LAÇO SOCIAL: UMA ILUSÃO FRENTE O DESAMPARO

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in Reverso, Revista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ano XXXI, 58, 33-41, 2009

O princípio de evitar o desprazer domina as ações humanas até ser substituído pelo princípio melhor de adaptação ao mundo externo. Pari passu com o controle progressivo dos homens sobre o mundo segue uma evolução de sua Weltanschauung, sua visão do universo como um todo. Cada vez eles se afastam mais de sua crença original na própria onipotência, elevando-se da fase animista para a religiosa e desta para a científica. Os mitos, a religião e a moralidade podem ser situados nesse esquema como tentativas de busca de compensação da falta de satisfação dos desejos humanos.

Freud, 1913


Introdução

A interface desenvolvimento cultural versus conflitos dinâmicos constitutivos do Eu permite a hipótese segundo a qual a leitura dos textos freudiano sugere que o laço social, criação de Eros, pode ser entendido como uma solução para o desamparo. Entretanto, tal solução se mostra uma ilusão, no sentido freudiano do termo: uma crença motivada pela realização de um desejo. A ilusão tira sua força de um dos mais prementes desejos da humanidade: a necessidade de proteção através do amor(1).

A história nos ensina que o ser humano sempre recorreu, sem sucesso, a expedientes internos e/ou externos para lidar com o seu desamparo (Hilflosigkeit) constitucional(2). Entretanto, o desamparo não diz respeito apenas ao período de tempo no qual o bebê está “em condições de desamparo e dependência”(3) de um outro capaz de aliviar a tensão interna. Existe uma outra forma de desamparo bem menos discutida: o desamparo psíquico. Ele se caracteriza pela impossibilidade do recém nascido em lidar com as exigências pulsionais filogeneticamente herdadas(4) devido à inexistência de um aparelho psíquico ao nascimento. Para lidar com o desamparo psíquico, Eros, responsável pelas ligações pulsionais, age de forma a produzir investimentos libidinais que confortam, imaginariamente, o Eu em constituição. O universal do desamparo se singulariza na história de cada um, a partir da relação de total dependência que a criança estabelece com quem lhe deu vida psíquica.

Esta primeira fase de dependência pode ser qualificada de fisiológica, posto que o que está em jogo são as satisfações das necessidades vitais que garantam a sobrevivência do recém nascido. Concomitantemente, um primeiro estado psíquico aparece: o da satisfação alucinatória do desejo no qual os traços da primeira experiência de satisfação são investidos, tornando a espera do reencontro com objeto suportável. A dinâmica pulsional gerada por esta nova situação demanda um novo tipo de “alimento”, não mais fisiológico, mas psíquico: afeto, amor, reconhecimento, palavra, linguagem… gerando ou outra forma de dependência: a dependência psíquica. Os destinos desta dependência são inúmeros. Dentre eles, temos as religiões, as ligações inquestionáveis aos mestres, às teorias tomadas como verdades, as adições e, provavelmente, as que mais nos fazem sofrer: nossas relações com o outro nas quais “a fronteira entre ego e objeto ameaça desaparecer”(5). Enfim, a dependência psíquica se expressa nas diversas formas discursivas que nos dão a ilusão de sermos confortados e acolhidos, o que nos evita de falar em primeira pessoa.

É em relação aos pais(6) que esta primeira dependência se manifesta, sobretudo na crença de que possuem poderes sem limites. Mais tarde, os pais são substituídos pelos deuses ou por aqueles que acreditamos possuírem capacidades mágicas e, como eles, poderes ilimitados. Em contrapartida, esperamos ser amados e protegidos por estes seres supremos, e estamos prontos a tudo para não perder a ilusão de que sob sua proteção, nada nos acontecerá.

Com o passar do tempo adquiridos uma certa autonomia, mas a nostalgia do passado continua a exercer uma misteriosa atração, sobretudo quando o presente nos parece doloroso, o que acontece com frequência. Voltamo-nos, então, para o passado – quando “eu era feliz e ninguém estava morto” (F. Pessoa) – na esperança de ali reencontrarmos a idade de ouro perdida para sempre: “o encantamento de nossa infância, que nos é apresentada por nossa memória não imparcial como uma época de ininterrupta felicidade”(7).

