AS POSSÍVEIS LEITURAS DA PERVERSÃO

In: Estudos de Psicanálise, Belo Horizonte MG, n. 36,  p. 135–14,d| Dezembro/2011

 

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Apresenta-se-nos agora a conclusão de que há, na verdade, algo inato atrás das perversões, mas que é algo inato em todas as pessoas, embora, como uma disposição, possa variar de intensidade e ser aumentado pelas influências da vida real.

                                                                                          Freud, 1905

Paulo Roberto Ceccarelli

 

Introdução

No presente texto proponho apresentar alguns pontos do trabalho teórico-clínico que venho desenvolvendo há muitos anos sobre a perversão em suas várias apresentações. Nele incluo, também, as inúmeras defesas de dissertações de monografias de conclusão de curso, de mestrado e de doutorado às quais tenho participado. Entretanto, quando mais se tenta compreender as dinâmicas psíquicas que subjazem as sexualidades perversas, mais distante se formula a possibilidade de uma resposta satisfatória. Dentre os trabalhos já publicados, destacaria: CECCARELLI; 2004; 2005; 2007; 2009; 2010. CECCARELLI & COUTO, 2004; CECCARELLI & SANTOS, 2009; 2010; 2010a. CECCARELLI & SALLES, 2010).

Quando analisamos certas manifestações "patológicas" da sexualidade não nos passa despercebido o quanto elas se revelam ser uma solução encontrada pelo Eu em constituição, tanto para sobreviver psiquicamente quanto para (tentar) evitar sofrimentos psíquicos insuportáveis. 

Dinâmicas pulsionais rotuladas de "perversas" podem representar a única possibilidade de atividade sexual encontrada pelo sujeito na construção de sua subjetividade. Renunciar a tais práticas pode significar uma verdadeira ameaça de castração, no sentido de uma fantasia de uma perda total e permanente de toda capacidade sexual. Algo próximo daquilo que Ernest Jones (1950) chamou de afânise: o desaparecimento do desejo sexual. Frente a tal ameaça, tais práticas podem ser, por algum tempo, mantidas em segredo até que um vínculo transferencial consistente seja estabelecido para que o sujeito se sinta em segurança para analisá-las. Além disso, por não constituírem uma fonte primária de angústia, raramente tais práticas levam o sujeito à procura da análise.

Gostaria de ilustrar os meus pontos de vista a partir de pequenos fragmentos clínicos de um trabalho analítico que durou quase 6 anos, em razão de 3 sessões por semana nos primeiros anos, e 4 sessões nos últimos. É importante frisar que pontos citados não traduzem, em absoluto, a dimensão deste longo trabalho. Ou seja, não se trata de uma discussão clínica. Meu interesse, como o título sugere, é apenas discutir em que medida a referência teórica do analista orienta sua escuta.

Durante este texto, uma pergunta nos acompanhará: em quais circunstâncias uma manifestação "perversa" da sexualidade, dentro de um contexto cultural preciso, deve ser entendida como parte da sexualidade adulta – jogos eróticos -, e quando ela deve ser considerada sintomática?

 

Caso Clínico

A pessoa que chamarei João tinha 35 anos quando procurou-me, encaminhado por uma colega que tinha um amigo de João em análise. João, que tinha uma prática sexual marcada pela corrente sadomasoquista, havia ido "longe demais": num excesso de excitação, quase quebrou o braço de seu companheiro. 

A princípio, João não achou que o ocorrido fosse motivo para procurar ajuda. Por outro lado, esta seria uma oportunidade de discutir com alguém um "sentimento de depressão" e de "vida vazia" que o acompanhava já há algum tempo. As vezes era acometido por crises de angústia, e sentia algo que definia como "medo de tudo". 

João começou a análise sem dar muito crédito ao processo analítico, que foi marcado por uma intensa transferência negativa. Esta se manifestava por queixas e reservas quanto a eficiência da psicanálise e a competência profissional do analista. Como a análise de João era em francês, ele nunca perdia uma ocasião de "atacar-me" dizendo que não sabia o que estava fazendo ai, com um analista que não falava direito a sua língua e que eu não valia o preço que cobrava; que seria mais uma despesa, assim como a empregada, que lhe custava muito caro. Faltou a algumas sessões dizendo que estava considerando seriamente interromper a análise.

Entre ameaças de abandono e ausências concretas – chegou a faltar várias sessões sem avisar – João, aos poucos, estabeleceu uma relação transferencial. A medida que o trabalho analítico progredia, ele expressava sua angústia dizendo que tinha muito medo de mudar com a análise; de não mais se reconhecer. "Meu grande medo", disse após muita hesitação, "é perder a minha sexualidade que, afinal, me dá muito prazer" Este "medo de mudar" foi tema constante em sua análise. [Fantasias infantis de perdas das satisfações conhecidas?]

