BULLYING E PÓS-MODERNIDADE: UMA RELAÇÃO INTRÍNSECA (?)

In: Polêm!ca Revista Eletrônica, v. 12, n.3 , julho/ agosto/ setembro de 2013

 

PAULO ROBERTO CECCARELLI*
e-mail: paulocbh@pq.cnpq.br
site: www.ceccarelli.psc.br

CLÁUDIO JÚNIO PATRÍCIO**
 e-mail: claudejunio@gmail.com

 

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Introdução

Vivemos numa época de profundas transformações nas principais instituições de autoridade de nossa sociedade. A consolidação do capitalismo como modelo econômico predominante alterou significativamente as relações dos sujeitos uns com os outros. Com o desenvolvimento extraordinário dos meios de comunicação no último século, fenômenos até  então desconhecidos ou tratados como banalidades ganharam destaque e repercussão nas grandes mídias. Assim com os casos de depressão nas últimas décadas do século XX, o mesmo processo parece estar acontecendo com o que vem sendo denominado de bullying. Estaríamos vivendo uma epidemia de bullying assim como, há alguns anos atrás, viveu-se uma "epidemia" de depressão?

A hostilidade entre alunos seguramente sempre existiu nas escolas desde o seu surgimento. Entretanto, é apenas nos últimos anos que o assunto vem ganhando visibilidade, como também o estatuto de violência pelos pesquisadores e pela própria sociedade. Quais seriam os motivos históricos, sociais, culturais e econômicos que fizeram com que houvesse uma modificação do pensamento?

Bullying é um termo de origem inglesa advinda da palavra bully (valentão, briguento) e que até o momento não possui correspondente na língua portuguesa. O termo começou a ser utilizado em pesquisas norueguesas realizadas pelo pesquisador Dan Olweus, a partir da década de setenta, e hoje já é utilizado por dezenas de países, inclusive pelo Brasil (Antunes & Zuin, 2008). Olweus também utiliza a terminologia “abuso entre pares”, em alguns momentos, para descrever o mesmo fenômeno  (Olweus, 1997).

Por bullying compreende-se uma ação intencional e repetida de intimidação, opressão, xingamento, chacota, agressões físicas e/ou verbais, sem motivações aparentes, causada por um ou mais estudante, que causa dor, angustia, exclusão, humilhação e discriminação à vítima (Malta et al., 2010). O bullying é marcado por uma disparidade de poder entre vítima e agressor, sendo que este quase sempre possui vantagem física e numérica sobre aquele. Segundo Neto (2005, apud Antunes & Zuin, 2008) os autores de bullying têm, em sua maioria, dois objetivos: a demonstração de poder e a obtenção de afiliação a outros colegas.

Para Olweus (1997) o bullying constitui-se em uma subcategoria de agressão ou comportamento agressivo, caracterizado pela repetitividade e assimetria de forças. É um comportamento persistente e agressivo com a intenção de causar danos físicos ou moral em um ou mais estudantes que são mais fracos e incapazes de se defenderem. A provocação é repetida e tem um caráter degradante e ofensivo. É intencional, não provocado pela vítima e pode ser considerado como uma forma de abuso, que pode ser tanto físico como psicológico.

As expressões dessa violência podem tomar a forma de abuso físico, com a utilização de socos, chutes, empurrões, pontapés, roubo ou dano a pertences, ou verbais: apelidos, insultos, ofensas de cunho racistas, homófobicas, de diferenças religiosas, econômico-sociais, culturais, dentre outros. Podem também assumir uma forma mais indireta, como a exclusão social e/ou isolamento (Bandeira & Hutz, 2010).

Uma das questões que faz do bullying  um fenômeno tão peculiar é a de saber o porquê dos agressores (valentões) escolherem como vítimas aqueles que não oferecem resistência para se defenderem; aqueles que não aparentam ameaça para a sua suposta supremacia (Pereira, 2012). No bullying, diferentemente de algumas outras violências, quer se eliminar o mais fraco e não o mais forte, como poderia se esperar.

