publicação, dentre as inúmeras outras sobre o tema.

A grande genialidade de Freud foi a virada fundamental e profundamente inovadora que ele provocou na compreensão do acontecimento psíquico. Sem trazer nenhum material clínico que não fora observado e classificados por seus predecessores, Freud faz uma afirmação escandalosa que lhe custou insultos e injúrias, e o levou a ser taxado de imoral e obsceno. Nos Três ensaios Freud (1905) nos mostra que as tendências perversas catalogadas como aberrações humanas assombram o espírito de todos os homens, inclusive daqueles que as catalogaram; que elas estão, igualmente, presentes nas crianças, pois a sexualidade infantil é polimorficamente perversa. As práticas que os perversos põem em cena animam o inconsciente de todos os homens.

Freud vai mais longe ainda ao mostra que o objetivo da sexualidade humana não é a procriação, mas sim o prazer. No ser humano, a sexualidade é em si perversa, pois age a serviço próprio e não segundo uma "natureza" instintual tal como nos outros aninais.

A partir das premissas psicanalíticas pude mostrar que a sexualidade tem uma dupla história que guardam estreitas relações entre elas (dentre outros: Ceccarelli, 2000, 2004, 2007, 2009, 2010 & Ceccarelli, Salles, 2010). A primeira, diz respeito a como a sexualidade e suas manifestações tem sido tratada ao longo da história da humanidade; a segunda nos informa como cada sujeito constrói a sua psicossexualidade a partir dos movimentos pulsionais decorrentes dos conflitos entre as instâncias psíquicas, tendo a dinâmica edípica como pano de fundo. Poderíamos, então, chamar de sexualidade "normal", que varia de um sujeito a outro, aquela que repete, em encontros propositais ou ao acaso, a polimorfia sexual infantil, em uma relação de objeto na qual o desejo do outro é levado em contra, centrada na primazia genital.

 

Acaso e repetição

A peça que o Eu representa no palco de seu teatro psíquico vem sendo elaborada e reelaborada inúmeras vezes desde os primórdios da sua constituição. Sem mesmo se dar conta do que está acontecendo, o Eu repete enredos infantis: o cenário da excitação erótica é uma "autobiografia disfarçada em ficção" (Stoller, 1993, 123). Ali, se reatualizam conflitos intrapsíquicos fundamentais, assim como lembranças – reais ou encobridoras –, situações traumáticas, enfim, os movimentos pulsionais em busca de satisfação. O desfecho final pode levar a um happy end, como o orgasmo, ou ser gerador de angústia e inibição. Os elementos – reais ou imaginários – que capturam o Eu e que participam da peça preenchem critérios (inconscientes) que os adequam aos papeis que devem representar.

Devido à ação do recalque, os caminhos identificatórios e as escolhas de objeto encenadas escapam à lógica consciente. Sendo, como sabemos, o inconsciente o infantil, a da polimorfia da sexualidade infantil, presentes no cenário erótico do adulto, são percebidas pelo Eu como "estranha" (Unheimlich), pois porta-voz de um outro que não é mais familiar.

A vida sexual é feita de encontros que despertam o desejo; encontros ligados a contextos e a objetos que nos capturam. Pode ser o corpo do outro, parte(s) dele, um jeito de ser, de andar, de falar, um gesto. Enfim, algo por vezes preciso, mas, na maioria das vezes, difícil, senão impossível de determinar: situações fantasmáticas ou reais, devaneios, sonhos… Este "algo" em nós mesmos que o outro encarna nos escapa e nos fascina, pelos elementos desconhecidos que contém: não existe liberdade sexual. Entretanto, isto não significa que não se possa dizer "não" a partir de um querer consciente. Ou seja, ainda que não se possa evitar sentir o que se sente, pode-se escolher não ceder. Contudo, a dificuldade desta escolha é diretamente proporcional ao elemento pulsional envolvido. Quanto maior a sua força, ou quanto mais estranha (Unheimlich) a sexualidade é experimentada pelo sujeito, isto é, quanto mais reprimida ela for – e o termo é repressão (Unterdrückung) e não de recalque (Verdrängung) – menor será a sua capacidade de se posicionar em relação às demandas do Isso (Id).