Um detalhe importante no mito de origem de João é o lugar que ele ocupava na economia libidinal da família. Contava-se, e ele diz ter ouvido esta história várias vezes, que quando a mãe de João tinha 6 anos, sua irmã de 4 anos ficou gravemente doente, com febre alta, diarreia, etc. A avó de João, figura importante na dinâmica familiar, descrita por ele como "uma figura distante, ausente, fria", teria se recusado a levar a menina para o hospital sem que o seu marido a acompanhasse. Segundo a historia corrente na família, o avô de João, considerado um mulherengo (un chaud lapin), estaria com uma de suas amantes naquela noite: daí a recusa da avó em levar a filha ao hospital. Quando, finalmente, a criança foi levada para o hospital, era tarde demais e ela veio a falecer. (A avó de João morreu em hospital psiquiátrico, sendo que foi ele quem autorizou que os aparelhos que a mantinham viva fossem desligados.) 

A mãe de João engravidou-se dele muito nova, e o pai da criança tentou convencê-la a abortar. Mas, como ela recusou-se a fazê-lo, o jovem casal decidiu se casar. "Quando eu nasci", disse João, "minha mãe me deu para minha avó me criar, pois não se sentia capaz de cuidar de uma criança".  [Pode-se conjecturar-se aqui que os sentimentos de culpa da mãe quando da morte da irmã pequena, foram apaziguados neste ato de "doação" do filho.]

Segundo João sua mãe era "uma mulher obcecada por limpeza, sobretudo pela higiene pessoal". Precocemente, ele foi obrigado a aprender a controlar os esfíncteres e cada vez que isto não acontecia era severamente punido. [O trabalho analítico revelou que João vivia esta punição como uma ameaça de perda do amor maternal.]

João descreve seu pai como uma "ausência constante". Ele partira de casa quando João tinha 8 anos, e ele só veio a revê-lo quando já era adolescente: "eu nunca o perdoei por ter-me abandonado deixando-me só com a minha avó e com a mãe".

De sua sexualidade, ele me dá a seguinte apresentação, de forma direta e, eu diria sem afeto, já nos primeiros encontros: "trepar (baiser) nunca foi um problema para mim: quando estou afim, vou e trepo. É isto aí".

João diz que sua vida sexual começou bem cedo, e aos 20 anos tinha uma atividade sexual bastante intensa com parceiros de ambos os sexos. Contudo, com o passar do tempo, sua "opção" homossexual foi prevalecendo, sobretudo devido as suas práticas. "Com os homens consigo viver melhor minhas fantasias". 

O "parceiro ideal" para suas práticas sexuais era encontrado nas boates Hard  [esta busca do "parceiro ideal" é bastante frequente nas sexualidades marcadas por fixações prégenitais]. Este parceiro devia prestar-se a participar de um cenário bem preciso, em vários atos, no qual cada detalhe era cuidadosamente preparado para que o "prazer máximo" fosse alcançado. Este cenário sexual, na vertente sodo-masoquista, consistia em dominar o parceiro: "tudo começa por uma 'luta' corpo-a-corpo, até que o meu adversário seja subjugado para ser, em seguida, amarrado".

O passo seguinte consistia em torturar o pinto – la bite; la queue – do vencido: "quanto maior for o pinto do cara, mais intensas são as torturas e maior a minha vitória. O cara, em si, nada conta; não importa que seja novo, velho: a única coisa que importa é seu pinto" [Objetos parciais elevados à categoria de objeto total].

A certa altura de sua análise, ele começa a sessão dizendo: "Há algum tempo hesito em falar sobre algumas de minhas práticas sexuais". E após um longo silêncio, continua: "mas agora acho que tenho a confiança necessária para falar disso, e acho que o senhor é forte o bastante para suportá-lo". 

Mais importante que infligir torturas ao pênis do parceiro, João só atingia o "prazer máximo", o que nem sempre acontecia, dando vazão a suas fantasias coprofílicas. "Defecar em alguém, evacuar toda minha sujeira em cima da pessoa, é a pior humilhação que se pode infligir a alguém: este é o meu maior prazer." 

Para levar tais fantasias a cabo, ele participava de "surubas escatos", se bem que, segundo ele, nem sempre isto resolvia a questão: "sou obrigado, disse certa vez, a mostrar em público as coisas que eu produzo. Entretanto, eu sempre tive a impressão que minhas fezes são mais limpas que as dos outros." 

Todo seu prazer corria o risco de ser aniquilado caso fosse o/a parceiro/a que tomasse a dianteira. Isto é, se seu parceiro/a pedisse que João defecasse nele/a. "Nesta situação, sou tomado por uma grande angústia, pois tenho a impressão que estou fazendo isto para ele/a e não para meu próprio prazer." Uma fantasia de "impotência fecal" aparecia quando ele tinha problemas intestinas pois em tais circunstâncias, "as fezes podem estar líquidas. E aí, não tenho nenhum controle sobre elas. Quando está sólida, pode-se controlá-la e limpá-la. Mas a merda líquida escorre por toda parte. É impossível limpá-la."