Para que a prática do bullying ocorra, pelo menos três sujeitos são necessários no cenário da ação: a vítima, o agressor e a plateia (expectador). Segundo Pereira (2012), a plateia tem uma função fundamental no imaginário do cenário que produz o bullying: ela legitima a ação, pois a agressão precisa ser olhada e testemunhada, o que nos sugere uma dimensão  voyerista da ação.

De acordo com Zaine, Reis & Padovani (2010) a plateia também serve como  fonte de reforço para os autores do bullying, atribuindo-lhes status e poder. Estes expectadores, que constituem a plateia, tendem a não intervir em favor das vítimas por receio de retaliações ou com medo de serem eles as próximas vítimas, participando, assim, de forma passiva no bullying.

As vítimas muitas vezes são caracterizadas como sendo pouco sociáveis, inseguras, possuindo baixa auto-estima, quietas e sem reação diante da agressividade sofrida (Francisco & Libório, 2009). Em geral, não apresentam a mesma força física que seus agressores. Assim como em outros tipos de violência, os meninos tendem a ser vítimas mais freqüentemente do que as meninas (Fisher, 2010).

Os alvos do bullying geralmente não reagem à agressão, e não relatam o ocorrido aos adultos. Tal comportamento se deve à ameaça dos agressores, à vergonha, ou até mesmo à descrença de que alguém possa solucionar a situação. O silenciamento frente à agressão acaba estimulando a repetição da violência à medida que preserva os agressores.

Os agressores, assim como as vítimas, na maioria dos casos são meninos. Segundo Olweus (1997) o agressor tem sido considerado como um indivíduo procurando poder e liderança dentro do grupo de iguais. Neto (2005) aponta que os agressores, freqüentemente, veem sua agressividade como qualidade, têm opinião positivas sobre si mesmos e geralmente são bem aceitos pelos colegas. Outros estudos sugerem que os agressores apresentam uma tendência maior para comportamentos de riscos, tais como, o consumo de álcool ou outras drogas, e porte de armas (Bandeira & Hutz, 2010). Enfim, como vimos, não existe um "perfil típico" do agressor.

Estaria a nossa sociedade atual, de certa forma, estimulando a maior ocorrência de tal comportamento entre os seus indivíduos?

 

A Pós-modernidade e o bullying

A contemporaneidade é caracterizada por relações efêmeras, pelo niilismo, pelo vazio, pelo nada, pela ausência de valores e de sentido para a vida. Na modernidade, o homem dirigiu sua

atenção e libido particularmente para a Arte, para a História, e para o Desenvolvimento e para a Consciência Social, em busca de respostas que acolhessem sua angústia. Entretanto, o homem pós-moderno deu adeus a estas ilusões, já que não existe Céu nem sentido para a História (vida), o caminho foi entregar-se ao prazer, ao consumo e ao individualismo (Santos, 2004). O que era sólido na modernidade pouco a pouco foi se liquefazendo, tornando-se fluído, efêmero. Todo este processo de liquefação e efemeridade vivenciada em várias esferas da nossa sociedade pós-moderna fez com que o sociólogo Zygmunt Bauman (2001)  cunhasse o termo “modernidade líquida” para definir nosso atual momento. Antes de aprofundarmos sobre a pós-modernidade ou modernidade líquida é necessário fazermos uma pequena digressão histórica para compreendermos os caminhos que nos trouxeram até aqui.