Ao longo da vida, reagimos às inevitáveis situações de desamparo que temos que enfrentar segundo o protótipo construído na infância: frente à angústia, buscamos alento no mundo interno ou nas construções imaginárias e simbólicas: os laços sociais que o mundo externo nos oferece fazem parte destas construções. Nesta perspectiva, os laços que estabelecemos para lidar com o desamparo psíquico variem segundo a cultura e o momento histórico. Todos nós, a sua maneira, estamos sempre em buscas de utopias na esperança que elas nos tragam de volta o Paraíso perdido.


Freud e as utopias
(8)

Apoiado no Iluminismo que consiste, basicamente, em recusar todo apriorismo referente a uma visão teológica ou metafísica e basear-se na observação e na ciência para se alcançar a verdade, Freud parte da ideia de “progresso” segundo as teses científicas de Darwin e de Lamarck, resumidas na “lei” de Ernst Haeckel. Seguindo o modelo geológico de estratos, as aquisições filogenéticas se depositariam no psiquismo, como bem o mostra a estrutura de desenvolvimento do cérebro; as nova aquisições evolutivas suplantariam as antigas. Para Freud existiria um progresso(9) da civilização, graças ao trabalho da cultura (Kulturarbeit). Temos aqui os principais elementos que permite a Freud, entre 1905 e 1913, de estabelecer as três fases da evolução do pensamento da humanidade – a animista, a religiosa e a científica –, cujas provas ele encontra em suas observações clínicas:

Poder-se-ia sustentar que um caso de histeria é a caricatura de uma obra de arte, que uma neurose obsessiva é a caricatura de uma religião e que um delírio paranóico é a caricatura de um sistema filosófico. (…) Se analisarmos os instintos em ação nas neuroses, descobriremos que a influência nelas determinante é exercida por forças instintivas de origem sexual; as formações culturais correspondentes, por outro lado, baseiam-se em instintos sociais, originados da combinação de elementos egoístas e eróticos. As necessidades sexuais não são capazes de unir os homens da mesma maneira que as exigências da autopreservação. A satisfação sexual é, essencialmente, assunto privado de cada indivíduo(10).

A compreensão da fase anímica, que trata da crença nos espíritos, do invisível, é importante, pois é a condição preliminar de toda religião. O invisível é uma projeção do que se desconhece internamente e tem no sonho, no êxtase, na doença e nos fenômenos enigmáticos a sua confirmação. A “explicação” para os enigmas foi feita através da atribuição de uma alma a tudo, seja animando ou inanimado. Foi também neste tempo primeiro que a palavra teria adquirido seu poder mágico, como o de substituir as coisas. Tal sentimento, persiste ao longo da vida naquilo que chamamos da onipotência infantil da palavra. Encontramos aqui, também, as raízes da necessidade humana de historicizar os acontecimentos para torná-los compreensíveis: quanto algo nos escapa, tendemos encontrar explicações em causas sobrenaturais ou no destino. (Talvez, um dos maiores exemplos da onipotência da palavra seja a crença na força da oração.) Freud baseia-se no animismo para introduzir na clínica a ideia segundo a qual existiria uma equivalência entre o neurótico e o primitivo. Para Freud(11) o animismo é “um sistema de pensamento, a primeira teoria completa do universo” que continua presente até hoje em todos nós como revela a análise de algumas formas do estranho (Das Unheimliche):

É como se cada um de nós houvesse atravessado uma fase de desenvolvimento individual correspondente a esse estádio animista dos homens primitivos, como se ninguém houvesse passado por essa fase sem preservar certos resíduos e traços dela, que são ainda capazes de se manifestar, e que tudo aquilo que agora nos surpreende como ‘estranho’ satisfaz a condição de tocar aqueles resíduos de atividade mental animista dentro de nós e dar-lhes expressão(12).