Durantes vários meses as sessões de João consistiram em relatos detalhados de suas práticas coprofílicas. No começo, evidentemente, sentia-me extremamente incomodado com tais relatos, sobretudo por serem apresentados de forma desafiante, provocadora, típica deste tipo de paciente que tenta, o tempo todo, transformar o outro em objeto. Várias vezes, senti intensos movimentos contratransferências, pois ficava claro a intensão perversa de fazer-me participar de tais orgias. [Aqui, a palavra perversão deve ser entendida como um imposição ao outro algo que ele não quer: uma forma erótica do ódio.]

A análise teve uma mudança radical quando João trouxe um sonho que lhe angustiou muito: "eu estava em um local estranho, escuro. Tudo muito sujo com um cheiro terrível de coisa podre. Em meio a tudo isto, havia um aquário muito grande e muito sujo. E o senhor estava dentro do aquário, no fundo, no meio da sujeira." Esta entrada em uma relação de objeto mudou completamente a dinâmica do processo analítico. O discurso mudou, a agressividade diminui. Por algum tempo, ele me ligava confirmando o horário da sessão, como que em um movimento interno de reparação pelas agressões passadas. Precisava saber que eu estava bem. Que sua agressividade não tinha me destruído. 

Outros pontos importantes na dinâmica psíquica de João: suas roupas de cama, sempre das melhores marcas, eram utilizadas apenas uma vez; quando deveriam ser lavadas após alguns dias de uso, João as substituía por outras novas. Seu banheiro deveria estar sempre imaculadamente limpo e sua empregada era criticada quando algo não estava como deveria ser. Seu trabalho profissional exigia requinte, e João possuía conhecimentos artísticos, culturais e gastronômicos admiráveis. 

 

O que é perversão?

Bem antes da teorização freudiana sobre a perversão ser apresentada, este tema já tinha sido abordado por muitos outros vieses, dentro o contexto sócio-histórico no qual se manifestava (CECCARELLI & SALLES, 2010).

Lembremos, com Elisabeth Roudinesco, que a perversão

é um fenômeno sexual, político, social, físico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas: O que faríamos se não mais pudéssemos designar como bodes expiatórios – ou seja, como perversos – aqueles que aceitam traduzir por seus atos estranhos as tendências inconfessáveis que nos habitam e que recalcamos? (Roudinesco, 2007, 15)

Como sabemos, cedo Freud se interessou pelas manifestações perversas da sexualidade. No início de sua teorização sobre o tema, ele apoia-se na questão do recalque orgânico, cuja importância ele nunca abandonou.

É interessante lembrar a carta a Fliess de 6/12/1896, a antiga carta 52, na qual Freud escreve que “a histeria não é a sexualidade repudiada, e sim a perversão repudiada” (Masson, 1986, 213). Nas cartas de 11/01/1987 (Masson, 1986, 222) e de 14/11/1987 (Masson, 1986, 279) Freud relaciona a perversão como a ausência do recalque orgânico. Cabe lembrar que a questão do recalque orgânico só pode ser compreendida a partir da teoria da evolução tão cara a Freud. A ideia do trabalho da cultura (Kulturarbeit), central para se compreender a origem do processo civilizatório, nunca foi abandonada por Freud: "o desenvolvimento cultural é comparável a um processo orgânico" (Freud, 1933, 217). Na famosa carta a Einstein, Freud diz que 

ainda não nos familiarizamos com a idéia de que a evolução da civilização é um processo orgânico de domesticação [das pulsões]. As modificações psíquicas que acompanham o processo de civilização são notórias e inequívocas. Consistem num progressivo deslocamento dos fins pulsionais e numa limitação imposta aos impulsos pulsionais. Sensações que para os nossos ancestrais eram agradáveis, tornaram-se indiferentes ou até mesmo intoleráveis para nós; há motivos orgânicos para as modificações em nossos ideais éticos e estéticos (Freud, 1933a, 258).

No Mal-estar, Freud retoma a questão do recalque orgânico em uma longa nota de rodapé (Freud, 1930, 126 e seg.). Este texto nos dá informações preciosas que, a meu ver, nunca receberam a atenção que merecem. Por exemplo, que na falha do recalque orgânico a pulsão que se fixou em uma gratificação que deveria ter sido abandonada torna-se também idealizada fazendo com que o perverso, por mais estranha que seja a sua sexualidade, seja um grande esteta. 