A modernidade é deflagrada com a ruptura do Estado com a Religião. Tira-se Deus do centro do Universo e coloca a razão para substituí-lo: o homem científico matou Deus (Nietzsche, 2001). Os valores, que antes vinham do plano transcendental, agora são determinados pela vida terrena. As mudanças sócio-econômicas do século XVII, o cartesianismo, o humanismo, o iluminismo e inúmeras outras fontes científicas e filosóficas dotaram o homem de força e sabedoria. Era o início da era marcada pela Razão. A razão, insígnia do homem econômico liberal moderno, tentou organizar um mundo ideal, lógico, racional e, principalmente, ordenado. A ordem juntamente com o uso da razão são as principais características da modernidade. A sociedade moderna deveria estar sobre o controle absoluto do Estado, os instintos e a vida cotidiana deveriam ser domados pelos mecanismos estatais de modo a controlar homens e mulheres para a boa ordem da civilização (“O que”…, 2012).

O ideal moderno perdurou até o século XX. A realidade sociopolítica nos países mostrou que a emancipação social da modernidade, no qual a ciência, a política e as artes indicavam o caminho, revelou-se estéril. O conhecimento científico foi extremamente influenciado pelos avanços tecnológicos, fazendo com que ele passasse a ser medido em termos de quantidade de informação (Ceccarelli, 2010). Outros fatos ocorridos durante o século XX colocaram os valores da modernidade em xeque. As duas guerras mundiais, inúmeras revoluções, as mortes em massa, os estragos ambientais, tudo isso fez com que a Razão fosse questionada. Pouco a pouco o homem moderno foi percebendo a dimensão imaginária da razão; que a ordem se transformava no caos e que o progresso, como estava acontecendo naquele momento, poderia culminar com o fim do mundo. É neste dilema existencial, onde o futuro é incerto e que o caos está instaurado, que germina a essência do homem pós-moderno.

Na pós-modernidade passa-se a questionar radicalmente as verdades determinadas pela modernidade, tais como a crença na razão, na capacidade da ciência em dar todas as respostas (Ceccarelli, 2010). O sujeito é tomado pelas incertezas e pelas inseguranças. A ordem que evitava o caos na modernidade foi rompida e com isso viver transformou-se numa grande imprevisibilidade. O homem pós-moderno caminha como se estivesse com os olhos vendados. Ele sabe de onde veio? Sabe para onde vai? Qual o sentido da existência?

A pós-modernidade provocou mudanças em vários seguimentos da sociedade, principalmente em suas instituições, como por exemplo, a família e a escola. A família burguesa, na qual os papeis paternos e maternos estavam bem delimitados, tinha como seu sustentáculo três pilares: a autoridade do marido, a submissão da mulher e a dependência dos filhos. O pai era o provedor, o intelecto da casa, a quem todos deviam obediência e respeito. À mãe cabia a função única de zelar pelo bem-estar das crianças, pois elas são os futuros herdeiros (Ceccarelli, 2007).

Os laços rígidos que compunham as relações entre os sujeitos pertencentes desta família começam a se tornar flexíveis no momento em que o Estado começa a ocupar-se das crianças. Tal atitude do Estado faz com que o poder paterno diminua, dando início ao declínio do patriarcado, fato este muitas vezes confundido com o declínio da função paterna (Ceccarelli, 2010). O homem, até então o senhor da casa e de tudo que nele contivesse (incluindo os filhos e a própria esposa), se vê diante de uma nova realidade. A mulher ganha voz e independência, os filhos ganham autonomia e começam a questionar a autoridade paterna e materna. Após séculos de inquestionável soberania, pela primeira vez na história ocidental, o discurso dominante na sociedade é questionado, ameaçando tanto no plano privado quanto no público.