Se na fase animista ocorre uma projeção no mundo exterior de moções pulsionais e afetos inconscientes difíceis de controlar transformando-os em forças supra terrestres, um tal movimento psíquico não compre o seu objetivo: regular a dinâmica pulsional com toda a ambivalência que ela comporta. Como recurso, via elaboração secundária, um nova fase – a religiosa – apareceu. Nesta, uma potencia oculta onipotente, um mestre – Deus, e mais tarde o clero, uma instituição… – baseada na figura parental é criada e a ilusão (sem dúvida mais elaborada) do controle das forças ocultas desconhecidas lhe é atribuída. Com este expediente, a dependência infantil aos pais é substituída pela dependência ao mestre suposto amar e proteger todos e todas sem descriminações(13). Sabemos, entretanto, que a ligação edípica com os pais se repete na relação que o indivíduo estabelece com Deus, ou com o mestre. Além disso, a posição narcísica persiste na ideia segundo a qual agradando a Deus, Ele atenderá minhas reivindicações. O mundo é transformado em espelho do psiquismo e uma nova visão de mundo é criada. Toda e qualquer ameaça de destruir, ou mesmo de questionar, esta visão de mundo é sentida pelo sujeito como um ataque direto a sua organização narcísica, o que põe em risco seu controle pulsional. As perseguições, guerras e atentados presentes desde sempre na História mostram as forças psíquicas titânicas mobilizadas para que a ilusão seja mantida, e que o sagrado permaneça intocável.

Porém, a criação de um Deus e, mais tarde, de um ideal religioso coletivo de fazer Um com o todo, não impede o pulsional individual, que passa a ser concebido como pecado ou culpa, resista aos ideais coletivos. A fase religiosa deve ser superada para que o indivíduo passe da fase infantil à adulta:

Todos os que transferem a orientação do mundo para a Providência, Deus, ou Deus e a Natureza, despertam a suspeita de que ainda consideram esses poderes supremos e remotos como uma dupla parental, num sentido mitológico, e se acreditam vinculados a eles por laços libidinais(14).

Liberados do julgo religioso, os homens se voltariam para a ciência na esperança de ai encontrarem respostas claras e despojadas de qualquer elemento mágico. Como citado em epígrafe, “cada vez eles [os homens] se afastam mais de sua crença original na própria onipotência, elevando-se da fase animista para a religiosa e desta para a científica” (15).

As relações entre as fases da humanidade, explicadas filogeneticamente, apoiam-se, mais uma vez, em teses evolucionistas, tal como Freud as apresenta no texto não publicado por ele Neuroses de transferência: uma síntese (16): a história do desenvolvimento individual (ontogênese) repete o desenvolvimento da espécie (filogênese). A neurose seria uma fixação na filogênese o que impedira o desenvolvimento da ontogênese. E, da mesma forma que a neurose é um “religião” individual, a religião é a neurose da humanidade. À ciência, a possibilidade de modificar esta situação:

Na fase animista, os homens atribuem a onipotência a si mesmos. Na fase religiosa, transferem-na para os deuses, mas eles próprios não desistem dela totalmente, porque se reservam o poder de influenciar os deuses através de uma variedade de maneiras, de acordo com os seus desejos. A visão científica do universo já não dá lugar à onipotência humana; os homens reconheceram a sua pequenez e submeteram-se resignadamente à morte e às outras necessidades na natureza(17).

Até aqui, como vimos, Freud acredita que o trabalho da cultura (Kulturarbeit) dominaria o pulsional. O recalcado retornaria sob um modo aceitável pelo grupo (sublimação), fazendo com que, por um lado o sujeito perca ao privar-se de uma satisfação pulsional, mas, por outro lado, a cultura, o grupo, ganhe. E as três fases de evolução do pensamento da humanidade, com o progressivo controle sobre o mundo externo, representam três diferentes visões o mundo (Weltanschauung), sendo a cientifica a mais adequada à evolução da civilização.


O fim das utopias

A primeira guerra mundial provocou em Freud uma profunda desilusão. Se a ilusão é uma crença motivada pela realização de um dos maiores desejos da humanidade – a necessidade de proteção através do amor, a força de Eros – a desilusão revela a ineficácia dos expedientes utilizados para lidarmos com o desamparo. (Talvez, tenha sido esta desilusão uma das principais responsáveis para a destruição dos textos metapsicológicos escritos nesta época, e a não publicação do Neuroses de transferência: uma síntese.)

O texto de Freud escrito durante a guerra – Reflexões para os tempos de guerra e de morte – constitui um verdadeiro desabafo, e anuncia mudanças em suas posições teóricas, cuja expressão máxima acontecerá, não sem resistência da parte do próprio Freud, em 1920 com a introdução da noção de Pulsão de morte (18).