 A primeira teorização mais elaborada sobre a perversão se dá nos Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), e é marcada pelo contraponto neurose/negativo, perversão/positivo. De forma simplificada, pode-se dizer que, neste momento, Freud entende a perversão como “a manutenção da sexualidade perverso-polimorfa na vida adulta” (Ferraz, 2002, 27), sendo a “normalidade” a primazia da sexualidade genital. Ou seja, nos Três ensaios, sobretudo no intitulado A sexualidade infantil, a perversão é definida como a fixação em uma das manifestações da polimorfia sexual infantil – fixação em uma pulsão parcial – em detrimento da primazia genital. A sexualidade genital não é alcançada e a sexualidade adulta fica restrita a uma forma parcial de satisfação.

O que mais chama a atenção nos Três ensaios é a última parte intitulada Resumo e modificada até 1924. Ali, Freud faz novas e importantes considerações sobre as perversões que não foram tratadas nos Ensaios precedentes. No Resumo, que de resumo nada tem, pois as posições freudianas em relação aos capítulos anteriores são inovadoras, a delimitação entre neurose e perversão tornam-se ainda mais indistintas. A perversão, que até então fora teorizada como o resultado da fixação da libido decorrente de um excesso de gratificação, ganha outra origem possível: uma "fraqueza constitucional da zona genital” faz com que a conjugação esperada das pulsões parciais na zona genital na puberdade fracasse, e o mais forte dos demais componentes da sexualidade continuará a sua atividade como uma perversão” (Freud, 1905, 244). Isto significa que a regressão da libido a pontos de fixação ocorreria não apenas por que tais pontos foram particularmente gratificantes mas também, e isto é novo, devido a obstáculos externos à construção da psicossexualidade. Não é senão anos mais tarde que Freud esclarece a diferença entre a sexualidade infantil e sexualidade perversa no adulto: enquanto à primeira falta a centralização das pulsões parciais, na segunda ela está centralizada na pulsão que sofreu fixação (FREUD, 1917).

Ainda no Resumo encontramos uma passagem sobre a qual, curiosamente, parece não ter recebido a atenção que merece. Em uma nota acrescentada em 1915, Freud deixa claro que, assim como a neurose, a perversão é acessível ao trabalho analítico, pois sendo uma o negativo da outra, ambas são afetadas pelo recalque (Verdrängung). Em suas palavras: 

Isto [o bloqueio do fluxo pulsional devido ao recalque] não se aplica apenas às tendências “negativas” para a perversão que aparecem nas neuroses, mas igualmente às perversões chamadas positivas. Assim, estas últimas devem originar-se não apenas de um fixação de tendências infantis, mas também de uma regressão àquelas tendências como resultado do bloqueio de outros canais da corrente sexual. É por este motivo que as perversões positivas são acessíveis à terapia psicanalítica (Freud, 1905, 239; o grifo é meu). 

No Resumo, Freud transita entre neurose e perversão com a mesma terminologia: as histéricas seriam as “pervertidas negativas”, enquanto os perversos os “perversos positivos” (Freud, 1905, 244). Devido ao mecanismo do recalque, “a neurose toma o lugar da perversão, sem que os antigos impulsos sejam extintos”; quanto à sublimação, ela se apresenta como o resultado “de uma disposição constitucional anormal” (Freud, 1905, 245), e que nossas virtudes, nada mais são do que formações reativas à nossa disposição perversa. 

 

As afirmações freudianas apresentadas no Resumo sugerem não apenas que a perversão é analisável, mas que é possível, através do trabalho analítico, que um perverso se torne neurótico. Freud parece entender o adoecer psíquico como um transbordamento do pathos, das paixões, das pulsões, das quais o psiquismo não consegue se defender: 

Aquilo a que chamamos “caráter” de um homem constrói-se, numa boa medida, a partir do material das excitações sexuais, e se compõe de pulsões fixadas desde a infância, de outras obtidas por sublimação, e de construções destinadas ao refreamento eficaz de moções perversas reconhecidas como inutilizáveis (Freud, 1905, 246).

Os Três ensaios demonstram que não existe um fantasma especificamente perverso: a sexualidade humana é, em si, perversa pois seu objetivo é o prazer e não a procriação; as perversões são “as forças motivadoras dos sintomas neuróticos” (Freud, 1905, 246); a análise da disposição artística revela uma “mistura em todas as proporções, de eficiência, perversão e neurose” (Freud, 1905, 246). Ou seja, toda organização neurótico-normal, assim como na normopatia (Ferraz, 2002a), é composta de traços, em pulsações energéticas diferentes, da sexualidade polimorficamente perversa da infância. 