É neste cenário de profundas transformações sociais, de mobilidade das estruturas de poder, de rupturas de paradigmas preestabelecidos e de profundas incertezas que está inserido o homem pós-moderno. Na pós-modernidade, o sujeito sente-se ameaçado por tudo aquilo que é diferente, que foge ao padrão de referência ou que simplesmente possa ameaçar sua posição de poder. Tudo isso leva a uma perda das referências identificatórias constitutivas do Eu (Freud, 1923), fazendo com que o seu sentimento de identidade – uma construção imaginária – não se sustente mais. O aumento significativo da intolerância racial e religiosa durante a crise financeira européia parece corroborar nossa teoria. A prática do bullying, acreditamos, se insere neste contexto de intolerâncias, de instabilidade do poder adquirido e de receio diante do novo, do diferente. No bullying combate-se justamente o insuportável da diferença; aquilo com que o individualismo contemporâneo não permite que o sujeito tenha contato. Tal como o retorno do recalcado, o desconhecido, o estranho (Unheimlich), no sentido utilizado por Freud (1919), torna-se uma ameaça que precisa ser combatida e eliminada: tenta-se excluir de fora, o que não pode ser excluído de dentro.

Zygmunt Bauman (1998) em “O mal-estar da pós-modernidade” nos traz elementos importantes que nos ajudará a pensar o bullying e, principalmente, a relação entre vítima e agressor.

Bauman faz uma distinção entre pureza e o seu contrário imediato, a impureza, na sociedade pós-moderna. Para ele a pureza está diretamente relacionada com uma questão de ordem, isto é, tudo que é puro encontra-se em seu justo lugar e em nenhum outro lugar. Os modelos de pureza, os padrões a serem conservados mudam de uma época para outra e entre as culturas, embora cada época e cada cultura tenham o seu modelo de pureza e certo padrão ideal a serem mantidos intactos

e incólumes às disparidades. O oposto da pureza, o sujo, o imundo, são as coisas que estão “fora do lugar”. Entretanto, nada é puro ou sujo de forma intrínseca, tudo está relacionado com a localização, mas precisamente, com a localização na ordem de coisas idealizadas pelos que procuram a pureza. Assim como outros aspectos da modernidade líquida, as coisas que são “sujas” num contexto podem tornar-se puras exatamente se colocadas num outro lugar, e vice-versa.

Para Bauman (1998) o estranho é a síntese da sujeira em nossa sociedade. Assim como ela, ele desafia o propósito dos esforços de organização. O estranho despedaça a rocha sobre o qual repousa a segurança da vida. Ele é alguém que supostamente vem de longe; que não partilha as suposições locais e dessa forma acaba colocando em questão quase tudo o que parece ser inquestionável para os membros do grupo abordado. Segundo ele “todas as sociedades produzem estranhos.Mas cada espécie de sociedade produz sua própria espécie de estranhos e os produz de sua própria maneira, inimitável” (Bauman,p.27).

Na prática do bullying as vítimas podem ser consideradas “os estranhos” de Bauman. Por algum motivo aquele sujeito que é perseguido rompeu com a ordem pré-estabelecida naquela sociedade. A vítima, de alguma forma, está exalando incertezas naquele ambiente marcado por uma certeza idealizada, porém, completamente imaginária. E por gerar desordem está fazendo com que aquele espaço se torne impuro e com isso “prejudicial à saúde”. Por isso, todo esforço será empregado para banir a “sujeira” e, assim, retomar a ordem anterior. Para combater os estranhos e os diferentes, os sujeitos utilizam, segundo Bauman (1998) de duas estratégias: a primeira estratégia é a antropofágica, na qual se aniquila os estranhos devorando-os e transforma-os, depois, num tecido indistinguível do que já havia. Assim há um processo de assimilação que tem como uma das principais características tornar a diferença semelhante e abafar as distinções culturais ou lingüísticas. No bullying, a vítima é perseguida e humilhada justamente para que ela anule, elimine

aquela diferença que a diferencia do restante do grupo. A outra estratégia apontada por Bauman (1998) é a antropoêmica. Nela, o estranho é banido dos limites do mundo ordeiro e impedido de toda comunicação: é o processo de exclusão. Confinam-se os estranhos dentro de paredes visíveis dos guetos, ou atrás das invisíveis (Bauman, 1998). A exclusão é uma das principais marcas do bullying. A vítima não é considerada apta, pura o suficiente para pertencer determinado espaço ou freqüentar certo grupo, e a exclusão é a forma mais eficiente de demonstrar isso a ela. Bauman aponta que quando nenhuma das duas estratégias de combate ao estranho funciona o recurso final é a destruição física dele. O suicídio das vítimas do bullying é o resultado extremo do processo de aniquilação do estranho na sociedade pós-moderna.