Toda a ideia de trabalho da cultura (Kulturarbeit), de progresso, da capacidade da ciência em fornecer melhores condições de vida desmoronam-se quando Freud é obrigado a reconhecer que as nações em guerra são, justamente, as mais “civilizadas”. Pior ainda: os homens mais brilhantes, os sábios, regrediram a um estado de barbárie que em nada deixava a desejar aos povos ditos primitivos ou aos neuróticos graves. O retorno do recalcado, que provoca a perda das aquisições culturais e a volta às condições primitivas, jogam por terra suas hipóteses relativas a uma evolução da humanidade a partir de aquisições, aprimoramentos, e transmissões de seu capital filogenético:

A própria ênfase dada ao mandamento ‘Não matarás’ nos assegura que brotamos de uma série interminável de gerações de assassinos, que tinham a sede de matar em seu sangue, como, talvez, nós próprios tenhamos hoje (19).

A evolução biológica, o progresso tecnológico, e a constante aquisição de novos conhecimentos graças à fase científica da evolução do pensamento da humanidade, não produz nenhum progresso psíquico. Ainda que exista “progresso” no que diz respeito aos objetos de satisfação ou aos modos de repressão interiorizados ao longo da história, os conflitos de gerações que sempre existiram, continuarão a existir. As experiências pessoais, os “conselhos”, os modos de satisfação, e sobretudo os de evitar o sofrimento, não podem ser transmitidos, o que faz com que a história dos seres humanos seja um eterno recomeçar.

O trabalho de cultura nada mais faz do que criar estratégias (aparentemente novas) de recalque e repressão que mascaram o mal-estar(Unbehagen) inerente à cultura. As demandas e as vicissitudes pulsionais – sobretudo o par amor/ódio – em nada alteraram com o passar dos milênios:

Poder-se-ia dizer que devemos as mais belas florações de nosso amor à reação contra o impulso hostil que sentimos dentro de nós. (…) Ela [a guerra] nos despoja dos acréscimos ulteriores da civilização e põe a nu o homem primevo que existe em cada um de nós (20).

Os processos constitutivos do Eu se repetem e os conflitos intra e extra psíquicos – reivindicações narcísicas, interesses pessoas contra os do grupo – são os mesmo desde a aurora da humanidade: a compulsão à repetição. À menor ameaça de perda dos objetos de satisfação, produz um retorno das pulsões destrutivas. A “civilização” existe apenas enquanto dela pudermos extrair satisfação pulsional, segundo o modelo infantil, suficiente para que a frustração seja suportável. Em 1908 Freud já o dissera, embora de forma mais amena:

Ao crescer, as pessoas param de brincar e parecem renunciar ao prazer que obtinham do brincar. Contudo, quem compreende a mente humana sabe que nada é tão difícil para o homem quanto abdicar de um prazer que já experimentou. Na realidade, nunca renunciamos a nada; apenas trocamos uma coisa por outra. O que parece ser uma renúncia é, na verdade, a formação de um substituto ou sub-rogado(21).

Frente aos novos e inegáveis elementos cheios de contradições que o mundo exterior lhe trouxe, e sob o efeito de seu desencanto para com a ciência, Freud vai repensar toda a sua teoria.

Nenhuma visão o mundo (Weltanschauung) – animista, religiosa ou científica – poderá nos socorrer, pois as verdades que propõem são sempre fragmentárias; todas elas são susceptíveis de transformarem-se em um sistema de crença de massa, pois todo discurso, inclusive o científico e o psicanalítico, contêm elementos de crenças infantis – logo míticos – que se originam nas teorias sexuais da infância(22). O conhecimento teórico nada garante, e quem deseja tornar-se analista deve submeter-se a uma análise para (tentar) compreender melhor sua dinâmica pulsional e suas tendências destrutivas para evitar que o outro seja objeto de projeção. Se as aquisições da análise são integradas pelo sujeito, pode-se falar de uma forma de “evolução”. Caso contrário, elas servirão apenas para fazer barragem ao pulsional e, frente à menor frustração, o dique se rompe fazendo aparecer o infantil e o primitivo.

A partir dai, os textos freudianos tomam um outro rumo, e surgem as teorizações sobre o Ego e o grupo, a segunda tópica, e tantos outros trabalhos que trazem Freud de volta ao seu interesse primeiro: os problemas culturais

Meu interesse, após fazer um détour de uma vida inteira pelas ciências naturais, voltou-se para os problemas culturais que há muito me haviam fascinado. (…) Percebi ainda mais claramente que os fatos da história, as interações entre a natureza humana, o desenvolvimento cultural e os precipitados das experiências primitivas (cujo exemplo mais proeminente é a religião) não passam de um reflexo dos conflitos dinâmicos entre o ego, o id e o superego que a psicanálise estuda no indivíduo – são os mesmíssimos processos repetidos numa fase mais ampla(23).