Ainda nos Três Ensaios, Freud faz uma observação que mostra bem sua prudência em relação a julgamentos expeditivos, e que retoma a questão do recalque orgânico:

Em muitas dessas perversões a qualidade do novo alvo sexual é de tal ordem que requer uma apreciação especial. Algumas delas afastam-se tanto do normal em seu conteúdo que não podemos deixar de declará-las “patológicas”, sobretudo nos casos em que a pulsão sexual realiza obras assombrosas (lamber excrementos, abusar de cadáveres) na superação das resistências (vergonha, asco, horror ou dor). Nem mesmo nesses casos, porém, pode-se ter uma expectativa certeira de que em seus autores se revelem regularmente pessoas com outras anormalidades graves ou doentes mentais. Tampouco nesses casos pode-se passar por cima do fato de que pessoas cuja conduta é normal em outros aspectos colocam-se como doentes apenas no campo da vida sexual, sob o domínio da mais irrefreável de todas as pulsões. Por outro lado, a anormalidade manifesta nas outras relações da vida costuma mostrar invariavelmente um fundo de conduta sexual anormal (Freud, 1905, 151).

Com as formulações do complexo de Édipo e um melhor entendimento da dinâmica das identificações, Freud apresenta novos elementos para a compreensão das perversões: trata-se da fantasia sadomasoquista descrita em Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo das perversões sexuais (FREUD, 1919). Ali, a perversão é teorizada a partir dos destinos do complexo edipiano. 

O terceiro momento das formulações freudianas sobre a perversão se dá no artigo Fetichismo (FREUD, 1927a), considerado por muitos como a única teorização válida sobre a perversão, no qual a recusa (Verleugnung) é apresentada como o mecanismo central da perversão. "O fetiche é um substituto do pênis da mulher (da mãe) em que o menininho outrora acreditou e que – por razões que nos são familiares – não deseja abandonar" (Freud, 1927a, 180). "A palavra alemã correta para a vicissitude da ideia", continua Freud, "seria 'Verleugnung' ['rejeição"]". Para que a recusa da percepção da ausência do pênis seja mantida é necessário a clivagem do Eu (Ichspaltung) que permitirá que as duas atitudes – recusar e, ao mesmo tempo, perceber a falta – sejam mantidas lado a lado (FREUD, 1938).

Entretanto, como já o observara Laplanche & Pontalis (1968), não fica claro o que está sendo recusado: a falta de pênis, neste caso seria difícil falar de percepção, ou a própria castração, o que implicaria não em uma percepção mas, em uma teoria explicativa, isto é, uma teoria sexual infantil.  Seja como for, circunscrever a perversão a partir da recusa não apenas limita a sua compreensão, como a torna ainda mais complexa: tanto a recusa quanto seu coadjuvante, a divisão do ego, estão presentes em outras organizações psíquicas (FREUD, 1927a; 1938a; 1938). Talvez seja por isso que Freud não apresente uma formulação exaustiva sobre as perversões, sustentando que elas não seriam analisáveis, e nem tampouco uma diferenciação clara e definitiva entre as perversões e outras dinâmicas pulsionais. Freud refere-se ao O homem dos ratos (FREUD, 1909) e a Dostoievski (FREUD, 1928) tanto como neuróticos quanto como perversos. Ademais, ao privilegiarmos o mecanismo da recusa, corremos o risco de mascararmos outros movimentos pulsionais importantes presentes nessa dinâmica pulsional.

O interesse desta breve digressão é de insistir sobre a complementariedade de cada um destes três momentos de elaboração freudiana sobre as perversões. A clínica nos informa das múltiplas faces da perversão, algumas das quais não são sustentáveis pelo mecanismo da recusa. Acredito que a perversão, assim como qualquer outro sintoma, deva ser entendida, antes de mais nada, como o arranjo possível que o sujeito pôde fazer em sua tentativa de sobreviver psiquicamente (CECARELLI & SANTOS, 2009).

Depois de Freud

Após Freud, as publicações psicanalíticas sobre o 'fenômeno perverso' variam significativamente de um modelo teórico a outro, deixando clara a falta consenso relativo à compreensão desta expressão da sexualidade (McDOUGALL, 1972, 1997; STEWART, 1972; STOLLER, 1975. 1984; KHAN, 1979; CHASSEGUET-SMIRGEL, 1987; LACAN, 1994, 1998; DOR, 1991; KERNBERG, 1998; PEIXOTO JÚNIOR, 1999; FERRAZ, 2000, 2002; AULAGNIER-SPAIRANI, 2003; COUTINHO, 2004; QUEIROZ, 2004). 

Como escrevi em outro local

A desarmonia entre as diferentes escolas de psicanálise, tanto no uso da palavra “perversão”, quanto na apreensão e compreensão do fenômeno é tão conhecida que dispensa comentários. Cada modelo clínico propõe uma interpretação diferente direcionando a escuta e, conseqüentemente, a direção do tratamento desta manifestação da sexualidade. Tanto autores da Escola Inglesa [Khan, 1979], quanto da Americana [Stoller, 1975], relatam acompanhamentos clínicos de sujeitos perversos cujos resultados foram considerados, por esses autores, como satisfatórios. Já a Escola Francesa de Jacques Lacan entende a perversão como uma estrutura que resiste ao trabalho analítico. Logo, o perverso, contrariamente à afirmação freudiana, não é analisável. Ora, como entender essas diferenças cujos desdobramentos teórico-clínico-éticos tem conseqüências de peso? (Ceccarelli, 2005, 47)

Uma leitura atenta de certos autores sugere uma "imposição teórica" (Ceccarelli & Santos, 2010, 35), pois a escuta clínica passa ao segundo plano frente a uma teoria que é superestimada. A partir dai, o perverso é tratado como desviante em relação a uma normalidade sócio-historicamente construída. Os desdobramentos clínicos que se seguem – a escuta e a direção do tratamento – terão implicações ético-morais que devem ser avaliadas.

