SEXUALIDADE E EUGENIA

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in Journal of Fund. Psychopath. Online. São Paulo, v. 5, n. 2, p. 285-291, nov 2008.

http://www.fundamentalpsychopathology.org/app/index.php#artigo2/2/1558/1/55


Uma matéria publicada há alguns meses na Folha de São Paulo (1), baseada na revista americana SLATE (2), apresenta um estudo científico que anuncia a descoberta do gene que determinaria a chamada “preferência sexual”. Dentre outras coisas, ele seria o responsável pela manifestação da homossexualidade.

O debate sobre as bases neurobiológicas do comportamento humano relança a questão, tão antiga quando o homem, de saber o que é inato e o que é adquirido. Ou seja, o que em nós é da natureza e o que é da cultura. Debate que, ao longo da História, sempre foi respondido segundo os interesses da ideologia dominante: dependendo o objetivo visado, opta-se por uma posição ou por outra.

Entretanto, de alguns anos para cá, a controvérsia vem se acirrando, pois “provas científicas” parecem sustentar as influências hormonais na constituição neurobiológica do indivíduo. “A onda atual do determinismo biológico tem permitido retornar, com muita força, explicações biologizantes de fatos sociais e fenômenos culturais, com ampla aceitação e difusão pelas mídias”. (3)

Segundo a matéria da Folha, a maioria das pessoas convidadas a opinar sobre o assunto apoiaram esta visão determinista da sexualidade humana. O que não é de se estranhar visto que, na cultura ocidental, a heterossexualidade é entendida como a única forma de ligação afetiva produtora de “normalidade”. (4). Sobre este tema, um livro recentemente publicado – A invenção da cultura heterossexual – mostra que a preponderância simbólica do casal homem-mulher não está presente em todas as culturas humanas (5).

O artigo da SLATE, intitulado Antagonismo sexual começa com uma questão que merece uma reflexão: “Se a homossexualidade é genética e casais gays não procriam, então, porque ela ainda não desapareceu?”

A SLATE, por sua vez, se baseia em um estudo publicado no PLoS (Publishing science, accelerating research) (6), um jornal interativo para a comunicação de pesquisas científicas e médicas, que foi realizado por uma equipe de pesquisadores italianos das Universidades de Padova e de Torino. Os resultados aplicam-se somente a homossexuais masculinos. Os padrões desse estudo, que a SLATE classifica de “curiosos”, são sustentados por complexos mecanismos, cujas variáveis receberam tratamento computadorizado. Dentre as possibilidades resultantes, os autores optaram pela única que “se adequava aos dados”.

Na verdade, o que teria sido descoberto não é o gene da homossexualidade mas, sim, o responsável pela androfilia – atração por homens – o qual, continua o artigo, seria indispensável para a preservação da espécie: é graças a ele que a mulher se sente atraída pelo homem, o que aumentaria as chances de procriação. Este gene, sustentam os estudiosos, seria mais uma astúcia da evolução para aumentar a capacidade reprodutora da mulher. Por fazer parte da evolução, não haveria como erradicar a minoria gay. Ainda segundo o artigo, sendo a homossexualidade de origem genética, o temor de “contaminar-se” por ela – o professor homossexual, o filme que pode influenciar o filho, o colega com trejeitos… – é totalmente infundado.

Entretanto, o importante a ser ressaltado no trabalho dos pesquisadores italianos é que a “descoberta” do gene da androfilia foi inferida a partir dos resultados de complexos cálculos de estatística e de probabilidade. Ou seja, o referido gene não foi localizado em alguma parte genoma humano: dentre as possibilidades resultantes, a única que “se adequava aos dados”, a melhor resultante, só foi alcançada quando se considerou a existência do gene da androfilia.