 

Bullying e a instituição escolar

A escola, assim como a família, é o principal espaço de socialização e transmissão de conhecimento para crianças e adolescentes de todo o mundo. O Brasil já alcançou quase a universalização do ensino básico e fundamental em seus municípios, fazendo com que a grande maioria das crianças e adolescente de zero a quatorze anos frequente os bancos escolares. A escola é, também, uma das grandes responsáveis pela consolidação e manutenção dos padrões ético-morais: ela não apenas constrói e/ou transmite um conhecimento, mas, igualmente, reproduz padrões sociais, perpetuando concepções e valores. Isto é, ela fabricaria sujeitos (seus corpos e identidades), legitimando relações de poder, hierarquias e processos de acumulações (Junqueira, 2009).

Segundo Foucault (1987) os alunos são submetidos dentro das instituições escolares a uma pressão constante para que todos sigam um mesmo modelo e a partir desse modelo eles são obrigados à subordinação, à docilidade, a prática dos exercícios, dos deveres e de todas as partes da disciplina. Estabelece-se um sistema de igualdade formal que leva à homogeneidade entre os indivíduos, mas ao mesmo tempo introduz-se a gradação das diferenças individuais, permitindo a medição dos “desvios” em relação ao indivíduo-padrão proposto pela norma e tornando úteis as diferenças.

O ambiente escolar, ao mesmo tempo em que desenvolve a participação em comum na execução dos exercícios, cria a individualização, rompendo qualquer relação que não seja controlada pelo poder, ou ordenada de acordo com a hierarquia (Foucault, 1987). O aprendizado da competição é valorizado nas escolas, mesmo que os alunos não percebam isso (Guimarães, 2003).

De acordo com Guimarães (2003) os julgamentos morais que ocorrem nas escolas acabam por dividir os alunos em “bons” e “maus”. Tais julgamentos podem criar sentimentos de inferioridade em alguns e, em contra partida, outros podem acreditar que pertencem a uma elite e que por isso podem desprezar os que não pertencem a esta suposta elite. Para Ceccon et al. (1982) uma das finalidades das escolas seria a de formar uma minoria que mais tarde vai pensar, dirigir, planejar, dar ordem aos outros. Em contrapartida, existiria uma maioria que cumpriria as ordens e os planos feitos pelos donos do poder e do saber.

Guimarães (2003) propõe pensarmos três tipos distintos de escola: aquela idealizada por todos; a que a lei diz que existe e a escola que funciona na realidade. De acordo com esta autora, a escola idealizada funciona bem, oferece instrução e é garantia de melhora de vida a todos que passam por ela. Já perante lei, a escola que existe é democrática, aberta a todos, pois o ponto de partida e o percurso são iguais para todos, embora o sucesso seja uma consequência da inteligência e do esforço de cada um. Entretanto, a realidade nos mostra que a escola está bem distante tanto da idealizada quanto da descrita na lei.

Ainda segundo Guimarães (2003) nosso modelo de educação vigente só  educa e instrui uma minoria da população. O acesso à escola ainda não é igual para todos, sendo boa parte da população excluída de uma educação de qualidade. Outro problema apontado pela autora é que as escolas tratam da mesma maneira alunos que se encontram em situações desiguais, como uma forma de

enaltecer a meritocracia. Neste modelo de tratamento quando há o fracasso escolar de um estudante o pensamento recorrente que se tem é que o fato ocorreu devido, principalmente, a uma suposta

inferioridade  cognitiva do aluno em relação aos outros, não se levando em consideração possíveis fatores externos que por ventura possam ter influenciado ao não êxito. 