Os encontros sexuais são, em grande parte, marcados por pequenos detalhes que escapam ao controle. E por fugir a uma compreensão lógica, explicável pela razão, podem ser sentidos como irracionais, pois a inteligibilidade do objeto de desejo é de outra ordem: a da dinâmica pulsional das identificações inconscientes, tal como o desvela, via transferência, o trabalho analítico. A vida sexual exprime coisas que, em outras esferas da existência, aparecem de forma bem mais disfarçadas. E, justamente por isto, está muito mais exposta aos excessos do pathos, das paixões, do desconhecido de si mesmo que ultrapassa tudo, toda regra, todo bom senso que o sujeito acreditava possuir.

O acaso é um componente de peso da vida sexual: ele provoca a repetição, e seu desfecho pode ser bom ou ruim, criativo ou desruptivo. O trabalho analítico pode ajudar a distinguir os "acasos": alguns podem causar medo, mas o risco vale a pena, pois o resultado pode ser positivo; já outros podem trazer consequências desastrosas para o sujeito, tanto no plano relacional quando no individual. Posicionar-se quanto a isto, é ser menos dependente das repetições inconscientes: "onde Isso estava, lá Eu apareço (Wo es war, soll ich werden).

O acaso é como o fragmento diurno do sonho: em si, não tem nenhuma importância mas, como o resto diurno, provoca movimentos psíquicos que, como nos sonhos, podem revelar desejos inconscientes. O acaso nos expõe a imprevistos, desvelando e repetindo, aspectos (des)conhecidos e surpreendentes da nossa sexualidade: o efeito que o outro produz em mim, não está nele, mas em mim, embora Eu (conscientemente) não saiba disso (do Isso; do Id).

A repetição sempre foi um tema caro a Freud (1914, 1920, 1925, 1933). Ela nos fala da "natureza conservadora das pulsões" (Freud, 1933, 133) que, quando toma o caráter de uma compulsão é um dos maiores obstáculos a ser vencido no processo analítico. Após as resistências do Eu terem sido removidas, resta ainda a resistência do inconsciente a ser superada: "o poder da compulsão à repetição – a atração exercida pelos protótipos inconscientes sobre o processo instintual reprimido" (Freud, 1925, 184).

Os "protótipos inconscientes" são as modalidades de satisfação pulsional  que nunca abandonamos de bom grado, ainda que uma outra forma de satisfação já nos acene (Freud, 1917). O trabalho analítico é rico em exemplos nos quais, malgrado o sofrimento do Eu, é grande a dificuldade de abrir mão de determinada forma de satisfação (da pulsão) devido, justamente, a seu caráter conservador: por estarem sempre em busca de satisfação – ainda que algo inerente à pulsão impeça sua satisfação completa (Freud, 1920) – qualquer objeto é bom na tentativa satisfazê-la, independentemente do sofrimento que esta forma de satisfação possa causar ao sujeito.

Tudo isto, já nos diz muito sobre a questão da prevenção da Aids, e de sua difícil abordagem: como fazer para que o desconhecido (Unheimlich) da sexualidade volte a ser familiar (Heimlich), para que o sujeito lide de forma menos ameaçadora com a sua sexualidade (Chaves Lima & Guedes Moreira, 2008)?

Para se obter um resultado significativo nas campanhas de cuidado e prevenção, a sexualidade deve ser vista de outra forma. Caso contrário, a moral sexual civilizada sairá vencedora, a despeito dos modelos utilizados.

 

Repetição, sexualidade e AIDS

Sem dúvida, a “revolução sexual” trouxe uma maior transparência das práticas sexuais, fazendo com que os assuntos relativos à sexualidade não constituem mais tabus (Ceccarelli, 2004).