Apoiados na seleção sexual antagônica, segundo a qual “um gene pode ser reprodutivamente prejudicial para um sexo, mas benéfico para o outro”, os autores sustentam que o homossexualidade é mais comum entre os homens do lado materno do que do paterno. Seria por isto que é bem mais freqüente a ocorrência de gêmeos idênticos homossexuais masculinos do que femininos. A seleção sexual antagônica funciona assim: nas mulheres a presença do gene seria benéfica, pois estimularia o crescimento da espécie; nos homens, ela seria prejudicial, pois comprometeria a reprodução. A conclusão do artigo é uma pérola de misoginia: “O gene da homossexualidade masculina persiste – é transmitido – por promover altos índices de procriação nas mães, irmãs e tias de homens gays”.

O estudo não é válido para mulheres homossexuais. No caso delas, não haveria fatores genéticos, nem a questões ambientais ou alguma química pré-natal. E ponto. Nada mais a dizer sobre elas. Não era de se esperar, igualmente, a existência do gene da ginofilia (atração por mulheres)?

O que se depreende de tudo isto é que a situação genética só se torna problemática quando o gene se manifesta lá onde não deveria, nos homens, fazendo com que eles se sintam atraídos por seus pares. A preocupação parece ser, uma vez mais, apenas com os homens, o que só vem mostrar a hegemonia do discurso masculino. A inexistência do gene da ginofilia sugere que a atração do homem pela mulher é tão obvia, tão natural, que dispensa qualquer explicação. Entretanto, no que diz respeito à homossexualidade masculina, o preconceito se apresenta de forma ainda mais acirrada. A declaração à revista LiveScience (7) de um dos pesquisadores, o professor Andrea Camperio da Universidade de Pádua, vai neste sentido: “Existe todo este antagonismo contra a homossexualidade, porque acredita-se que ela é contra-natureza por não levar à reprodução. Nosso trabalho mostrou que isto não é verdade, pois a homossexualidade é apenas uma das conseqüências das estratégias para tornarem as mulheres mais fecundas”. Tal afirmação é extremamente discriminatória, pois os gays masculinos passam a se verem, e a serem vistos pela sociedade, como um “efeito colateral” da evolução feminina. O passo seguinte, seria medicar a homossexualidade da mesma forma que algumas doenças genéticas são medicadas. Grandes perspectivas para a industria farmacológica!

As questões em torno da “preferência sexual” sempre suscitaram acaloradas polêmicas na sociedade. Colocá-la como uma determinação genética comporta o perigo de esvaziar o debate e, pior ainda, lançar um grande projeto de eugenismo sexual.

Admitir que a homossexualidade é uma posição libidinal, uma “preferência sexual”, tão legítima quanto a heterossexualidade é desconstruir o imaginário da cultura ocidental que, baseado em seus mitos fundadores, sustenta uma ordem simbólica historicamente construída, que fixa a pulsão sexual a objetos culturalmente valorizados.

Mas, há outros pontos do artigo a serem considerados sobre o gene da androfilia como, por exemplo, o de que ele aumentaria a fertilidade feminina. Tais argumentos conduzem a conclusões implícitas que são tão, senão mais, preocupantes do que a afirmação de uma suposta determinação neurobiológica da “preferência sexual”: se o gene atua na mulher, e só nela, como uma estratégia da evolução para tornar-las mais fecundas, isto significa que o objetivo primeiro da sexualidade, sobretudo a feminina, é a reprodução. É inquietante constatar a utilização do discurso científico para sustentar posições discriminativas seculares a respeito da mulher e de sua sexualidade.

Há muitos anos sabemos, graças à psicanálise, que no ser humano a sexualidade tem uma história e está primeiramente destinada ao prazer, e só secundariamente à reprodução. Não há nenhuma outra espécie que tenha criado tantas técnicas e expedientes destinados, exatamente, a evitar a procriação e circunscrever a sexualidade a seu aspecto prazeroso, o que vai na contra-mão da suposta determinação genética postulada pelos pesquisadores italianos.

Determinantes genéticos nunca explicaram as dinâmicas psíquicas, seja na vertente heterossexual ou homossexual, responsáveis pela atração sexual. Se a questão é de androfilia era de se esperar que tanto a mulher, quanto o homem, portadores deste gene se sentissem atraídos por qualquer homem? (Lembrando, como já foi dito, que aguardamos novas pesquisas que expliquem porque existem mulheres homossexuais.)