A polimorfia perversa da pulsão sexual infantil parece ter sido esquecida, o que deu à perversão uma conotação pejorativa carregada de moralismo. Junta-se a isto o fato de que, muitas vezes, o discurso psicanalítico vem sendo utilizado para ditar a "circulação pulsional normal". À psicanálise, nos lembra Freud, cabe apenas "revelar os mecanismos psíquicos que culminaram na determinação da escolha de objeto, e remontar os caminhos que levam deles até as disposições pulsionais" (Freud, 1920, 211).

Como o dissemos, para alguns como a única teorização válida sobre a perversão, gira em torno do mecanismo da recusa (Verleugnung). Recusa que, segundo Lacan (1984, 1998), levaria à fixação do gozo em um objeto imaginário em vez de centrá-lo na função simbólica que organiza o desejo a partir da castração. Para o neurótico, o interesse no objeto residiria nos efeitos do desejo que a falta suscita; para o perverso o objeto fetiche serviria para recuperar o gozo proscrito pela interdição do incesto. O fetiche cumpre, então, uma dupla função: recusar a castração e a garantir o gozo graças a um objeto concreto (um sapato, um roupa.. o "brilho no nariz"…). Ora, resta saber se esta teorização, sem dúvida coerente, em torno da recusa serve para dizer que o perverso, ao recusar a castração, está recusando a lei geradora das angústias necessárias à busca de análise. Dizer que todo perverso está assujeitado a este destino, implica em uma posição determinista e, no fundo, simplista, refratária aos pressupostos da psicanálise. Toda perversão tem a mesma origem? A demanda de análise é uma exclusividade do neurótico ou a demanda do perverso não se apresentaria sob outras formas?  (QUEIROZ, 2004)

Ao mesmo tempo, observar-se o uso cada vez mais frequente o rótulo "perverso" (um novo fetiche?) para diagnosticar apressadamente comportamentos que provocam angústia e estranheza: a normalidade vem sendo cada vez mais patologizada (CECCARELLI, 2010). Impressiona-me o número de casos clínicos, de trabalhos universitários nos mais diversos âmbitos nos quais uma atitude provocativa e desafiadora, por exemplo por parte de uma criança ou de alguém à procura de análise, é rapidamente teorizada como "gozo", e o sujeito como perverso, sem que uma exploração mais profunda da dinâmica pulsional relativa à "perversão" apresentada tenha sido feita.

A partir do que foi dito até aqui sobre a perversão, como entender a psicossexualidade de João? Uma estrutura? Uma dinâmica pulsional? Uma fixação a uma pulsão parcial? Com que ouvido escutá-lo?

 

Algumas considerações sobre o caso clínico

O trabalho analítico permitiu que João elaborasse as fantasias subjacentes as suas práticas sexuais, o que lhe possibilitou compreendê-las melhor: Wo Es war, soll Ich werden. Suas práticas sexuais tornaram-se menos compulsivas e ele pôde encontrar outras formas de prazer em suas relações. Entretanto, quando "sentiu-[se] apaixonado pela primeira vez" João foi tomando por uma grande angústia, pois foi-lhe difícil se reconhecer em sua nova vida sexual: a fantasia subjacente era que ao mudar sua sexualidade, ele correria o risco de perdê-la completamente. Aos poucos, o afeto que se manifestava em forma de angústia ligado ao medo de mudanças foi sendo reinvestido em relações afetivas mais estáveis, menos persecutórias, o que o levou a investimentos não erotizados.

A tortura que infligia ao pênis dos parceiros era uma vingança e, ao mesmo tempo uma defesa, contra seu pai e, por extensão, contra os homens em geral. Por condensação e deslocamento, o pênis, objeto idealizado e persecutório, foi transformado em objeto total que ele pode, finalmente, controlar e possuir. A supervalorização do objeto é uma forma de "provar a si mesmo e aos outros a superioridade da dimensão pré-genital sobre o universo do pai" (Chasseguet-Smirgel, 1987, 129).