Reflexões finais

Embora o Amor e Necessidade [Eros e Ananke] sejam “os pais da civilização humana”(24), o poder de Eros para manter as ligações de objeto que garantem o processo civilizatório parece não ser tão forte quanto Freud acreditara em um primeiro momento: a civilização não torna os seus participantes mais felizes, pois a função individualizante do sexual, do narcisismo, resiste. O progresso científico não foi acompanhado de nenhum aumento do nível de satisfação e de prazer que se esperava.

Os laços sociais não estão imunes as estas vicissitudes. As guerras nos mostram que basta um pequeno movimento, uma ameaça narcísica, um risco de perder o objeto de satisfação, de perder uma crença, para que as ligações de Eros se desfaçam. Nas últimas décadas temos assistido guerras entre povos vizinhos, entre grupos étnicos, até então amigos que dividiam o mesmo território. A crise financeira que assolou o mundo no final de 2008, revelou a perversão do sistema e mostrou que as soluções de satisfação são sempre narcísicas. Os laços sociais servem para manter ilusões.

O outro, o que pensa diferente, que tem outra religião, que vem de outra parte, que tem outra história, outras referências identificatórias, outra teoria, transforma-se facilmente em alvo das pulsões agressivas e destrutivas, se ele ameaça revelar o desamparo (psíquico) que as crenças disfarçam. E mesmo nas relação mais próximas – família, casal – o amor pode transforma-se em um ódio nunca imaginado. Nada mais insuportável do que seremos decepcionados pelo nosso objeto de amor.

A “desidealização” em relação à ideia de progresso que a guerra provocou em Freud levou-o a um questionamento sobre a psicanálise como libertadora, pois mesmo os mais analisados, não estão livres dos conflitos e, à menor ameaça, regridem a posições impensáveis: a história do movimento psicanalítico é rica em exemplos deste tipo.

Para manter o sentimento de que não estamos desamparados, que somos amados, embora teoricamente saibamos que isto possa ser uma ilusão, muitos se aferram a um mestre, a uma teoria, a uma escola e não suportam nada que questione este estado de coisas. Temos aqui a verdadeira expressão da neurose de transferência: ela cristaliza o sujeito em uma identificação mortífera, que paralisa Eros e produz a certeza que só existe no olhar daquele que contempla seu ídolo, e recalca a história. Unidos pela e na transferência alguns, na contra-mão das posições freudianas, transformam a psicanálise em um visão de mundo, verdadeira religião que tudo explica. Os membros de “igrejas” diferentes mal se cumprimentam, e não há mais lugar para diálogo. Com isso, o pensamento critico e criativo desaparece, transformando os pressupostos teóricos em dogmas inquestionáveis(25). Algumas instituições psicanalíticas cumprem funções fundamentalistas: propiciar um forma de laço social que serve para manter a ilusão de ser amado e reconhecido seja pelo mestre ou pelos colegas desde que se permaneça um discípulo fiel.

***

Consta que Reich teria relatado a Bettelheim o seguinte episódio(26): em uma reunião da Sociedade Psicanalítica de Viena, alguém emitiu a opinião segundo a qual a humanidade como um todo teria muito a lucrar se seus governantes e políticos fossem analisados. Segui-se um caloroso debate. Freud ouvia tudo em silêncio, pois não estava passando muito bem naquele dia. Finalmente, ele foi chamado a opinar. Após haver dito que se alegrava muito com a alta conta em que seus discípulos tinham à psicanálise, ele parou… olhou ao redor da sala e disse: “Quando os vejo, e penso que foram analisados… não posso deixar de ser céptico”.


Bibliografia:

1 – FREUD, S. (1927) O futuro de uma ilusão. ESB, v.XXI, 1974.
2 – Cabe lembrar o que já disse anteriormente: o termo Hilflosigkeit é composto de três palavras: Hilfe, que significa socorro; los, que pode ser definido por sem; keit que forma o substantivo. Hilflosigkeit seria melhor traduzido por “insocorribilidade”. Somos, por definição, “insocorríveis”. (Conf.: CECCARELLI, P. R. Perversão e suas versões. Reverso, Revista do Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, ano XXVII, n.52, p.43-50, 2005.)
3 – FREUD, S. (1926) Inibições sintomas e ansiedade. ESB, v.XX, 1976, p.179.
4 – FREUD, S. Neuroses de transferência: uma síntese. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
5 – FREUD, S. (1930) O Mal-estar na civilização. ESB, v.XXI, 1974, p.83.
6 – A partir dos novos arranjos familiares, o significante “pais” deve ser entendido como sinônimo de expressões tais como: aqueles(as) que acolhem a criança no mundo; aquele(a)(s) que recebem a criança no mundo; aqueles(as) que cuidam do recém-nascido; ou ainda, aqueles(as) que dão vida psíquica ao bebê. Tais formulações descrevem melhor as organizações familiares da atualidade, que definem os laços afetivos que sustentam a circulação pulsional do recém-nascido (Conf.: CECCARELLI, P. R. Novas organizações familiares: mitos e verdades. In: Jornal de Psicanálise. 40(72), 89-102. 2007).
7 – FREUD, S. (1939) Moises e o monoteísmo. ESB, v.XXIII, 1975, p.89.
8 – Parte desta reflexão é baseada na conferência de Joël Bernat “La crise du sujet savant: Freud, ou l’illusion de progrès”, apresentada no colóquio «Ethiques et modernités», organizado pela U.F.R. Langues et Civilisations Étrangères, em dezembro de 2002.
9 – É importante lembrar que a ideia de um “progresso” da humanidade, ou ainda de um “mito do progresso”, aparece a partir do séc. XVIII e, no fundo, nada mais é que uma visão do mundo e não uma verdade. É nesta prescritiva que, num primeiro momento, a psicanálise se inscreve: sublimação, substituir o recalcado por uma repressão consciente, e outros tantos propósitos do início da psicanálise.
10 – FREUD, S. (1912) Totem e tabu. ESB, v. XII, 1974, p.95.
11 – FREUD, S. (1912) Ibid., p.118. (o grifo é meu)
12 – FREUD, S. (1919) O estranho. ESB, v.XVII, 1976, p.300.
13 – FREUD, S. (1921) Psicologia de grupo e análise do Ego. ESB, v.XVIII, 1976.
14 – FREUD, S. (1924) O Problema econômico do masoquismo. ESB, v.XIX, 1976, p.210.
15 – FREUD, S. (1913) O interesse da psicanálise. ESB, v.XIII, 1974, p.222.
16 – FREUD, S., (1915) Neuroses de transferência: uma síntese. Op. Cit.
17 – FREUD, S. (1912) Totem e tabu. Op. Cit., p.110.
18 – FREUD, S. (1920) Além do princípio do prazer. ESB, 1976.
19 – FREUD, S. (1915) Reflexões para os tempos de guerra e morte. ESB, v.XIV, 1976, p.335.
20 – FREUD, S. (1915) Ibid., p.338.
21 – FREUD, S. (1908) Escritores criativos e devaneios. ESB, v.IX, 1976, p.151.
22 – Para Freud, as teorias científicas para explicar o mundo têm suas raízes nas teorias sexuais infantis. [Conf. FREUD, S. (1908) Sobre as teorias sexuais infantis. ESB, v.VIII, 1976]. Anos mais tarde, Freud se pergunta se as ciências não são mitologias, [Conf. FREUD, S. (1933) Por que a guerra? ESB, v.XXII, 1974], e diz a teoria das pulsões é “nossa mitologia [Conf. FREUD, S. (1933) Ansiedade e vida pulsional, conf. XXXII. ESB, v.XXII, 1976].
23 – FREUD, S. (1925) Um estudo autobiográfico. ESB, v.XX, 1976, p.90. (Pós-escrito acrescentado em 1935)
24 – FREUD, S. (1930) O Mal-estar na civilização. Op. Cit., p.121.
25 – Sobre este ponto ver: CECCARELLI, P. R. Don Quixote e a transgressão do saber. Mal-estar e subjetividade. (No prelo)
26 – BETTELHEIM, B. & FISCHER, D., J. L’ultime conversation, in Nouvelle Revue de Psychanalyse, L’excès, Gallimard, n°. 43, printemps 1991, p. 327


Paulo Roberto Ceccarelli
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e-mail: pr@ceccarelli.psc.br

* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Sócio de Círculo Psicanalítico de Minas Gerais; Membro da “Société de Psychanalyse Freudienne”, Paris, França; Professor Adjunto III no Departamento de Psicologia da PUC-MG.


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