Se fôssemos geneticamente determinados deveríamos, seguindo o exemplo de outros mamíferos, só nos sentirmos atraídos pelo sexo oposto no período de fertilidade da mulher e isto independentemente de seu sex-appel. Ora, por que nos sentimos atraídos por algumas pessoas e não por outras? Por que uma intensa atração sexual termina tão misteriosamente como começou? O que, no outro, nos atrai ou nos causa repulsa?

Não existe nenhum gene da homossexualidade, ou da heterossexualidade, como alguns vêm tentando encontrar há muitos anos. Somos geneticamente programados, diz o biólogo François Jacob (8), mas programados para aprender. Nos organismos mais complexos, o programa genético não traz instruções detalhadas de comportamentos, justamente para que ele tenha possibilidades de resposta face às contingências. Estudos recentes (9) vão ainda mais longe: somos programados para não sermos geneticamente determinados. Ou seja, existem genes cuja função é desconectar uma determinação genética. A plasticidade neuronal sugere que nosso cérebro modifica-se constantemente ao receber a incidência do outro, da linguagem, assim como as contingências dos acontecimentos que nos afetam. A cadeira neuronal do ser humano é permanentemente atualizada, dentre outros, pelo modo de educar a criança, pelo nome que lhe é dado, pela maneira como ela é vista e falada, pelo lugar que ela ocupa no desejo de quem lhe deu vida psíquica, pelos valores sociais do masculino e do feminino… Isto significa que ainda que os genes participem na constituição neurobiológica do sujeito, não há como saber em que medida eles são influenciados, ou menos silenciados, por fatores ambientais.

O curioso com este tipo de estudo, que repete outros anteriores e que se repetirá nos que virão, é uma quase obsessão científica em provar, a partir de complexas correlações, a existência de um gene responsável pela homossexualidade, como se a heterossexualidade não exigisse explicação (10). Por que, na sociedade ocidental, a sexualidade é objeto de tanta inquietude? Por que, em outras sociedades, esta questão nem chega a ser formulada?

Só nos cabe reagir a tudo isto com uma certa dose humor, e aguardarmos pesquisas que sejam bem mais proveitosas para o tecido social. Por exemplo, sobre as bases neurobiológicas da corrupção, da mentira socialmente instituída, das relações de poder e dominação, das diferentes formas de segregação e preconceito para, uma vez detectado os genes responsáveis por tais desvios, tratá-los. Tais pesquisas nos conduziriam, sem dúvida, a conhecer muito mais sobre nós mesmo do que estamos preparados.

BIBLIOGRAFIA

1 – Folha de São Paulo : http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2406200820.htm
2 – SLATE : http://www.slate.com/id/2194232/

3 – Sousa F., Alípio. Cérebros (homos)sexuais: as ressonâncias do preconceito. Texto ainda não publicado.
4 – Ceccarelli, Paulo R. Sexualidade e preconceito. in Rev. Latinoam. Psicop. Fund. SP, III, 3, 18-37, sept. 2000.
5 – Tin, Louis-Georges. L’invention de la culture hétérosexuelle. Paris, Ed. Autrement, 2008
6 – PLoS : http://www.plosone.org/article/info:doi/10.1371/journal.pone.0002282
7 LiveScience : http://www.livescience.com/health/080617-hereditary-homosexuality.html
8 – Jacob, François. Les jeux des possibles. Paris: Fayard, 1981.
9 – Ameisen, Jean Claude. La sculpture du vivant. Paris: Seuil, 2003.
10 – Ceccarelli, Paulo R. A invenção da homossexualidade. in Bagoas: estudos gays – gênero e sexualidades. UFRN v.2, n.2, jan./jun. 2008.


Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

*
Psicólogo; pscianalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária em Psicopatologia Fundamental; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Sócio de Círculo Psicanalítico de Minas Gerais;  Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG (graduação e pós-graduação).

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