Sua prática escatofílica foi associada aos momentos quando, ainda criança, sua mãe o acompanhava ao banheiro, que se encontrava fora da casa, para seu "cocô matinal". Sua mãe o esperava de fora e reclamava muito do frio. João se sentia obrigado a fazer um grande esforço para evacuar rapidamente "toda minha sujeira e deixar minha mãe contente". Em seguida, era a vez de sua mãe utilizar o toalete. "Que coisa mais doida", disse, "não era eu que tinha vontade de fazer cocô, era minha mãe!" Para João, tudo que ele produzia – sua capacidade de amar, de ser amado, de fazer amizades – estava condensado na sua capacidade de fazer cocô; e tudo isto era sujo como suas fezes. Por associação, o interior de seu corpo era também sujo. 

A fantasia central de João era que toda esta sujeira vinha de sua mãe, ou melhor de seu interior. Porém João, que esteve no interior daquele corpo, não seria também sujo? A partir desta fantasia fundamental ele compreendeu que as "scato parties" das quais participava tinham como objetivo principal saber se seus produtos, seu interior, eram mais sujos ou menos sujos do que as produções dos outros. As fezes líquidas, tão temidas por João, foram associadas, através de sonhos e devaneios, ao leite maternal que nunca o alimentara de fato: "este leite que vinha do interior do corpo de minha mãe era seguramente sujo." 

Por outro lado, acredito que a relação de João com a mãe quando utilizavam o banheiro o salvou de soluções mais radicais como, por exemplo, da psicose: as únicas lembrança de trocas afetivas que ele tinha entre ele e sua mãe ocorrerem nestes momentos. Ou seja, a erotização das fezes, e seu contrário o excesso de limpeza, criaram entre João e sua mãe uma território privilegiado de trocas sem que, no entanto, as fezes tenham sido transformadas em objeto fetiche. Isto o levou a pensar que, apesar de tudo, suas fezes eram mais limpas que as dos outros, sugerindo que a relação com sua mãe tenha sido suficientemente boa. Como isto, João pôde obter o mínimo de afeto necessário para evitar arranjos psíquicos mais catastróficos.

Finalmente, cabe observar que a rigidez dos padrões estéticos de João, bem próximos de algumas exigências artísticas, são comumente observáveis neste tipo de dinâmica pulsional, como já o observara Freud (1910). Com efeito, "se alguém que não soubesse do que se trata escutasse uma discussão sobre as condições necessárias à gratificação sexual perversa, ser-lhe-ia muito difícil distingui-la de uma de discussão estética sobre os cânones de 'belo' e do 'feio'" (Chasseguet-Smirgel, 1987, 131).

 

A escuta do perverso

Escutar o perverso exige que o analista suporte o ódio que aparece na transferência sob várias formas, em particular como desdém pelo trabalho do analista, o que corrobora a posição de Stoller (1975) que entende a perversão como uma erotização do ódio. Há de se ter o investimento necessário para seguir os movimentos regressivos destes sujeitos pela tortuosa, repetitiva e monótona trilha da sexualidade pré-genital até os pontos de fixação da libido. Uma das grandes dificuldades na clínica da perversão é ter a disposição necessária para suportar os movimentos transferências, pois estamos lidando com fixações libidinais prégenitais que implicam em relações narcísicas, em um período no qual as relações de objeto estão ainda se constituindo. Ao analista, cabe apenas acompanhar aqueles que tentam entender a dinâmica psíquica que subjaz a seus desejos, a seus atos e à suas "escolhas". Neste sentido, reconhecermos em nós mesmo os traços do perverso polimorfo de outrora é condição necessária e fundamental para exercermos uma profissão, cujos pressupostos de base repousam, essencialmente, sobre as vicissitudes da polimorfia da sexualidade perversa infantil sempre pronta a fazer irrupções das mais variadas formas e em momentos imprevisíveis. 

O que está em jogo aqui é a maneira que o analista responde ao real, aos restos não analisáveis, de sua sexualidade perverso-polimorfa inconsciente, e aos riscos de respostas perversas devido ao poder que a transferência lhe confere (CECCARELLI, 2004). Gabbard e Lester (1995), nos alertam sobre os perigos das "gratificações narcísicas" através das quais o analista tenta assegurar-se de sua "superioridade moral e intelectual" em relação ao paciente, fazendo do trabalho analítico um expediente para explorar pontos não trabalhados em sua própria análise.

Nesta perspectiva, cabe perguntar se os ‘perversos inanalisáveis’ são realmente inanalisáveis, o que pode, de fato, acontecer, ou se esta "inanalisibilidade" seria uma defesa do analista frente às dificuldades de escutá-lo. Pode a clínica da perversão ser limitada pela teoria que a descreve e orienta sua escuta? Toda perversão responde "a uma organização definitiva na qual o perverso passa pelo enquistamento de toda a economia do desejo, que contribuirá para a instalação de uma fixação psíquica irreversível" (Dor,1991, 30)? Se toda organização perversa é definitiva e o objeto fetiche está ali para recuperar o gozo proscrito pela lei, o que fazer com casos como o de João? Deveríamos não segui-lo em seu trabalho analítico por tratar-se de um "caso perdido", posto que nada pode ser feito em relação a sua estrutura perversa? 