Entretanto, a “desrepressão” da sexualidade trazida pela revolução sexual não tornou o contato com o sexual – o desconhecido dentro de nós – mais simples: a desrepressão não foi seguida, e não poderia sê-lo, por um desrecalcamento da mesma. Temos aqui duas variáveis que afetam regiões psíquicas diferentes e que não podem receber o mesmo tratamento. O recalque (Verdrängung), processo que diferencia o ser humano, traduz o movimento constitutivo da nossa espécie, condição necessária à existência da civilização. Presente desde sempre e em toda cultura, ele obriga-nos a abandonar nossos primeiros objetos sexuais operando, assim, a "mutilação mais drástica que a vida erótica do homem em qualquer época já experimentou" (Freud, 1930, 124). Já a repressão (Unterdrückung) sexual está atrelada ao sistema de valores que sustenta o imaginário social do qual emerge: trata-se de uma construção sócio-histórica e varia de uma cultura a outra.  A moral sexual cria o discurso ideológico que sustenta as noções de normal e patológico as quais, na maioria das vezes, são apresentadas como inquestionáveis, logo naturais e imutáveis. Isto significa que a sexualidade em si, foi muito pouco alterada pela desrepressão: uma maior liberdade da sexualidade genital, não tornou o contato com os elementos recalcados da sexualidade mais simples. Prova disse, é que nos consultórios continuamos a receber pessoas de todas as idades a procura de ajuda por "problemas sexuais" os mais variados. É comum alguém dizer que "não sabe por que está tendo problema para transar, pois este assunto nunca foi tabu." A banalização da sexualidade provocou, ironicamente, problemas de outra ordem: não raro, o diálogo aberto entre pais e filhos sobre a sexualidade transforma-se em "cenas de sedução", por aproximar-se demais de conteúdos recalcados, o que pode levar a uma bloqueio da sexualidade. Pais e adolescentes não estão imunes ao retorno de moções pulsionais recalcadas geradoras de culpa, inibições ou sintomas: uma repressão menos intensa não é garantia de satisfação pulsional.

O sistema de valores da cultura ocidental tem sua origem no imaginário judaico-cristão, que apresenta uma visão negativa da sexualidade, ligada ao pecado, responsável pela perda do paraíso (Ceccarelli, 2007). Neste imaginário, apoia-se a Moral Sexual Civilizada, responsável pela Doença Nervosa Moderna, que comete “uma das mais óbvias injustiças sociais” (Freud, 1908, 197): exigir de todos uma idêntica conduta sexual pela imposição da mesma força repressiva a indivíduos constitucionalmente diferentes. Mais ainda: o ideais sociais, derivados do sistema de valores no qual o sujeito encontra-se inserido, participam ativamente na formação do superego (Freud, 1924). Foi precisamente contra a moral sexual que incidiu a revolução sexual.

Ai está, a meu ver, uma das principais dificuldade a ser enfrentada na prevenção da Aids e, posteriormente, no cuidado aos portadores do vírus e dos que já manifestam a doença: a luta entre as demandas pulsionais, indiferentes aos valores sociais, e as restrições impostas, via superego, pela moral sexual.

Se, como vimos, as pulsões procuram satisfação pelo caminho da repetição, há de se levar em conta que falar de prevenção não é uma empreitada fácil, pois obriga-nos a falar de "algo" que atinge diretamente nossos conteúdos reprimidos. Mas o que significa "fazer sexo" para o ser humano? Que cenários fantasmáticos inconscientes são então evocados tanto naqueles que relatam suas vidas sexuais quanto nos que os escutam?

Os profissionais da saúde são constantemente confrontados com as pluralidades das sexualidades – drogas, sexualidades compulsivas, doenças psicossomáticas, problemas de identidade, e outras tantas – assim como com as conseqüências destas manifestações, em particular as relacionadas com o HIV-AIDs. Um/a paciente HIV positivo, ou que já apresenta os sintomas da doença, atinge frontalmente nossa onipotência narcísica, destruindo uma das mais profundas ilusões do inconsciente: a da imortalidade. Entretanto, estes mesmos profissionais não são imunes ao retorno de moções pulsionais recalcadas e reprimidas de suas sexualidades, e do peso do discurso social que circunscreve certas práticas sexuais na esfera da sexualidade ilícita, gerando preconceito e discriminação: a moralidade cristã "situa os principais pecados da humanidade nos quartos de dormir" (Ranke-Heinemamm, 1996, 47).          