O atual modelo de educação faz com que muitos alunos sintam-se alheios ao ambiente escolar. Para muitos estudantes, a escola não tem a ver com suas vidas cotidianas (Ceccon et al., 1982). Nela não há  um espaço para seus problemas e preocupações. Há um sentimento de não pertencimento àquele espaço. Muitos não conseguem perceber o sentido nem a utilidade do que lhes é imposto. Os exercícios escolares, por exemplo, não trazem em si mesmo uma justificativa, restando ao aluno apenas uma aceitação passiva das obrigações escolares e o receio do castigo (Guimarães, 2003).

Como já o dissemos anteriormente, o fenômeno da violência na escola não é um algo novo. Há relatos de explosões em escolas que culminaram em prisões já no século XIX. O que está acontecendo atualmente são casos mais graves de violência tais como homicídios, estupros, e agressões com armas. Outro agravante é que os sujeitos envolvidos com atos de violência têm se apresentado cada vez mais jovens. Em alguns casos, professores do maternal já relatam casos de violência em crianças de quatro anos de idade (Charlot, 2002). A ideia de inocência atrelada à infância cada vez mais vem sendo questionada.

Como sabemos, a violência pode ser considerada como um sintoma, no sentido psicanalítico: a emergência de verdade que concerne ao gozo, é o que condensa verdade e gozo (Lacan, 1964/1988). Desta forma, a violência manifestaria aquilo que não funciona bem numa ordem estabelecida, aquilo que impede a intenção do prazer, ou melhor dizendo,que impede o princípio do prazer.As violências atuais, tais como o bullying, seriam então uma expressão de que  algo na ordem instituída pela atual civilização, no caso ordenada pelo sistema capitalista e seu mais gozar, não está funcionando adequadamente.

É neste cenário pouco democrático e de profundas exclusões no ambiente escolar, que está germinado as raízes do bullying. O modelo educacional atual não atende às necessidades da maioria

da população, por ser pautado em valores e comportamentos da classe média, que mantém valores elitistas e discriminatórios. As escolas atuais estimulam a regra do cada um por si, da competição, privilegiando o esforço, o trabalho e o sucesso individuais. A ideia de solidariedade e ajuda mútua entre os alunos vem, a cada dia que passa, perdendo espaço (Guimarães, 2003). Neste contexto podemos pensar o bullying como uma reprodução pelos alunos daquilo que é vivenciado de forma macro por toda a sociedade. Na prática do bullying há uma tentativa de exclusão do mais fraco, do diferente, de tudo aquilo que foge ao padrão de normalidade, assim como acontece na sociedade de consumo, em geral.

 

Reflexões finais

O espaço escolar reproduz, de forma reduzida, conflitos e tensões presentes na sociedade. Com o avanço do capitalismo e as necessidades do mercado, a escola, ambiente principal da prática do bullying vem, gradativamente, perdendo a sua função primordial: o local de formar cidadãos. Hoje em dia foca-se em demasia nas necessidades de se apreender os conhecimentos técnicos das disciplinas com o intuito de obter, em última instância, uma vaga numa universidade pública: existe muita informação, mas pouca capacidade reflexiva. Podemos pensar que vivemos uma época na qual os estudantes são programados para reproduzir exatamente aquilo que foi aprendido. O aluno quer “passar” de ano e obter um diploma, aprender já não é mais uma obrigação para ele. Cada vez mais o espaço para reflexão e a discussão têm diminuído nos ambientes escolares. A escola, que deveria ser um lugar de aprendizado, tem se mostrado, cada vez mais, um espaço de aprisionamento e alienação; um espaço onde o subjetivo ganha importância em detrimento do coletivo.