É importante não nos esquecermos que é a grade teórica que utilizamos que vai "diagnosticar" a dinâmica psíquica cuja manifestação estamos ouvindo e, muitas vezes, testemunhando sua encarnação no corpo. Cada contexto sócio-histórico tem a sua psicopatologia (Pessotti, 1995), isto é, suas tentativas de “decompor” o sofrimento psíquico em seus elementos de base para tentar compreendê-los, classificá-los, estudá-los, enfim, tratá-los. Com resultado temos, ao longo da história, várias psicopatologia: vários logos (discurso, saber) sobre o patos (as paixões) que animam a psique (alma); cada uma com referências próprias e diferentes perspectivas teórico-clínicas. A "psico-análise" é uma análise no sentido que a química dá a esse termo. Para Freud existe uma analogia entre o trabalho realizado pelo químico e pelo psicanalista, pois "os sintomas e as manifestações patológicas do paciente, como todas as suas atividades mentais, são de natureza altamente complexa; os elementos desse composto são, no fundo, motivos, impulsos instintuais"(Freud 1919a, p. 202).

Escutar a variedade das manifestações perversas da sexualidade a partir de uma só referência teórico-clinica, ou seja adequar a escuta a uma categoria nosográfica rígida, atesta um embotamento clínico que produz um marasmo teórico, fazendo-nos regredir ao modelo psiquiátrico clássico do sec. XIX e anular a riqueza da descoberta freudiana. 

 

Afinal, qual é o "diagnóstico de João?

Histeria grave? Obsessivo? Perverso? Psicótico? Estado limite? Caráter narcísico com profundas fixações anais? Estrutura perversa inanalisável? Mas, a que serviria rotulá-lo? Se conseguirmos ter a distância contratransferencial suficiente e a ética da escuta, não veríamos ai simplesmente um sujeito que em sua tentativa de sobreviver psiquicamente lança mão, não sem dor, angústia e aferrado defensivamente à onipotência infantil própria do período prégenital, do arsenal defensivo adquirido na infância, para construir uma forma de sexualidade? E ele sobreviveu malgrado os momentos de intenso pânico devido a profundas angústias de aniquilamento. 

Mais ainda: mesmo que concordemos sobre o uso do termo "perversão" para estes casos, como ouvi-la? Na vertente estrutural ou na vertente filogenética? Quais as consequências clínicas de cada uma?

As apresentações do sexual, esta alteridade interna que nos lembra sem cessar que não somos senhores em nossa própria casa, traduz uma história libidinal resultado de um percurso pulsional que repousa sobre as identificações – sempre em movimento – constitutivas do Eu. É isso que determinará como o sujeito vive, consciente e inconscientemente, a sua sexualidade e como investirá, de maneira manifesta ou latente, os objetos dos dois sexos, criando imaginariamente o fantasma do sexo que ele não possui, e construindo a representação psíquica de corpo próprio. A "saúde psíquica" reside no equilíbrio dinâmico das tendências pulsionais homossexuais e heterossexuais, pois "em todos nós, no decorrer da vida a libido oscila normalmente entre objetos masculinos e femininos" (Freud, 1976, 196). 

As manifestações da sexualidade, por mais insólitas que possam parecer, são sempre únicas por traduzirem soluções aos conflitos – reais ou imaginários – presentes desde o início da vida. A análise destas manifestações mostra que estas "invenções" são, no fundo, rearranjos de velhos conflitos que, quando criança, o sujeito teve que enfrentar na constituição de sua psicossexualidade. Aqui, o conceito de neo-sexualidade é muito útil, pois descreve soluções psíquicas inovadoras resultados de arranjos libidinais, verdadeiro teatro erótico, destinas a proteger a criança contra uma angústia de castração esmagadora (McDOUGALL, 1997). Já a perversão "seria a tentativa de impor a imaginação erótica a um outro que não consentisse nisso ou que não fosse responsável" (McDougall, 1997, 192). Nesta perspectiva, creio poder definir a "sexualidade normal", que varia segundo cada sujeito, como aquela que resgata a polimorfia infantil, em uma relação de objeto na qual o desejo do outro é levado em contra, centrada na primazia genital. 

Análises como a de João nos mostram que a fixação da libido em pontos conflituais perpetua a sexualidade infantil, fazendo com que a sexualidade adulta torne-se uma repetição empobrecida da infantil. Com João, aprendemos sobre a dimensão assustadora da angústia que se esconde por trás da compulsividade da sexualidade perversa, e sobre as desesperadas tentativas de se chegar a um "acordo" entre as demandas pulsionais e o trabalho de cultura. 

A angústia é a mãe da invenção no teatro psíquico

                                   Joyce McDougall

 

Paulo Roberto Ceccarelli*

e-mail: paulocbh@pq.cnpq.br

site: www.ceccarelli.psc.br

 

 

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