Em minha experiência clínica em atendimento e supervisão de pacientes portadores do HIV-Aids constato um fato curioso: embora a contaminação por outras vias,  que não a relação sexual, seja, felizmente, cada vez mais rara, parece existir uma maior tolerância com aqueles/as que se contaminaram desta forma. Como se a Aids contraída via sexo, sobretudo no caso de homossexuais, fosse mais contagiosa que as outras. Isto só vem a confirmar que aqueles que lidam com o pathos, com o sofrimento, não estão imunes as suas sexualidade: tanto o que não pode ser falado, o reprimido, quanto os aspectos recalcados da sexualidade de cada um, são evocados – contratransferência – naquilo que nossos pacientes nos trazem. Aquele que se contaminou via sexo, desperta a antiga idéia de que "pecou", fazendo sexo quando não deveria e com quem não deveria.

Tenho ouvido relatos de pacientes que mostram que "um conflito psíquico pode transformar-se numa dissociação psíquica” (Freud, 1908a, 217), fazendo-os dissociar sexo e DST. Outros vivem a sexualidade como uma opção de consumo: uma “adicção ao outro” (Joyce McDougall, 1997). Para alguns, usar o preservativo é colocar algo entre ele/ela e o/a parceiro/a, o que impediria a completude da relação. Existem ainda aqueles/as que só concebem uma prática sexual de tal forma “pré-formatada” que qualquer elemento novo, por exemplo o uso do preservativo, bloqueia toda fantasia. Lembro-me de um sujeito que me disse que queria guardar dentre dele um “traço do outro” e que, naquele momento, o fato do parceiro ser, ou não, portador do HIV era-lhe totalmente indiferente. Como se colocar o preservativo trouxesse para a cena sexual um terceiro elemento. Tais relatos nos incitam a refletir sobre a atualidade da primeira teoria das pulsões de Freud na qual o conflito psíquico se expressa pela oposição entre as pulsões do eu (autoconservação) e as pulsões sexuais (libido). A instância reguladora deste conflito – o princípio de prazer/desprazer – estaria pendendo para as pulsões sexuais em detrimento da autoconservação.

Nos adolescentes, as campanhas de esclarecimento e prevenção, tanto de DST quanto para evitar a gravidez, tem se mostrado pouco eficazes. Para alguns/as as propostas dessas campanhas são percebidas como ameaças à virilidade ou à feminilidade. A entrada no mundo dos adultos, e o conseqüente abandono do universo infantil, exigem dos/as jovens "uma das realizações psíquicas mais significativas, porém também mais dolorosas, do período da puberdade: o desligamento da autoridade dos pais" (Freud, 1905, 234). A angústia daí advinda, somada às exigências e expectativas do grupo mas, sobretudo internas próprias desta época, fazem que o recurso a onipotência característico da adolescência, tome o primeiro plano: "comigo isto não vai acontecer"; ou "eu sei quando dá pra transar numa boa". Para alguns, o uso do preservativo transforma-se em um ataque à masculinidade, pois, ser homem é 'naturalmente' ter menos controle dos impulsos sexuais e agressivos.

A linha divisória entre as meninas para “namorar e casar”, vistas como honestas, de caráter, e as "vadias", as de rua, "fáceis de ganhar", projeta nas últimas o sexo prazeroso onde tudo é possível. Nas primeiras, identificadas com o papel da (própria) mãe, é projetada uma sexualidade pura, do gênero "papai-mamãe", o que só dificulta a utilização do preservativo dentro de caso, fazendo com que as estatísticas da feminização da AIDs não parem de crescer (Guedes e col. 2008, 2010).

Para as meninas, e muitas vezes para as mulheres, exigir o uso do preservativo é, além de deixar o papel "passivo", mostrar-se familiarizada com algo que, "uma menina de família", não deveria saber. Pior ainda: ter uma camisinha consigo é correr o risco de ser chamada de vadia, além de colocar a si mesma em dúvida para o parceiro.

Usar o preservativo implica num ato de pensar, e não de agir, o que é por vezes difícil na adolescência quando sabemos que, neste período, o agir, e não o pensar, é um expediente amplamente utilizado como defesa para não se entrar em contato com conteúdos inconscientes (Sanches, 1997).