A educação tornou-se mais um produto a ser comercializado pelo capitalismo. A concorrência e as leis do mercado fizeram com a que a escola deixasse de ser o lugar do ensino cidadão, ou seja, de acesso a todos, do entendimento e aceitação da diversidade, para se transformar em uma versão do consumo. O conhecimento cada vez mais vem se transformando num bem a ser comercializado pela economia capitalista: pode-se tê-lo quem puder pagar, cada vez mais e mais caro, por ele, o que transforma as escolas em cúmplices de um modelo segregador pautado pelos valores capitalistas. Poderíamos pensar que a violência crescente nas escolas brasileira, e na de outros países, é um reflexo direto deste modelo de educação?

No momento em que a instituição escola transforma-se numa empresa e a educação numa mercadoria, estas passam a ser regidas pelas leis rígidas e inflexíveis do mercado capitalista, leis estas onde apenas o mais forte pode e deve sobreviver. A princípio tendemos a pensar que apenas as escolas particulares estão neste jogo, entretanto, as escolas públicas no momento em que têm seus recursos liberados pelos municípios, estado ou governo federal apenas após ter alcançado determinados níveis de produtividade, também estão submetidas às regras acima citadas.

Temos por hipótese, que a alteração na função social da escola, de formar cidadãos capazes de analisar criticamente e modificar a sociedade se deve, em parte, ao do declino do patriarcado, cujas origens são tributárias o momento sócio-histórico no qual a figura paterna deixou de ser a referência única e exclusiva do ambiente familiar, e os movimentos feministas ganharam força. O pai, representante e detentor do poder, foi gradativamente cedendo espaço a uma paternidade mais ética, não tão hierarquizada (Ceccarelli, 2010b).

Juntamente com estas transformações na organização familiar, observou-se uma mudança de outra ordem: ocorreu uma (tentativa) de transferência de poderes para a escola. Esperava-se, e ainda se espera, que a escola substitua o lugar da educação primária, tradicionalmente delegada à família. Parece ter havido uma terceirização de autoridade, fazendo com que a escola deixasse de ser um espaço de referência ética-moral. As desavenças e brigas escolares, que há alguns anos atrás, eram resolvidas fora da escola: "depois da aula te pego lá fora"; hoje, o limite fora/dentro se desfez, fazendo com que "pegar lá fora" ou dentro da escola se tornasse a mesma coisa. A escola começou a ter que assumir responsabilidades que, a princípio, não era de sua incumbência e da qual não estava preparada para assumir. Com a transferência de determinado poder da família para a escola, houve espaço para que certa "desorientação" se instaurasse já que a Lei, mantenedora da ordem, estava fragmentada. É neste contexto instável que as violências nos ambientes escolares se acentuam e práticas, antes secundarias , começam a se reproduzir com maior freqüência, como no caso do bullying.

Embora não se possa afirmar que estamos vivendo um "surto" de casos de bullying, já que as pesquisas sobre o tema são bastante recentes para tal inferência, as transformações sociais que a sociedade ocidental vêm sofrendo desde a metade do século passado tem alterado de forma significativa as formas de relacionamento entre os sujeitos. Individualismo exacerbado, dificuldades em estabelecer laços sociais, mercantilização da educação, incapacidade de alteridade, dentre outros, são elementos que acabaram por germinar um ambiente propício para que práticas de exclusão e de não reconhecimento do outro, como é o caso do bullying, florescessem em nossas sociedades.

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*PAULO ROBERTO CECCARELLI

Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Pós-doutor por Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Sócio do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais; Membro da Société de Psychanalyse Freudienne, Paris, França; Membro fundador da Rede Internacional em Psicopatologia Transcultural; Professor da PUC-MG. Professor no Programa de Pós-Graduação em Psicologia/UFPA; Professor do Mestrado Profissional de Promoção de Saúde e Prevenção da Violência da Faculdade de Medicina da UFMG; Pesquisador Associado do LIPIS;  Diretor Científico do CESAME (Centro de Atenção à saúde Mental); Pesquisador do CNPq.

 

** CLÁUDIO JÚNIO PATRÍCIO

 Psicólogo. Mestre pelo programa Promoção da Saúde e Prevenção da Violência pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte.

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