Seja como for, uma coisa aprendemos desde o aparecimento da Aids: o silêncio, principalmente quando esconde o preconceito, pode ser a pior das epidemias!

Qualquer campanha para lidar com a sexualidade tem de levar em conta o acaso nos encontros sexuais. Acaso que afeta a dimensão fantasmática da sexualidade, ou seja, seus elementos recalcados e reprimidos, evocando repetições de satisfações pulsionais dificilmente abandonáveis: não se coloca camisinha na fantasia!

—————–

Paulo Roberto Ceccarelli*

*Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Pós-doutor por Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Sócio do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais; Membro da Société de Psychanalyse Freudienne, Paris, França; Membro fundador da Rede Internacional em Psicopatologia Transcultural; Professor da PUC-MG. Professor credenciado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia/UFPA; Orientador de Pesquisa e Professor do Mestrado Profissional de Promoção de Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG; Pesquisador do CNPq.

—————–

Bibliografia:

CECCARELLI, PAULO R. Sexualidade e Preconceito. In: Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental. Ano III, n° 3, p.18 -37, 2000.

______________________________. Sexualidade e consumo na TV. In: Psicologia Clínca. 2, v. 12, p. 59-68, 2004.

______________________________. Reflexões sobre a questão lésbica. In: LES Online: http://www.lespt.org/lesonline, Vol. 1, 1, 2009.

______________________________. A patologização da normalidade. In: Estudos de Psicanálise. Aracaju, 33, p. 125-136, jul. 2010.

CECCARELLI, Paulo. R., & SALLES, Ana C. A invenção da sexualidade. In: Reverso, Revista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ano XXXII, 60, p. 15-24, 2010.

CHAVES LIMA, Maria L. & GUEDES MOREIRA, Ana C. Aids e feminização: os contornos da sexualidade. In: Mal-estar e subjetividade. VII, 01, p. 103-118, 2008.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Edições Graal, 6ª ed., 1985.

FREUD, Sigmund. (1898). A Sexualidade na Etiologia das Neuroses. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, v. III, 1976.

____________________. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, v. VII 1972.

_____________________. (1908). Moral sexual civilizada e doença nervosa moderna. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, v. IX, 1976.

____________________. (1908a). Sobre as teorias sexuais das crianças. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, v. IX, 1976.

____________________. (1914). Recordar, repetir e elaborar. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, v. XII 1976.

____________________. (1917). Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise: conf. XXIII. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, v. XVI 1976.

____________________. (1920). Além do princípio de prazer. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, v. XVIII, 1976.

____________________. (1924). O problema econômico do masoquismo. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, v. XIX, 1976.

____________________. (1925). Inibições, sintomas e ansiedade. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, v. XX, 1976.

____________________. (1930). O mal-estar na civilização. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, v. XXI, 1974.

____________________. (1933). Ansiedade e vida instintual. In: ESB. Rio de Janeiro: Imago, v. XXII, 1976.

GUEDES MOREIRA, Ana C. & col. Relações de gênero, saúde e produção de subjetividade: vulnerabilidade e a feminização da epidemia do hiv-aids em Belém e Barcarena. Projeto de pesquisa realizado com o apoio do CNPq. (Processo: 402953/2008-8)

GUEDES MOREIRA, Ana C. & col. Relações de gênero, feminismos, sexualidade, vulnerabilidade e, a feminização da epidemia do hiv-aids. Projeto de pesquisa realizado com o apoio do CNPq. (Processo: 402524/2010-1)

McDOUGALL, J. As múltiplas faces de Eros, Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1997.

RANKE-HEINEMANN, U. Eunucos pelo Reino de Deus. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 3º edição, 1996.

SANCHES, R. Escolhi a vida: desafios da Aids mental. São Paulo, Olhos d'Água, 1997.

STOLLER, R. Dynamiques des troubles érotiques. In: Monographies de la Revue Française de Psychanalyse: Les troubles de la sexualité. Paris, p. 119-138, 1993.

—————-

voltar ao topo